Catarina Milheiro
Catarina Milheiro
12 Ago, 2022 - 13:15

Atraso da linguagem em crianças: como detetar e agir

Catarina Milheiro

O atraso da linguagem pode estar relacionado com a experiência social de cada criança. Saiba como detetar os seus sinais e como agir.

Afinal, o que acontece quando a criança não consegue comunicar de forma parecida a outras crianças da sua idade? A verdade é que os motivos podem ser vários, sendo que um dos mais comuns é haver um atraso da linguagem.

O atraso simples da linguagem trata-se de uma dificuldade leve no momento em que os mais pequenos têm de desenvolver a sua própria linguagem – algo que a longo prazo, não representa um problema à primeira vista.

E apesar de haver uma predisposição genética no ser humano para desenvolver a linguagem e falar de forma espontânea, a experiência social é crucial para que esta se desenvolva de forma correta e eficaz.

No fundo, a linguagem é a nossa base de comunicação. Trata-se de um sistema de gestos, estruturados através de algumas regras que permitem combinar sons para formar palavras, palavras para formar frases e frases para expressar sentimentos e pensamentos.

Atraso da linguagem: um problema mais comum do que pensamos

Quanto mais tarde as crianças vão para a escola, maior é a probabilidade de desenvolverem um atraso na linguagem. Claro que esta questão também irá depender de outros fatores.

Ou seja, se estivermos perante uma criança com 2 ou 3 anos que tem a possibilidade de ficar em casa com os progenitores ou com alguém que tome conta dela, mas que socialize frequentemente com outras crianças, provavelmente tem vindo a praticar a sua linguagem.

No entanto, a verdade é que os infantários, pré-escolas e escolas têm um papel muito importante na vida dos mais pequenos. Para além de os ajudar a tornarem-se mais autónomos em algumas tarefas diárias simples, são ótimos para o desenvolvimento da linguagem dos mais pequenos.

Isto porque quando as crianças convivem diariamente com outras, elas vão sentir uma enorme vontade de conseguirem comunicar umas com as outras. Seja através de gestos ou da fala, o importante é que se esforcem por comunicar.

Além disto, muitas vezes chegamos a casa cansados e já só queremos terminar todas as tarefas para podermos descansar um pouco, como é perfeitamente normal. O que faz com que, por vezes, não estimulemos de forma correta os mais pequenos sem nos apercebermos.

Algo que não acontece nas escolas: em que as educadoras, auxiliares e outros colegas precisam mesmo de se esforçar para conseguirem falar uns com os outros.

Em que consiste o atraso simples da linguagem?

Quando uma criança não tem uma linguagem de acordo com a sua idade, é provável que esteja a passar por um atraso na mesma.

O atraso simples da linguagem (ASL) é uma disfunção na qual existe um desfasamento cronológico entre aquilo que seria de esperar da sua idade e a linguagem da criança – sem que exista nenhum déficit sensorial, motriz ou intelectual que o justifique.

Normalmente, diagnostica-se entre os 2 e os 6 anos (idade em que a criança já começou a sua aprendizagem da linguagem).

Provavelmente deve estar a questionar-se sobre a forma como este atraso pode afetar o desenvolvimento da linguagem, não é assim? Pode ser de um modo geral ou apenas os aspetos fonológicos, morfossintáticos e semânticos – que são os mais comuns.

Para além disto, saiba que o mais frequente é que se apresente como uma carência do aspeto compreensivo, expressivo e articulatório.

Como se deteta e quais são as características para as quais devemos estar atentos?

Nos casos em que há um atraso da linguagem, as primeiras palavras da criança começam a aparecer por volta dos 2 anos de idade, em vez de no primeiro ano de vida. De salientar que estas palavras já são diferentes de “mamã” ou “papá”.

Por outro lado, a união de duas palavras manifesta-se depois dos 3 anos de idade. Por exemplo: “céu azul”, que deveria acontecer por volta dos 18 meses de idade.

Mas para que não fique confuso, fizemos uma listagem com alguns sinais que podem indicar a existência deste atraso:

  • Ter um vocabulário bastante reduzido, omissão de sílabas e fala infantilizada;
  • Referir uma palavra para expressar uma ideia depois dos 3 anos de idade. Por exemplo: dizer papá enquanto aponta para aquilo que quer;
  • Dificuldade de distinguir as cores e lacunas espácio-temporais;
  • Não dizer frases completas e não ser capaz de conjugar os verbos corretamente entre os 4 e 5 anos de idade;
  • Não referir artigos nem pronomes possessivos até aos 4 e 5 anos também;
  • Utilizar o pronome eu, a partir dos 4 anos;
  • Tendência a recorrer a gestos e mímica para compensar a expressão verbal reduzida.

Quando este tipo de aspetos são detetados na criança é essencial que consulte o pediatra, a fim de poderem juntos, perceber qual será a melhor intervenção para ela.

4 dicas para ajudar o seu filho nestas situações

1.

Estimular

Converse com os seus filhos utilizando um vocabulário vasto, leiam histórias juntos e faça atividades que favorecem uma melhoria no desenvolvimento da linguagem.

2.

Não corrigir erros de forma explícita

Se a criança disser uma palavra mal, não corrija de forma totalmente explícita. Em vez disso, opte por incluí-la numa frase. Por exemplo: se a criança diz “iorgute”, responda “vamos comer um iogurte os dois lá fora”.

3.

Não se antecipar às exigências da criança

Para que ela se esforce para comunicar, é essencial que não fale por ela, termine frases ou que se antecipe de alguma forma às suas exigências.

Em vez disso, dê-lhe tempo para expressar-se e incentive o uso da linguagem oral.

4.

Incentivar à autonomia

Mostre que o seu filho é capaz de fazer tudo – isto só vai aumentar a sua autoestima e fazer com que se sinta mais seguro para expressar o que sente sem que tenha medos.

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