Rúben Ausina
Rúben Ausina
08 Jul, 2020 - 15:11

Teste de alergias: como é feito, tipos e para que serve

Rúben Ausina

O teste de alergias cutâneo é, por norma, o primeiro método de diagnóstico recomendado quando existe suspeita de alergia. Mas há outros tipos de testes. Saiba quais e como são feitos.

Médico a fazer teste de alergias a paciente

A doença alérgica é considerada um problema de saúde pública, de carácter global , que atinge todas as faixas etárias, grupos sociais e etnias e que, assumindo uma forma descontrolada, pode comprometer gravemente o estado clínico do utente (1,4).

As doenças alérgicas e imunológicas aumentaram significativamente no final do século XX, particularmente nas crianças e adolescentes, o que não pode ser explicado só por causas exclusivamente genéticas (atopia), mas por múltiplos fatores, nomeadamente poluição atmosférica e estilos de vida. Atualmente, afeta mais de 150 milhões de pessoas na Europa, sendo previsível que atinja 50% da população nos próximos 10 anos (1, 4).

De acordo com a Direção-Geral de Saúde e Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica este tipo de patologia pode-se manifestar de diversas formas, sendo as mais predominantes:

  • Alergia respiratória e/ou ocular
  • Alergia alimentar
  • Alergia a fármacos;
  • Alergia de contacto (látex e outras substâncias)
  • Alergia a picada de insetos.

Relativamente aos principais alergénios associados a cada tipo de alergia estes podem ser (2):

Tipo de alergiaPrincipais alergénios
Alergia respiratória e/ou ocularPersistente: ácaros, fungos, epitélio de animal.
Intermitente: pólen (gramíneas), fungos.
Alergia alimentarCrianças: leite de vaca, ovo, peixes, trigo, soja, frutos secos, amendoim, marisco (crustáceos e moluscos), legumes.
Adultos: frutos secos, mariscos (crustáceos e moluscos) e amendoim.
Alergia a fármacasAntibióticos (por exemplo penicilina), anestésicos (morfina), insulina, clorohexidina, entre outros.
Alergia de contactoLátex, poeira de madeira, pólen, fungos, ácaros e epitélio de animal.
Alergia a picada de insetosVenenos de abelha e algumas espécies de vespa.
Amendoins em cima de uma mesa de madeira
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No que concerne à sintomatologia, esta pode adquirir um amplo e diverso espectro de manifestações que podem variar desde múltiplos espirros, tosse, obstrução e prurido nasal, lacrimejamento ocular, desconforto torácico, edema, eritema, urticária, perturbações gastrointestinais e em casos mais extremos choque anafilático (1, 3).

tESTE DE ALERGIAS E O diagnóstico da doença alérgica

Mulher com alergia ao pólen

O diagnóstico da doença alérgica deve ser realizado por profissionais habilitados, como médicos especialistas em medicina geral e familiar ou imonoalergologia, tendo em conta a história clínica e exame físico (sintomatologia).

Adicionalmente, pode ser confirmado por testes cutâneos e/ou testes laboratoriais, como o doseamento de anticorpos IgE específicos. Após confirmação do alergénio causador da doença, devem ser adotadas medidas de evicção, a fim de controlar a exposição e melhorar a qualidade de vida da pessoa alérgica (2, 4).

Antes da realização de algum teste, como medida de precaução (especialmente nos testes cutâneos), é necessário informar o médico assistente sobre a toma de medicamentos que está a efetuar no período do procedimento, pois alguns fármacos imunossupressores podem alterar a resposta do sistema imunitário, e assim interferir na interpretação de resultados (5).

É importante salientar que devido à variabilidade da reatividade cutânea observada entre doentes, é necessário incluir controlos positivo e negativo em todo o conjunto de testes de alergias, para que seja possível validar o procedimento da técnica de execução e a fidedigna interpretação dos resultados (3).

Teste de alergia cutâneos

Médico a realizar prick test a paciente

Os testes cutâneos são, usualmente, o primeiro método de diagnóstico recomendado quando existe suspeita de alergia. As suas características de simplicidade, rapidez de execução, baixo custo e elevada sensibilidade justificam esta escolha. Contudo, quando executados incorretamente podem originar resultados falso-positivo ou falso-negativo (3).

O mecanismo subjacente a estes testes consiste numa reação antigénio-anticorpo. Através de uma pequena picada é introduzida uma quantidade diminuta de alergénio na epiderme.

Se houver IgE específica para esse alergénio ligada aos mastócitos cutâneos, estes vão desgranular e libertar mediadores como a histamina, originando uma reação que se manifesta por pápula, prurido e eritema após a exposição ao alergénio, com pico aos 20 minutos (reação imediata). Pode eventualmente surgir uma reação de fase tardia, 1 a 2 horas depois, com pico após 6 a 12 horas e que desaparece em aproximadamente 24 a 48 horas (3).

Os métodos de execução mais frequentemente utilizados são os seguintes:

1.

Teste cutâneo por picada ou <em>prick test</em>

Neste teste, os alergénios em estudo são colocados sobre a pele, previamente desinfetada com álcool, a uma distância de 2-5 cm entre si.

Posteriormente, são introduzidos (com lanceta descartável para cada alergénio) na epiderme os alergénios devidamente sinalizados. Por fim, a leitura é efetuada aos 15-20 minutos originando eritema, e os resultados reportados em milímetros.

No caso de despiste de alergia alimentar pode ser utilizado o teste prick-prick, que contém extratos naturais ou manipulados dos alimentos em estudo (3, 4).

2.

Teste cutâneo intradérmico

Este teste utiliza uma seringa com agulha para posterior injeção dos extratos alergénios na intraderme, com separação entre si nunca inferior a 5 cm.

A leitura dos resultados é efetuada da mesma forma que nos testes cutâneos. Estes testes são utilizados quando existe resultado negativo e inconclusivo no teste cutâneo, sendo por isso mais sensíveis (3, 4).

3.

Teste epicutâneo ou <em>patch test</em>

Este teste é utilizado no auxílio de diagnóstico da dermatite de contacto alérgica (normalmente estimulada por haptenos, presentes em joalharia, maquilhagem, perfumes, cosmética, etc).

Neste caso, é colocado um conjunto de unidades de alergénio nas costas até 48h, sendo também realizada a primeira leitura, podendo ser necessárias leituras subsequentes (às 96h e aos 7 dias) para a interpretação final dos resultados. Para a realização deste teste deve evitar molhar a área em estudo durante as primeiras 48h (3,5).

Estes testes de alergias apresentam-se como apoio no diagnóstico da maior parte das alergias. No entanto, existes preocupações quando utilizados para alergias alimentares e por medicamentos, pelo que o resultado deve ser tido em consideração. Em alternativa, pode ser efetuada a prova de provocação alimentar/medicamentosa, que contém extratos dos alimentos/fármacos em estudo em diferentes quantidades. Os testes de provocação devem ser efetuados sobre vigilância e em ambiente hospitalar (3).

Teste de alergias laboratorial

Médico a avaliar resultados de análises de sangue

Dentro dos vários testes realizados laboratorialmente (in vitro), é consensual que a pesquisa de anticorpos IgE específicos é o utilizado com mais frequência.

Numa fase inicial, pode ser efetuada a pesquisa destes anticorpos para uma mistura de alergénios de grupos diferentes (alimentares e/ou inalantes), de acordo com a clínica e a idade, sendo possível a progressão (caso seja positivo e assim o determine) para o doseamento de anticorpos IgE específicos isolados (2, 4).

Atualmente, os testes imunoenzimáticos (reação antigénio-anticorpo) são os mais utilizados para o doseamento de anticorpos IgE específicos, como é o exemplo de ImmunoCAP e Phadiatop, deixando assim obsoleto os testes por método radio-imunológico (RAST) (2, 4).

Relativamente ao tipo de amostra para doseamento, é utilizada uma determinada quantidade de sangue (soro) colhida por venopunção por profissionais habilitados (médicos, técnicos de análises clínicas e enfermeiros).

Os resultados não são influenciados por medicamentos, anti-histamínicos e anti-depressivos tricíclicos, ou por doenças que afetem a pele, no caso de eczema, ictiose e dermografismo (2).

Tratamento da doença alérgica

O tratamento da doença alérgica deve ser personalizado, com a possibilidade de combinação de fármacos e/ou imunoterapia específica, e sobretudo adotar medidas de evicção após confirmação do alergénio.

Alguns dos principais fármacos utilizados têm o objetivo de diminuir os sintomas, tais como anti-histamínicos, corticoides, broncodilatadores, descongestionantes orais, entre outros (3, 4).

Como conclusão, é importante referir que apesar destes testes de diagnóstico serem um grande apoio no diagnóstico, também têm as suas limitações, sendo que uma reação positiva nem sempre significa que os sintomas são causados por uma reação alérgica mediada pela IgE, e por outro lado indivíduos sem doença podem apresentar IgE’s específicas para alergénios. Sendo assim é de extrema importância correlacionar o histórico clínico do utente e sintomatologia com os resultados obtidos no teste (3, 4).

Fontes

  1. Rede de Referenciação Hospitalar – Imunoalergologia. Disponível em: https://www.sns.gov.pt/wp-content/uploads/2018/08/RRH-Imunoalergologia-Aprovada-a-8-ago-18.pdf
  2. Direção-Geral da Saúde. Prescrição de exames laboratoriais para avaliação de doença alérgica. Disponível em: https://www.dgs.pt/directrizes-da-dgs/normas-e-circulares-normativas/norma-n-0612011-de-29122011-jpg.aspx
  3. Ordem dos Médicos. Manual de boas práticas, procedimentos de diagnóstico/tratamento em Imunoalergologia. Disponível em: http://ordemdosmedicos.pt/wp-content/uploads/2017/09/Imuno_Manual_Boas_Praticas_2011_2012.pdf
  4. World Alelrgy Organization. White book on allergy. Disponível em: https://www.worldallergy.org/UserFiles/file/WAO-White-Book-on-Allergy_web.pdf
  5. Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica. Testes epicutâneos. Disponível em: https://www.spaic.pt/client_files/files/informacoes_aos_doestes_2018.pdf
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