Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
22 Jul, 2020 - 09:05

Beber água depois de comer melão ou melancia faz mal?

Nutricionista Hugo Canelas

Esta é uma das crenças que continua enraizada na nossa cultura alimentar, mas será que faz sentido dizer que beber água depois de comer melão e melancia faz mal?

Beber água depois de comer melão e melancia

Mitos e crenças são parte integral das ciências da nutrição, muitos deles enraizados na nossa cultura e outros perpetuados pelo medo de algumas interações entre alimentos que podem ser potencialmente danosas para a nossa saúde.

Um dos mitos mais comuns é o que diz respeito a beber água depois de comer melão ou melancia.

A verdade é que embora muitas pessoas não refiram quaisquer sintomas após associar estes dois alimentos, o “medo” continua a existir para muitos, especialmente os mais velhos. Mas haverá fundamento para este mito?

Beber água depois de comer melão e melancia faz mal?

Características nutricionais do melão e da melancia

Prato com fatias de melancia

Estes dois frutos são muito semelhantes entre si. Em primeiro lugar, são ambos relacionados com o pepino, a curgete e a abóbora. Em segundo lugar, são extremamente ricos em água e pobres em calorias.

Na verdade, 100 g de melão ou melancia oferece, em média, entre 26 e 30 calorias, 5,6 g de hidratos de carbono e 93 g de água. São ainda boas fontes de licopeno e vitamina A, em especial o melão (1).

Estas características fazem com que estes frutos sejam bastante procurados no verão, sendo predominantemente consumidos frescos, em sumos ou em smoothies.

Por que é que se diz que beber água depois de comer melão ou melancia faz mal?

Homem a servir água a clientes num restaurante

Na verdade, embora grande parte dos profissionais de saúde já tenha confirmado que este mito é falso, alguns afirmam que a riqueza em água destes frutos faz com que o pH do estômago – que geralmente se situa entre 1 e 4 – aumente.

Este aumento estará relacionado com a suposta “diluição” do ácido do estômago, que irá impossibilitar a ativação de algumas enzimas e tornar a digestão menos eficiente, potenciando sintomas com desconforto gástrico e enfartamento. No entanto, este não é um argumento válido.

A diminuição do pH do estômago não é um argumento válido

Quando falamos em diluição de ácidos orgânicos e alteração do pH, temos que ter presente que, no caso de um ácido forte, o pH esperado é em torno de 1, ou seja, muito ácido. Nestes casos, o pH trabalha numa função logarítmica de base 10, o que significa que para o pH subir de 1 para 2, o ácido deve ser diluído 10 vezes.

Em condições controladas, como em laboratório, a concentração do ácido apenas é alterada pela diluição em água destilada, mas quando falamos em suco gástrico, vários fatores, ambientais ou mesmo doenças, podem contribuir para alterar este parâmetro.

Mulher com mão no estômago

Quando se dá a ingestão de alimentos, é ativada uma hormona (gastrina) que faz com que seja libertado ácido clorídrico, enzimas e água para fazer a digestão. Em média, 2000 a 2500 mL de suco gástrico são libertados diariamente (2).

Embora o ácido do suco gástrico seja variável, a pepsina (a enzima responsável pela quebra das proteínas) tem um pH ótimo de 2 e só a partir dos 3,6 este processo começa a ser comprometido. A enzima só consegue ser inativada com um pH de 6.

Para potenciar uma alteração tão grande de pH gástrico, seriam necessários mais litros de água e quilos de melancia do que o estômago humano suporta.

Além disso, tanto a melancia como o melão não têm proteínas para desnaturar, pelo que se trata de um alimento de fácil digestão pelo seu teor quase exclusivo em água e açúcar.

Então, beber água após comer melão ou melancia faz mal? Não existe evidência de que estes alimentos, quando consumidos com água, tragam algum prejuízo para a saúde, nomeadamente dificuldade de digestão. Relatos de indigestão ou enfartamento após a ingestão destes alimentos deve ser avaliada caso a caso.

Fontes

  1. INSA. (n.d.). Tabela da composição de alimentos. Disponível em: http://www2.insa.pt/sites/INSA/Portugues/AreasCientificas/AlimentNutricao/AplicacoesOnline/TabelaAlimentos/Paginas/TabelaAlimentos.aspx
  2. Mahan, L.K., Raymond, J.L. (2017). Krause’s Food and Nutrition Care Process. 14th Edition. St Louis, Missouri.
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