Professor Doutor Carlos Robalo Cordeiro
Professor Doutor Carlos Robalo Cordeiro Entrevistado por: Gabriela Caçador
25 Jun, 2020 - 17:27

A pandemia não está controlada e tem um caráter imprevisível

Professor Doutor Carlos Robalo Cordeiro Entrevistado por: Gabriela Caçador

Entrevistamos o Professor catedrático de Pneumologia, Carlos Robalo Cordeiro, que nos fez um ponto da situação da pandemia.

Pandemia não está controlada

O diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e do Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra afirma que é preciso fazer perceber às pessoas que este não é o tempo de termos um comportamento como tínhamos antes da pandemia.

Ponto da situação da pandemia: entrevista ao Professor Doutor Carlos Robalo Cordeiro

Vida Ativa

Nesta nova fase de pós desconfinamento, qual o ponto da situação que faz da pandemia?

Carlos Robalo Cordeiro: O encerramento das atividades e o confinamento, embora penoso para sociedade em geral e para a economia em particular, foi, apesar de tudo, uma situação fácil de gerir e de executar.

O chamado desconfinamento, ou regresso ao novo normal, é difícil, porque estamos perante um quadro em que não existe ainda, como é sabido, a resolução completa da infeção por este novo coronavírus. Isso não acontecerá tão cedo. É preciso esperar que exista uma vacina, um tratamento eficaz e isso vai demorar algum tempo.

Nós não estamos numa situação em que possamos viver exatamente como vivíamos em fevereiro. Não é possível.

As atividades já estão, praticamente, todas a funcionar e está a começar a época balnear. É normal as pessoas quererem conviver, estar com os amigos e com a família. É preciso fazer perceber às pessoas que este não é o tempo de termos um comportamento como tínhamos anteriormente, porque isso leva àquilo que estamos agora assistir em algumas localizações, como por exemplo, recentemente, aconteceu no sul de Portugal, em que as pessoas exageram um pouco.

Esta não é a altura para fazermos atividades que incluam aglomerações de pessoas.

Não é a altura para estarmos com esse nível de à vontade com que muitas pessoas já encaram a situação. É preciso perceber que a situação não está controlada. É preciso perceber que isto é uma pandemia com um grande carácter de imprevisibilidade.

Nós não conhecemos bem este vírus, nunca tinha circulado dentro de nós, o seu comportamento já foi muito imprevisível e até muito diverso de realidade geográfica para realidade geográfica. Neste momento, estamos a assistir a novos surtos em zonas onde, de certa forma, já se tinha quase dado como como vencida a infeção.

Estamos a assistir, em algumas partes do mundo, a números verdadeiramente assustadores, embora não haja circulação de pessoas como havia antigamente, não é obviamente o tempo de estarmos a fazer uma libertação como nós gostaríamos de fazer e vamos, com certeza, ter oportunidade de fazer um pouco mais para a frente.

Jogos caseiros para crianças: falar online com a família
VA

Com o desconfinamento e com a redução do distanciamento social, se o nosso comportamento voltar ao que era, estamos a arriscar novas vagas de infeção?


CRC: Estamos a arriscar muito, porque há uma grande percentagem de população por infetar. Claro que nós sabemos que nem toda a população vai ter de ser infetada, até porque as suscetibilidades das pessoas são diferentes.

Há pessoas que nunca serão infetadas, mas há ainda uma percentagem muito grande da população que vai, seguramente, passar por isso.

O que se pretende é que não haja uma grande percentagem da população infetada simultaneamente, porque isso afetará de forma muito significativa os nossos serviços de saúde e pode ser um pouco difícil dar resposta a uma situação destas

VA

Esta situação pode agravar com a chegada do inverno e a junção de doenças como a gripe, a pneumonia e a COVID-19?

CRC: Sim, depois do verão, virão os meses mais frios e a época gripal e, seguramente, o novo coronavírus ainda andará em circulação nessa altura. É um risco muito grande que as duas situações ocorram em simultâneo. Uma situação complicará a outra, não há a mínima dúvida.

VA

Os hospitais estão a preparar-se para uma eventual situação dessas?

CRC: Julgo que sim. Tivemos muito mérito na gestão e preparação das condições para fazer face a esta situação.

Não tenho dúvida de que os hospitais ficaram muito mais bem preparados, nomeadamente para fazer face a situações mais graves. Mas, é como digo, a concomitância com o período gripal pode ser complexa.

VA

Como nos devemos comportar nos espaços que agora abriram. Centros comerciais, ginásios, restaurantes, cafés…

CRC: Os profissionais que gerem essas atividades têm estado a ter comportamentos exemplares. Percebe-se o imenso cuidado que existe, neste momento, na gestão dos espaços, no acautelamento de todas as medidas de segurança, nas medidas de higienização, no distanciamento que é necessário observar entre pessoas.

Por vezes, há exageros, mas é dos utilizadores, nomeadamente dos mais jovens que, obviamente, querem voltar a conviver e a ter outro tipo de proximidade relativamente à família, aos amigos e aos namorados. Isso é uma situação que tem de ser acautelada.

Profissional de saúde a analisar radiografia aos pulmões de doente com COVID-19
VA

Como a doença se manifesta mais visivelmente no sistema respiratório na maior parte dos doentes, é o pulmão o órgão que fica com mais sequelas da doença?

CRC: Isso é uma questão muito importante, para a qual ainda não há uma resposta completa. Não chega a meio ano passado sobre as primeiras infeções, sobretudo, na China. Já há relatos, de facto, de sequelas pulmonares, com caráter fibrosante cicatricial para situações que, felizmente, conseguiram sobreviver à pneumonia e à estadia em unidade de cuidados intensivos, mas que vieram a resultar nesses níveis de fibrose pulmonar.

Esses casos começam a ser divulgados e publicados pelos colegas, nomeadamente da Ásia. E mesmo na Europa, em situações que se vão observando, isso fica demonstrado.

Há um nível do pulmão onde as sequelas são mais intensas, isso vai ficar completamente esclarecido à medida que o tempo vai passando. Há também uma componente vascular que não pode ser desprezada. Este vírus tem também mecanismos de ação que conduzem alterações de natureza vascular.

VA

E quem fica mais sujeito a ficar com sequelas da doença?

CRC: As pessoas que têm fibrose pulmonar prévia, compromisso pulmonar prévio, são claramente pessoas com maior risco para vir a desenvolver alterações fibróticas mais significativas a médio prazo.

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Dados acabados de lançar pelo INE mostram que a pneumonia mata uma média de 16 pessoas por dia. Em 2018, foi responsável por 5,1% do total de óbitos no nosso país. A taxa de letalidade global por COVID-19 em Portugal é de 4,1%. Tendo em conta estes dados, a pneumonia pneumocócica e a sua prevenção não deveriam ser alvo de maior atenção?

CRC: Claro que sim. Isso é um aspeto muito significativo e que é muito importante acautelar.

A prevenção de outras infeções respiratórias, nomeadamente a pneumonia e a gripe não têm relação direta com a infeção pelo coronavírus, é evidente, mas será muito importante para não sobrecarregar os nossos sistemas de saúde.

Se 16 pessoas morrem, por dia, com pneumonia, a grande maioria estará hospitalizada, e para morrerem essas 16 pessoas, muitas mais pessoas têm de estar hospitalizadas e isso representa uma sobrecarga enorme para o nosso Serviço Nacional de Saúde, como representará a época gripal. Por outro lado, essas infeções associadas poderão induzir uma mortalidade acrescida a quem possa também contrair infeção por SARS-CoV-2, concomitantemente.

A prevenção é muito importante e, neste momento, nós temos de ter esse foco. Temos que fazer tudo para que os doentes crónicos regressem à nossa presença, regressem às unidades de saúde familiares, aos hospitais e às nossas consultas, para que possam ser reavaliados, para que possam ser acompanhados de novo e, sobretudo, para que os doentes de risco, nomeadamente os doentes com mais de 65 anos, os doentes com doenças crónicas, ou situações que do ponto de vista terapêutico induzam a uma diminuição das defesas, sejam vacinados para a pneumonia.

VA

A vacinação é suficiente para reduzir a taxa de mortalidade por Pneumonia em Portugal?

CRC: Não, a vacinação é uma das armas que temos. A vacinação é muito importante não para prevenir a doença completamente, mas, sobretudo, para prevenir as formas graves da doença. Mas, há muitos outros fatores.

Desde logo, os fatores de promoção do chamado estilo de vida saudável, ou seja, evicção tabágica, moderação na ingestão de bebidas alcoólicas, a obesidade é um fator de risco importante, portanto é importante ter uma nutrição adequada e equilibrada e reduzir o peso em quem tenha peso excessivo.

A atividade física também favorece muito a saúde e previne a doença. E muito mais. A higiene dentária, por exemplo, dentes estragados podem ser focos de infeção que possam vir a ser origem de infeções respiratórias, nomeadamente pneumonias.

E a própria vacinação, não só da pneumonia, mas também da gripe. Embora a vacina da gripe não dê proteção para a pneumonia, como é evidente, nós sabemos que é nas épocas gripais que há também picos de maior prevalência da pneumonia. A gripe vai condicionar uma diminuição das defesas e propiciar um terreno favorável para instalação de uma pneumonia.

Médico a dar vacina
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A vacinação para prevenção da pneumonia e da gripe é importante para todas as pessoas ou apenas para os grupos de risco?

CRC: Para os grupos de risco. Para as pessoas com mais de 65 anos, pessoas com doenças crónicas, pessoas que façam terapêutica imunossupressora.
Há fatores de risco e grupos de risco que têm de ser prioritários.

Para a vacinação gripal, as grávidas e os profissionais de saúde também devem vacinar-se. Os profissionais de saúde, não apenas para se protegerem a si, mas também os utentes.

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