Mónica Carvalho
Mónica Carvalho
26 Nov, 2020 - 09:30

Portugal com elevada prevalência de diabetes nos adultos e mais mortes por maus hábitos alimentares

Mónica Carvalho

Será que Portugal está “de boa saúde” ou há questões a melhorar? Veja as conclusões do relatório “Visão geral da saúde: Europa”, da OCDE.

Médica a verificar níveis de açúcar no sangue de paciente

De acordo com o relatório “Visão geral da saúde: Europa” da Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), em 2019, Portugal era um dos dois países da União Europeia com maior taxa de prevalência de diabetes entre adultos.

Portugal tinha 9,8% dos adultos entre os 20 e os 79 anos, com diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2, surgindo atrás da Alemanha (10,4%), o pior país da União Europeia nas estatísticas. A média da UE a 27 foi 6,2%. Os países com menos índices de diabetes são a Irlanda (3,2%), Lituânia (3,8%) e Estónia (4,2%).

Menos mortes por cancro e mais mortes por maus hábitos alimentares, tabagismo e consumo excessivo de álcool

Mulher a fumar

Há muitos outros dados a reter neste relatório. A começar pela esperança média de vida que, em Portugal, tem aumentado continuamente desde 2000, chegando aos 81,6 anos em 2017, o que está ligeiramente acima da média europeia.

Atente às principais conclusões.

Saúde

  1. As despesas de saúde per capita têm aumentado nos últimos anos, mas o investimento continua abaixo da média da UE.
  2. O número de médicos e enfermeiros em Portugal tem aumentado de forma constante desde 2000, de tal forma que existem cinco médicos habilitados por cada 1.000 habitantes em 2017. Este número parece alto comparado com a média da UE de 3,6. Todavia, os números não correspondem à realidade, visto que os números portugueses incluem todos os médicos habilitados, mesmo aqueles que já não exercem a profissão.
  3. Por outro lado, o pessoal de enfermagem (6,7 por cada 1.000) está abaixo da média da UE (8,4), não obstante os números terem aumentado na última década.
  4. O número de camas por 1.000 habitantes é relativamente baixo (3,4) comparado com a média da UE (5,1).
  5. As taxas de obesidade nos adultos portugueses aproximam-se da média da UE: 15,4% dos adultos comunicaram ser obesos em 2017, comparativamente com a média da UE de 14,9%.
  6. Os níveis de exercício físico são baixos em comparação com a média da EU.
  7. Existem ainda preocupações em relação ao consumo de álcool nos adultos e ao aumento dos níveis de excesso de peso e obesidade, sobretudo nas crianças.

Acesso a cuidados de saúde

  1. Portugal apresenta uma distribuição desigual dos recursos de saúde, tanto ao nível de instalações, como de profissionais. Faltam especialistas em psiquiatria, oftalmologia e ortopedia nas zonas rurais.
  2. Além disso, os municípios com uma maior proporção de cidadãos idosos têm também uma proporção mais baixa de médicos por cada 1.000 habitantes. Estes municípios estão concentrados nas zonas do interior rural, bem como na Madeira e nos Açores.
  3. Portugal gastou 2.029 euros per capita nos cuidados de saúde (9% do PIB) em 2017, o que equivale a cerca de menos um terço do que a média da UE (2.884 EUR).

Mortalidade

  1. Mais de um terço de todas as mortes em Portugal podem ser atribuídas a fatores comportamentais, nomeadamente maus hábitos alimentares, tabagismo e consumo excessivo de álcool.
  2. Ainda assim, a mortalidade em Portugal está abaixo dos níveis europeus.
  3. Embora as taxas de mortalidade estejam a diminuir, as doenças cardiovasculares continuam a ser as principais causas de morte, com destaque para o AVC e doença cardíaca isquémica.

Menos mortes por cancro

  1. As taxas de rastreio oncológico em Portugal estão acima da média da UE para o cancro da mama (84% contra 61%) e para o cancro do colo do útero (71% contra 66%).
  2. Portugal também progrediu no diagnóstico e tratamento do cancro, registando melhorias nas técnicas cirúrgicas, na radioterapia e na quimioterapia combinada, que são agora mais acessíveis. Isto reflete-se em taxas de sobrevivência ao fim de cinco anos para alguns cancros tratáveis mais elevadas em 2000-2004 e 2010-2014, que se encontram, em geral, um pouco acima da média da UE, sobretudo no que toca aos cancros da mama e da próstata. A taxa de sobrevivência do cancro colorretal ao fim de cinco anos, entre 2010 e 2014, foi de 61%, em linha com a média da UE, refletindo a introdução de inovações no diagnóstico e no tratamento, bem como taxas de rastreio mais elevadas.

População idosa

  1. A percentagem das pessoas com 65 anos ou mais está a aumentar de forma constante: em 2017, mais de um quinto das pessoas (21%) tinha 65 anos ou mais, o que representa um aumento em relação às taxas de 16% em 2000 e de 11% em 1980;
  2. Cerca de metade das pessoas com 65 ou mais anos em Portugal (53%) sofrem de, pelo menos, uma doença crónica e muitas comunicam duas ou mais afeções crónicas – uma situação semelhante à média da UE.

Conclusão

Em suma, ainda que que se verifique um aumento do investimento na saúde em Portugal, quer ao nível de recursos físicos, que ao nível de recursos humanos, este continua a ser inferior ao da média europeia e inferior às necessidades da população.

A aposta nos programas de rastreio tem tido efeitos muito positivos, visto que ajuda não só a detetar problemas oncológicos mais cedo, como a baixar os índices de mortalidade.

Por outro lado, o aumento da prevalência de alguns maus hábitos, nomeadamente ao nível da alimentação e do consumo excessivo de tabaco e álcool reflete-se no aparecimento de doenças e complicações de saúde graves que podem levar à morte.

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