Psicóloga Ana Graça
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28 Out, 2020 - 10:30

Atividades extracurriculares: benefícios e cuidados a ter

Psicóloga Ana Graça

A prática de atividades extracurriculares parece ser benéfica e aconselhável, mas há cuidados a ter na ocupação do tempo das crianças. Saiba quais.

Atividades extracurriculares: criança numa aula de violino

As crianças passam grande parte do seu tempo na escola e, muitas delas, no final das aulas, frequentam outras atividades com um formato semelhante. Mas será que essa é a escolha das crianças ou será que está dependente do trabalho dos adultos e das suas rotinas? Será que lhes resta tempo para o que realmente gostam de fazer? Vamos conhecer o que são atividades extracurriculares e quais as suas vantagens e desvantagens.

A ocupação do tempo das crianças

Crianças a brincar em casa

Inevitavelmente, muitos pais vêm a sua agenda lotada. Sentem falta de tempo para estar com os filhos e dificuldade na gestão e ocupação do tempo livre dos mais pequenos.

Como consequência, cada vez mais cedo as crianças parecem também ter o seu dia a dia ocupado com uma agenda repleta de compromissos, que podem ou não ser escolhidos (ou influenciados) pelos pais, restando pouco tempo para a brincadeira espontânea (1).

Durante o dia, as crianças têm várias atividades para além das atividades escolares, nomeadamente a realização dos trabalhos de casa, aulas de inglês, de expressões artísticas, desporto, catequese, atividades de enriquecimento curricular e atividades de tempos livres.

Alguns autores defendem que, quando existe uma sobrecarga de todas estas atividades é possível que os mais pequenos sintam falta de tempo para descansar, excesso de trabalho, stress ou ansiedade, que podem conduzir a problemas de comportamento e a indisciplina (2).

As atividades extracurriculares são importantes? Sim!

Num mundo tão competitivo, em que se procura profissionais cada vez mais completos em diversas áreas, as atividades extracurriculares ganharam um estatuto de maior notoriedade, pelos inúmeros benefícios que trazem à vida de crianças e jovens, bem como por ajudarem os pais a conciliar a vida profissional com a vida familiar.

De forma geral, a literatura existente confirma os benefícios físicos, psicológicos e sociais que as atividades extracurriculares apresentam. As investigações mostram que a prática destas atividades está associada a resultados muito positivos, tais como (3):

  1. Maior poder de iniciativa.
  2. Desenvolvimento de competências.
  3. Maior capacidade para estabelecer objetivos.
  4. Vida social estimulante.
  5. Menores probabilidades de abandono escolar.
  6. Maior probabilidade de continuar o ensino pós-secundário.
  7. Maior tolerância perante a diversidade.
  8. Elevada confiança pessoal, sentimentos e atitudes positivas.
  9. Melhor ajustamento psicossocial, maior capacidade de socialização e aceitação pelos pares e baixo comportamento antissocial.
  10. Baixos níveis de depressão.
  11. Maior capacidade de gestão emocional.
  12. Maior sentimento de pertença.

Mas, há cuidados a ter…

Menino a fazer trabalhos de casa

Como vimos, as atividades extracurriculares apresentam diversos benefícios, mas há cuidados a ter, nomeadamente, é importante que estas atividades não sejam planeadas apenas tendo em conta os interesses, preferências e agenda dos pais.

Importa, por exemplo, ter em conta o talento que as crianças efetivamente têm para as atividades extracurriculares que praticam, já que a investigação mostra que a prática de atividades que não correspondem ao talento da criança pode trazer mal-estar psicológico, frustração e sentimentos de incompetência, dado o nível de dificuldade ser superior à sua capacidade de resolução/execução.

Mais ainda, há outros aspetos a considerar na escolha das atividades extracurriculares a frequentar, nomeadamente: a possibilidade das crianças as sentirem como excessivas; a diversificação da oferta; adequação aos pontos fortes e às limitações de cada criança (3).

A reter

Por vezes, as atividades extracurriculares são encaradas com alguma dualidade. Ora, se por um lado podem ocupar o lugar da brincadeira, do jogo livre e da autonomia na escolha da ocupação dos tempos livres; por outro lado, podem permitir às crianças interagir com os pares, bem como podem assumir um importante carácter lúdico ou de prazer na vida dos mais pequenos.

Em suma, estas atividades parecem estar recheadas de vantagens e benefícios. Todavia, importa que os adultos não se esqueçam que o lazer, a brincadeira e ter tempo para não fazer nada são igualmente essenciais no desenvolvimento das crianças (1).

Fontes

  1. Rodrigues, R. (2009). Atividades extracurriculares: antídoto ou veneno? Análise das atividades extracurriculares praticadas por crianças de 10 a 13 anos de uma escola particular. Disponível em: https://www.repository.utl.pt/bitstream/10400.5/1804/4/Tese_Rosane_DocPrincipal.pdf
  2. Mendes, A., Figueiredo, M., Rocha, J. (2019). O tempo das crianças entre a escola e a família. Livro de Atas: Olhares sobre a Educação 7. Disponível em: https://repositorio.ipv.pt/bitstream/10400.19/6082/1/Atas_Olhares_7_19.pdf#page=172
  3. Santos, R., Nobre-Lima, L. (2015).A influência da prática de atividades extracurriculares no autoconceito de crianças dos terceiro e quarto anos de escolaridade. Disponível em: https://eg.uc.pt/bitstream/10316/47197/1/A%20INFLU%c3%8aNCIA%20DA%20PR%c3%81TICA%20DE%20ATIVIDADES%20EXTRACURRICULARES%20NO%20AUTOCONCEITO%20DE%20CRIAN%c3%87AS%20DOS%20TERCEIRO%20E%20QUARTO%20ANOS%20DE%20ESCOLARIDADE.pdf
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