Camila Farinhas
Camila Farinhas
21 Jul, 2020 - 14:25

Urinar depois das relações sexuais diminui o risco de infeções urinárias?

Camila Farinhas

Estima-se que 7 em cada 10 mulheres terão pelo menos um episódio desta doença ao longo da vida. Mas, será que urinar depois das relações sexuais diminui o risco de infeção urinária?

Urinar depois das relações sexuais

As mulheres são as mais afectadas pelas infeções urinárias. Alguns fatores estão associados a esta maior predisposição relativamente aos homens. No entanto, adotar alguns comportamentos pode diminuir o risco de sofrer desta doença. Fique a saber se urinar depois das relações sexuais é um deles.

Urinar depois das relações sexuais diminui o risco de infeções urinárias? 7 perguntas e respostas

1.

O que são as infeções urinárias?

Mulher a tomar antibiótico para tratar infeção urinária

A infeção urinária é uma doença muito comum, principalmente no sexo feminino. Cerca de 60 % das mulheres terão pelo menos um episódio ao longo da vida (1, 2).

Existem três tipos de infeção urinária:

  1. Cistite: infeção da bexiga.
  2. Pielonefrite: infeção dos rins.
  3. Uretrite: infeção da uretra.

A cistite, ou inflamação da bexiga, é a forma mais comum de infeção urinária após as relações sexuais. No entanto, em alguns casos, pode existir também inflamação da uretra.  

2.

O que está na sua origem?

Em 80% dos casos, a bactéria Escherichia coli (E.coli) é responsável pelos quadros de infeção urinária. Estas bactérias habitam naturalmente na flora intestinal, e são inofensivas. No entanto, quando conseguem migrar e colonizar a região envolvente à vagina, dá-se o primeiro passo para desenvolver cistite. Além da E.coli, outras bactérias do trato intestinal também podem causar cistite: Proteus mirabilis, Enterococcus e Klebsiella pneumoniae.

Em casos mais graves, as bactérias responsáveis pela cistite podem deslocar-se para os rins, causando pielonefrite. Enquanto que a cistite é uma doença relativamente simples e de fácil tratamento, a pielonefrite pode levar à sepsis e consequentemente à morte por infeção generalizada.

3.

Por que razão as mulheres são mais propensas a desenvolver infeções urinárias do que os homens?

Ilustração do sistema urinário feminino

O principal fator para as mulheres desenvolverem mais frequentemente infeções urinárias que os homens está na anatomia genito-urinária, mais precisamente na distância entre a saída da uretra e do ânus:

  • Homens: distância entre 8 a 12 cm
  • Mulheres: distância entre 4 a 5 cm

Ou seja, anatomicamente é muito mais fácil para as bactérias vindas do ânus chegarem até à bexiga da mulher do que do homem, pois a distância a percorrer é muito inferior.

Outros dois fatores contribuem para a mulher ser mais propensa a desenvolver cistite:

  1. A uretra é mais pequena (cerca de 4 cm) em relação à dos homens (20 cm) o que facilita o acesso rápido da E.coli à bexiga.
  2. A uretra feminina está localizada logo acima da vagina, que é uma zona húmida e mais favorável a proliferação de bactérias. Já nos homens, a próstata segrega substâncias anti-bacterianas o que auxilia no combate a qualquer bactéria que possa surgir no trato genito-urinário.
4.

Quais são os fatores de risco?

Existem fatores que podem aumentar o risco de cistite em homens e mulheres (1, 2):

5.

Quais são os sintomas da cistite e como é diagnosticada?

A cistite, embora seja uma doença simples, causa grande desconforto. Os seus sintomas são:

  • Disúria (ardor ao urinar)
  • Urgência para urinar e dificuldade em reter a urina
  • Vontade de urinar mesmo com a bexiga vazia
  • Sensação de peso na bexiga
  • Hematúria (sangue na urina)

Em casos mais graves, pode também ocorrer febre e dor lombar. No entanto, se estes sintomas se agravarem e surgirem vómitos, perda de apetite e mau estar geral pode estar presente um caso de pielonefrite.

As características da urina também podem estar alteradas, passando a ser mais amarela e com um odor mais forte. Significa que está muito concentrada, pelo que deverá ingerir mais água para diluir esta concentração.

Habitualmente, a cistite é diagnosticada clinicamente e em alguns casos é solicitada uma análise à urina para confirmar a presença de leucócitos (ou glóbulos brancos – presentes em maior quantidade quando o organismo está a combater uma infeção).

A urocultura é o exame mais específico para os casos de infeção urinária, demorando entre 2 a 4 dias para se obter o resultado. É possível saber qual a bactéria que está na origem da infeção urinária, e quais os antibióticos eficazes para a combater (antibiograma).

6.

Qual o tratamento da cistite?

Mulher a tomar comprimido

A terapêutica mais utilizada no tratamento da cistite são os antibióticos, que atuam no combate às bactérias. Geralmente, o tratamento pode variar entre 3 a 7 dias. Lembrando que todas as cistites devem ser tratadas para evitar a progressão para pielonefrites e desencadear quadros clínicos mais graves (1, 2).

A prescrição é feita pelo médico e as substâncias mais utilizadas são:

  • Sulfametoxazol-Trimetoprima (da família das quinolonas)
  • Derivados de penincilina (durante 5 dias)
  • Nitrofurantoína (durante 7 dias)
7.

Como prevenir as infeções urinárias?

Alguns comportamentos podem ser adotados para prevenir as infecções urinárias:

  1. Urinar depois das relações sexuais: promove a limpeza da uretra, fazendo com que as possíveis bactérias sejam expulsas. O uso de preservativo não diminui o risco de infeção urinária, pois a bactéria não vem do parceiro/a.
  2. Lavar a região do períneo antes das relações sexuais.
  3. Nas mulheres, deve utilizar o papel higiénico da frente para trás e nunca o contrário.
  4. Evitar higiene íntima excessiva: a flora natural da vagina contem agentes que impedem a chegada de bactérias vinda do ânus. Quando a higiene é excessiva, esta defesa é removida.
  5. Beber muita água: quanto mais diluída for a urina, menor a probabilidade das bactérias se alojarem na bexiga e rins.
  6. Evitar reter a urina por muito tempo: ir à casa de banho várias vezes ao dia ajuda a eliminar possíveis bactérias.
  7. Usar roupas de algodão.
  8. Evitar o uso indiscriminado de antibióticos.
  9. Vacina oral: Nos casos de infeções do trato urinário (ITU) recorrentes, a vacina oral Uro-vaxon pode ser tomada. É elaborada a partir do lisado de estruturas da membrana celular de 18 estirpes diferentes da bactéria E.coli, responsável por 80% a 90% das cistites.Esta vacina confere proteção apenas contra infeções provocadas por esta bactéria.

Fontes

  1. Danson, S., et al. (2011). Guidelines for the diagnosis and management of recurrent urinary tract infection in women. Canadian Urological Association. 5(5): 316-22. Disponível em: http://www.cua.org/themes/web/assets/files/guidelines/en/1121.pdf
  2. Glover, M., et al. (2014). Recurrent urinary tract infections in healthy and nonpregnant women. Urol Sci. 25(1): 1–8. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4973860/
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