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Síndrome do intestino irritável: o que não comer

Saber o que não comer em caso de síndrome do intestino irritável é imprescindível para evitar eventuais crises, que normalmente são dolorosas.

 
Síndrome do intestino irritável: o que não comer
Descubra quais são os alimentos que deve evitar

A síndrome do intestino irritável (SII), também conhecido como cólon espástico, colon irritável, colite mucosa ou colite espástica, é uma doença distinta das restantes doenças inflamatórias intestinais.

No fundo, é um conjunto de sintomas, incluindo desconforto ou dor abdominal recorrente e hábitos intestinais alterados, que ocorrem em simultâneo. Outros sintomas incluem inchaço, sensação de evacuação incompleta, presença de muco nas fezes, esforço para evacuar ou aumento na urgência (dependendo do tipo de manifestação), a maior parte das vezes em associados a situações de stress psicológico.

O que causa a síndrome do intestino irritável?


síndrome do intestino irritável

O sistema nervoso entérico normal é sensível à presença, à composição química e ao volume de alimentos no trato gastrointestinal (TGI), e também responde a uma variedade de inputs do sistema nervoso central. No entanto, pessoas com síndrome do intestino irritável têm sensibilidade e motilidade intestinal aumentadas em resposta a estímulos gastrointestinais e ambientais normais, reagindo de modo mais significativo que os indivíduos normais à distensão intestinal, às mudanças na dieta e aos fatores psicossociais.

A síndrome do intestino irritável é considerada um distúrbio funcional, uma vez que o seu diagnóstico é baseado em sintomas e em critérios de exclusão e não em alterações bioquímicas ou da estrutura das células. É frequentemente descrita como um “distúrbio intestinal-cerebral”, por causa da associação com a serotonina.

Embora não aumente o risco de cancro gastrointestinal, a síndrome do intestino irritável pode ter um efeito significativo na qualidade de vida das pessoas, dependendo da gravidade e frequência dos sintomas (1). Embora haja várias formas de tratamento para a síndrome do intestino irritável, a sua causa exata está ainda por definir.

Foi proposto, no entanto, que o aumento da sensibilidade do cólon ou alterações no sistema imune possam estar na origem desta doença. A síndrome do intestino irritável pós-infecciosa normalmente aparece abruptamente depois da gastroenterite e é essencialmente tratada com a mesma abordagem das outras formas de síndrome do intestino irritável(1). O processo físico da síndrome do intestino irritável pode ser variado mas pode consistir em:

  • Tónus do cólon diminuído a espásticos, causando cólicas dolorosas;
  • Níveis anormais de serotonina no cólon, o que afeta a motilidade intestinal;
  • Dano após doença intestinal tratada (como doença celíaca ou doença de Crohn) que pode originar sintomas de síndrome do intestino irritável.

 

Principais sintomas


Os sintomas da SII incluem:

A boa notícia é que estes sintomas não são persistentes, particularmente o inchaço e dor abdominal, sendo corrigidos após a evacuação. Além do stress e hábitos alimentares, os fatores que podem piorar os sintomas incluem o uso excessivo de laxantes e outros fármacos de venda livre; o uso de antibióticos; o consumo de cafeína; a existência de doença GI prévia; a falta de regularidade no sono e ingestão de líquidos.

Em pessoas com história familiar de hipersensibilidade, a alergia a certos alimentos pode agravar a SII (1); pode ser justificado o uso de um teste de eliminação e provocação alimentar.

Síndrome do intestino irritável: o que não comer


As intolerâncias e alergias alimentares devem ser avaliadas objetivamente, pois os pacientes podem restringir desnecessariamente vários grupos de alimentos, resultando em frustração e numa dieta desequilibrada.

Na prática clínica, pode ser muito difícil determinar se os sintomas de um paciente são verdadeiramente decorrentes de uma reação adversa a alimentos. Teoriza-se que uma dieta pobre em, oligossacarídeos, dissacarídeos e monossacarídeos fermentáveis e polióis (FODMAP) seja útil (1).

A dieta pobre em FODMAP restringe os alimentos que contêm frutose, lactose, fruto e galactooligossacarídeos (frutanos e galactanas) e álcoois de açúcar (sorbitol, manitol, xilitol e maltitol).

Os FODMAP são pouco absorvidos no intestino delgado, chamam muita água ao intestino e são rapidamente fermentados por bactérias. Foi demonstrado que a restrição de FODMAP por refeição reduz os sintomas GI em pacientes com SII (1). No entanto, não foi definido um valor de corte para quantidades aceitáveis de FODMAP e é provável que seja específico para cada paciente.

Feijão e lentilhas

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As leguminosas são ricas em proteína (embora incompleta), hidratos de carbono complexos, fibras e outros polissacarídeos, sem contar com as vitaminas e minerais (2). No entanto, estes alimentos são também ricos em α-galactosideos, hidratos de carbono de cadeia curta que pertencentes ao grupo dos FODMAP (oligossacáridos, dissacáridos, monossacáridos, álcoois e polióis).

Este tipo de hidratos de carbono são pouco absorvíveis no trato gastrointestinal, para além de facilmente fermentáveis, sendo consistentes com os sintomas da síndrome do intestino irritável.

Embora este tipo de fermentação não seja específica a estes doentes, a verdade é que a híper-reatividade da mucosa intestinal faz com que os sintomas sejam bem mais exacerbados (3).

Para indivíduos saudáveis, os FODMAP são perfeitamente seguros, constituindo substrato para a flora digestiva. No entanto, nas pessoas com SII, outros tipos de gases são formados no processo fermentativo, causando desconforto, dor e caibras abdominais bem como flatulência (3). Demolhar os feijões é uma boa forma de reduzir o seu teor em FODMAP, garantindo que troca a água de demolhe com frequência.

Cereais (trigo, centeio e cevada)

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As fibras insolúveis contribuem para aumentar o volume fecal, garantindo o funcionamento normal do intestino. Os cereais integrais são particularmente ricos em fibra insolúvel, podendo piorar a diarreia em fases ativas da doença. Por outro lado, o trigo, o centeio e a cevada são alimentos que pioram os sintomas da síndrome do intestino irritável devido à presença de glúten, uma proteína cujo impacto na saúde que tem gerado bastante controvérsia nos últimos anos.

Para algumas pessoas com doença celíaca ou sensibilidade ao glúten não celíaca, alimentos como o pão, a massa, os bolos, biscoitos e bolachas de vários tipos são a causa do desconforto abdominal que inclui inchaço, diarreia e dores (4).

Para pessoas com síndrome do intestino irritável, o trigo e outros cereais são fontes importantes de FODMAP, causando o mesmo desconforto que as leguminosas por exemplo (3).

Alguns estudos mostram que a sensibilidade ao glúten pode estar envolvida no surgimento da síndrome do intestino irritável em algumas pessoas e que, nestes casos, uma dieta sem glúten pode ser importante na gestão dos sintomas (1).

Alternativas a estes cereais são o arroz, quinoa e a farinha de amêndoa. A aveia, embora isenta de glúten, é frequentemente processada juntamente com outros cereais pelo que o risco de contaminação cruzada é bastante elevado. Certifique-se que a aveia que escolhe tem é isenta de glúten.

Brócolos e outras crucíferas

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A família das crucíferas inclui o brócolo, a couve-flor, a couve e as couves de bruxelas, entre outros. Embora relativamente ricos em fibras, vitamina C, K, ferro, potássio e bioflavenóides, estes podem ser alimentos que causam inchaço abdominal devido ao teor de FODMAP, principalmente em grupos susceptíveis.

A cocção das crucíferas – e rejeição da água de cozedura – faz com que elas sejam mais fáceis de digerir. Alternativas viáveis são os espinafres, pepino e alface.

Cebola e alho

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Embora sejam ingeridas em pequenas quantidades de cada vez, a cebola e o alho são dos alimentos mais ricos em frutanos (5). Estas grandes moléculas de frutose são fibras solúveis, incluídos no grupo dos FODMAP, e podem ser responsáveis pelo inchaço abdominal em algumas pessoas.

Em algumas pessoas, algumas das proteínas presentes na cebola e no alho podem ser tomadas como alergénios, indicando o potencial alergénico deste alimento (6). Cozinhar estes alimentos, para além de eliminar o conteúdo em fibras solúveis, vai desnaturar os alergénios e reduzir os sintomas em ambos os casos. Se isso não for opção, pode sempre substituir o alho por especiarias como a salsa e o basílico.

Produtos lácteos

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Embora altamente nutritivos – continuam a ser excelentes fontes de cálcio e proteína de alto valor biológico – a verdade é que cerca de 75% da população mundial não tolera a lactose, seja por questões de hipolactasia congénita ou adquirida (7).

Em qualquer um dos casos, a ingestão de leite, queijo, iogurte, manteiga ou produtos que os contenham pode resultar em sintomas de síndrome do intestino irritável. Os estudos sugerem que adultos e adolescentes com diagnóstico de intolerância toleram até 12 g de lactose por dose (o equivalente a 250 mL de leite) sem qualquer manifestação sintomática.

Doses diárias entre os 15 e os 18 g são bem toleradas, especialmente em combinação com outros nutrientes como gorduras (7). Leites fermentados como o iogurte (8) e as bebidas vegetais como as de soja são alternativas nutritivas aos mais susceptíveis. Antes de tomar qualquer decisão, aconselhe-se com o seu nutricionista acerca da melhor forma de gerir a incapacidade para digerir a lactose.

Açúcares de álcool (poliois)

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Estes compostos são frequentemente utilizados como substitutos do açúcar em produtos light ou pastilhas elásticas. Os mais comuns são o xilitol, o sorbitol e o manitol. Pelo facto de serem indigeríveis no trato gastrointestinal dos animais, chegam ao intestino intactos sendo fermentados pela flora intestinal o que faz deles alimentos que causam inchaço abdominal.

O elevado consumo de produtos contendo polióis – como pastilhas elásticas sem açúcar e produtos light – está associado a flatulência, distensão abdominal e diarreias.

Bebidas alcoólicas

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As bebidas alcoólicas podem despoletar sintomas devido à forma como o álcool é digerido e absorvido. Em primeiro lugar, os produtos do metabolismo do álcool são considerados toxinas pelo organismo humano, com potencial irritante para o trato gastrointestinal.

Quantidades variáveis de álcool ingerido podem ter efeitos diversos no esvaziamento gástrico, potenciando diarreias ou obstipação, para além de provocarem alterações na flora intestinal e diminuição da absorção de nutrientes. Em particular a cerveja, uma bebida fermentada de cereais como cevada, trigo e arroz, contem hidratos de carbono fermentáveis, uma das possíveis causas de sintomas de síndrome do intestino irritável.

Por outro lado, o vinho e outras bebidas podem conter açúcar adicionado, piorando sintomas de inchaço e diarreia. Por fim, o álcool pode causar desidratação, dificultando a progressão da matéria fecal pelo intestino, piorando a obstipação.

Cafeína

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A cafeína é uma xantina com efeito estimulante no sistema nervoso central. No entanto, apresenta também o mesmo efeito no sistema nervoso entérico, aumentando a motilidade intestinal e, nesse sentido, café, chá, bebidas com cafeina e mesmo chocolate podem piorar a diarreia em pessoas com síndrome do intestino irritável. P

ara além disso, pensa-se que a cafeína possa ter um papel no aumento do cortisol, uma hormona que parece estar implicada na sobreativação do eixo intestino-cérebro, um dos mecanismos associados no aparecimento de sintomas característicos da síndrome do intestino irritável(1).

É importante relembrar que há uma grande variabilidade individual nos alimentos que podem ou não causar crises. Como esta doença tem uma forte influência do estado mental da pessoa em questão, alimentos que habitualmente não causam sintomatologia em condições normais podem constituir uma ameaça em situações de maior stress psicológico.

O segredo para controlar a doença é anotar quais os alimentos que provocam crises e, com a ajuda de um nutricionista, elaborar uma lista de quais os produtos que podem ou não ser consumidos de forma a evitar os sintomas desagradáveis.

Veja também:

Fontes

1. Mahan, L.K., Raymond, J.L. (2017). Krause’s Food and Nutrition Care Process. 14th Edition. St Louis, Missouri.
2. Azpiroz, F., & Malagelada, J. (2005). Abdominal Bloating. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16143143
3. Messina, M. J. (1999). Legumes and soybeans: overview of their nutritional profiles and health effects. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10479216
4. Zannini, E., & Arendt, E. K. (2018). Low FODMAPs and gluten-free foods for irritable bowel syndrome treatment: Lights and shadows. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30029704
5. Tonutti, E., & Bizzaro, N. (2014). Diagnosis and classification of celiac disease and gluten sensitivity. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24440147
6. Corzomartinez, M. et.al. (2007). Biological properties of onions and garlic. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0924224407002282
7. Almogren, A., et.al. (2013). Garlic and onion sensitization among Saudi patients screened for food allergy: A hospital based study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24250308
8. Di Rienzo, T., et.al. (2013). Lactose intolerance: from diagnosis to correct management. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24443063
9. De Vrese, M., et.al. (2001). Probiotics – compensation for lactase insufficiency. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11157352

Nutricionista Hugo Canelas Nutricionista Hugo Canelas

Hugo Canelas é nutricionista (CP 1389N), licenciado em Ciências da Nutrição pela Escola Superior de Biotecnologia e mestre em Nutrição Clínica pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. É professor assistente convidado da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Brangança desde 2018 e Nutritional Consultant do projeto de perda de peso “360em63”.

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