Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
31 Out, 2018 - 13:34

Fact-check: água com limão é uma forma de depurar o organismo?

Nutricionista Hugo Canelas

Contar que a água com limão vá compensar a quantidade de asneiras feitas no dia-a-dia é bastante rebuscado.

Mulher a beber água com limão
fact-check impreciso

Questão em análise

A principal razão por detrás da popularidade da água com limão é a sua suposta capacidade alcalinizante. No entanto, embora os subprodutos de digestão seja alcalinizantes, este efeito apenas se verifica no pH da urina e não no do sangue. Se incluir limão na água melhora o sabor e o vai fazer beber mais, força nisso! Para além da quantidade de líquidos bebida, vai ainda obter alguma vitamina C e antioxidantes.

Não. Beber água é saudável, sendo o benefício mais óbvio o de manter o estado de hidratação.

A principal razão por detrás da popularidade da água com limão é a sua suposta capacidade alcalinizante. No entanto, embora os subprodutos de digestão seja alcalinizantes, este efeito apenas se verifica no pH da urina e não no do sangue.

Na verdade, a bibliografia disponível em relação ao tema é muito escassa e quase sempre se refere às abordagens detox como um todo.

No entanto, todas as revisões disponíveis chegam á mesma conclusão: a água com limão, ou outros ingredientes não alcalinizam o sangue, não protegem do cancro, mas podem ter benefícios na saúde cardiovascular e renal.

Se incluir limão na água melhora o sabor e o vai fazer beber mais, força nisso! Para além da quantidade de líquidos bebida, vai ainda obter alguma vitamina C e antioxidantes.

No entanto, contar que a água com limão vá tornar o pH do sangue menos ácido e compensar a quantidade de radicais livres criada por maus hábitos alimentares e estilo de vida em geral é bastante rebuscado.

BEBER ÁGUA COM LIMÃO: O QUE SÃO “DETOXES”?

detox: beber água com limão

Há abordagens “detox” para todos os gostos, incluindo dietas e terapias. A premissa de tais estratégias é a de promover a remoção das toxinas criadas no corpo, auxiliando a perda de peso e melhorando o estado de saúde geral.

Estes programas pode envolver um ou mais processo que incluem jejum, utilização de determinados suplementos ou ervas medicinais, sumos, enemas, laxantes, hidroterapia colónica, saunas entre outros. 

O que diz a ciência acerca destas abordagens?

Existem poucos trabalhos acerca da eficácia dos programas detox em modelos humanos. Enquanto uns obtiveram resultados positivos em termos de perda de peso e gordura corporal mas também melhoria de marcadores metabólicos e cardiovasculares, apresentam baixa qualidade, com problemas de desenho e baixo número de participantes.

Uma revisão de 2015 concluiu que não existe dados suficientes para confirmar o uso de abordagens detox na perda de peso ou eliminação de toxinas do organismo (1).

Uma outra revisão de 2017 refere que dietas detox e batidos/sumos de frutas e vegetais podem provocar perda de peso inicial, devido ao défice calórico criado, mas que o peso volta uma vez retomada a dieta “normal” (2).

Embora não existam estudos que analisem os efeitos a longo prazo deste tipo de abordagens, um caso estudo de 2018 reporta hiponatremia grave (baixa de sódio) associada a sintomas neurológicos após consumo de preparações herbais com fins de desintoxicação (3).

OS SUPOSTOS BENEFÍCIOS DAS DIETAS ALCALINAS

Dietas alcalinas: mulher a beber água com limão e outros frutos

As dietas alcalinas têm ganho alguns adeptos nos últimos anos. A premissa principal é de que os alimentos que comemos podem alterar o pH ou acidez do nosso corpo.

Os defensores destas dietas acreditam que ingerir quantidades de alimentos significantes pode diminuir o pH do nosso organismo, aumentando a sua vulnerabilidade e predisposição para doenças como a osteoporose e alguns tipos de cancro.

Convém explicar que o efeito acidificante ou alcalinizante de um alimento tem pouco ou nada a ver com o pH desse mesmo alimento antes da digestão, dependendo sim dos subprodutos produzidos após este processo.

O PRAL (ou carga renal ácida potencial) é uma fórmula aplicada em laboratório e diz respeito à quantidade de ácido que se espera que chegue aos rins após a metabolização dos alimentos (4).

Os nutrientes acídicos como as proteínas, o fósforo e os compostos de enxofre aumentam a quantidade de ácido que os rins devem filtrar. Carnes e grãos, que tendencialmente apresentam maiores quantidades destes nutrientes, possuem um PRAL positivo (4).

Por outro lado, as frutas e vegetais são mais ricas em nutrientes alcalinos como o magnésio, o potássio e o cálcio logo apresentam um PRAL negativo (4). Como as restantes frutas, o sumo do limão produz subprodutos alcalinos uma vez metabolizado, apresentando PRAL negativo.

O LIMÃO PODE ALCALINIZAR A URINA MAS NÃO O SANGUE

água com limão e gengibre

De facto, vários estudos mostram que o que comemos tem um efeito muito limitado no pH do sangue (567).

O organismo precisa de manter os níveis de pH entre 7.35–7.45 de forma a que o funcionamento das células seja o normal. Caso contrario, entramos num estado de acidose ou alcalose metabólica, com consequências fatais se não tratado.

No entanto, este fenómeno raramente se verifica já que os rins estão constantemente a filtrar os excessos de ácido e a elimina-lo através da urina. Por isso, mesmo que a urina possa apresentar uma acidez variável, em casos normais, isso raramente afeta o pH do sangue.

Ora a teoria das dietas alcalinas ignora por completo o papel dos rins no equilíbrio ácido-base. Para além disso, ao contrário do que se pensa, as dietas acidificantes não parecem ter qualquer impacto nos níveis de cálcio do corpo (8910).

De facto, alguns estudos associam o consumo de proteína, com um PRAL claramente positivo, a uma maior densidade mineral óssea (111213).

No entanto, embora o limão não esteja ligado à alcalinização do meio, pode desempenhar outras funções benéficas no nosso organismo.

Saúde cardiovascular

O limão é rico em vitamina C, fornecendo cerca de 31 mg por unidade, ou seja, mais de 50% das necessidades médias diárias.

Vários estudos mostram que ingerir alimentos ricos em vitamina C reduz o risco de doença e eventos cardiovasculares como enfarte e AVC (141516).

Para além disso, as fibras e compostos presentes no limão podem desempenhar um papel ativo na redução dos fatores de risco cardiovascular (1718).

Por exemplo, um estudo revela que ingerir cerca de 24 gramas de fibras presentes em citrinos durante um mês resultou na redução dos valores de colesterol sérico (19).

Para além das fibras, compostos como a hesperidina e a diosmina também podem ter um efeito benéfico nos níveis de colesterol (20).

Prevenção de pedras nos rins

A formação de pedras nos rins deve-se à acumulação e posterior cristalização de produtos de excreção nos órgãos.

O ácido cítrico ajuda a prevenir o aparecimento de pedras uma vez que aumenta o volume de urina produzido, assim como o seu pH, criando um ambiente menos ácido e, por isso, menos favorável à sua formação (2122).

Aparentemente, meio copo (ou o correspondente a 125 mL) de sumo de limão por dia pode fornecer a quantidade necessária de ácido cítrico para prevenir o reaparecimento de pedras em pessoas mais suscetíveis (2324).

Proteção contra anemia

A anemia ferropénica (por défice de ferro) é bastante comum e tão prevalente quanto a baixa ingestão de alimentos ricos neste ião.

Os limões contêm ferro mas o mecanismo pelo qual previnem este tipo de anemia prende-se com a sua capacidade para melhorar a absorção de ferro proveniente de outras fontes (2526).

O ferro heme, presente nos alimentos de origem animal é facilmente absorvido a nível intestinal, ao contrário do ferro não-heme, característico dos alimentos de origem vegetal. No entanto, esta absorção pode ser potenciada pelo consumo de vitamina C e ácido cítrico.

Fontes

  1. Klein, A. V., & Kiat, H. (2014). Detox diets for toxin elimination and weight management: a critical review of the evidence. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25522674
  2. Obert, J., et.al. (2017). Popular Weight Loss Strategies: a Review of Four Weight Loss Techniques. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/29124370
  3. Soliman, M., et.al. (2018). Acute Severe Hyponatremia as a Serious Health Implication of Herbal Detox Regimens. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30761245
  4. REMER, T., & MANZ, F. (1995). Potential Renal Acid Load of Foods and its Influence on Urine pH. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7797810/
  5. Bonjour, J.-P. (2013). Nutritional disturbance in acid–base balance and osteoporosis: a hypothesis that disregards the essential homeostatic role of the kidney. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23551968
  6. Koeppen, B. M. (2009). The kidney and acid-base regulation. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19948674
  7. Fenton, T. R., & Lyon, A. W. (2011). Milk and Acid-Base Balance: Proposed Hypothesis versus Scientific Evidence. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22081694
  8. Fenton, T. R., et.al. (2011). Causal assessment of dietary acid load and bone disease: a systematic review & meta-analysis applying Hill’s epidemiologic criteria for causality. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21529374
  9. Fenton, T. R., et.al. (2009). Meta-Analysis of the Effect of the Acid-Ash Hypothesis of Osteoporosis on Calcium Balance. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19419322
  10. Fenton, T. R., et.al. (2009). Phosphate decreases urine calcium and increases calcium balance: A meta-analysis of the osteoporosis acid-ash diet hypothesis. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19754972
  11. Tucker, KL., et.al. (2001). The aid-base hypothesis: diet and bone in the Framingham Osteoporosis Study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11842948
  12. Munger, R. G., et.al. (1999). Prospective study of dietary protein intake and risk of hip fracture in postmenopausal women. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/9925137
  13. Promislow, J. H. E. (2002). Protein Consumption and Bone Mineral Density in the Elderly : The Rancho Bernardo Study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11914191
  14. Joshipura, K. J., et.al. (2001). The Effect of Fruit and Vegetable Intake on Risk for Coronary Heart Disease. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11412050
  15. Yokoyama, T., et.al. (2000). Serum Vitamin C Concentration Was Inversely Associated With Subsequent 20-Year Incidence of Stroke in a Japanese Rural Community : The Shibata Study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11022052
  16. Chanet, A., et.al. (2012). Citrus Flavanones: What Is Their Role in Cardiovascular Protection? Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22574825
  17. Assini, J. M., et.al. (2013). Citrus flavonoids and lipid metabolism. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23254473
  18. Lv, X., et.al. (2015). Citrus fruits as a treasure trove of active natural metabolites that potentially provide benefits for human health. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26705419
  19. Wisker, E., et.al. (1994). Effects of a fiber concentrate from citrus fruits in humans. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0271531705801757
  20. Kim, H. K., et.al. (2003). Lipid-lowering efficacy of hesperetin metabolites in high-cholesterol fed rats. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12482628
  21. Penniston, K. L., et.al. (2008). Quantitative Assessment of Citric Acid in Lemon Juice, Lime Juice, and Commercially-Available Fruit Juice Products. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18290732/
  22. Prezioso, D., et.al. (2015). Dietary treatment of urinary risk factors for renal stone formation. A review of CLU Working Group. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26150027
  23. Seltzer, M. A., et.al. (1996). Dietary Manipulation With Lemonade to Treat Hypocitraturic Calcium Nephrolithiasis. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/8709360/
  24. Aras, B., et.al. (2008). Can lemon juice be an alternative to potassium citrate in the treatment of urinary calcium stones in patients with hypocitraturia? A prospective randomized study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18946667
  25. Ballot, D., et.al. (1987). The effects of fruit juices and fruits on the absorption of iron from a rice meal. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/3593665
  26. Péneau, S., et.al. (2008). Relationship between iron status and dietary fruit and vegetables based on their vitamin C and fiber content. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18469253
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