Camila Farinhas
Camila Farinhas
04 Ago, 2020 - 09:15

Má digestão: o que é, causas e quando deve consultar um médico?

Camila Farinhas

A má digestão ou dispepsia, define-se como dor ou desconforto persistente na região superior do abdómen. Mas, em que situação se deve recorrer a um médico?

Mulher com sintomas de má digestão

É comum sentir algum desconforto quando se ingere uma quantidade significativa de alimentos, nomeadamente se estes forem bastante condimentados. No entanto, quando a má digestão é recorrente, outros fatores podem estar associados, para além das refeições. Fique a saber mais sobre este tema.

O Processo digestivo

Ilustração de estômago

digestão corresponde ao conjunto das transformações químicas e físicas que os alimentos  orgânicos sofrem ao longo do sistema digestivo, para se converterem em compostos menores hidrossolúveis e absorvíveis. É uma forma de catabolismo que contempla duas etapas: a digestão mecânica (mastigação) e a digestão química (através da ação enzimática, os alimentos são divididos em moléculas que o organismo é capaz de absorver). Assim, o processo digestivo envolve quatro fases:

  1. Mastigação: redução dos alimentos a um bolo alimentar.
  2. Processamento químico e enzimático.
  3. Processamento ao nível do intestino delgado (onde são absorvidos as macromoléculas e nutrientes).
  4. Fermentação e remoção da água pelo cólon.

O tempo de digestão é variável de pessoa para pessoa e consoante o tipo de alimentos ingeridos. Em média, podem demorar cerca de 6 a 8 horas até passarem do estômago para o intestino delgado. Em seguida, os alimentos passam ao intestino grosso (cólon), dando-se a absorção da água e finalmente é eliminado o excedente.

mÁ DIGESTÃO OU Dispepsia: o que é?

A dispepsia, mais frequentemente designada de má digestão, é a sensação de dor ou desconforto recorrente nos quadrantes superiores do abdómen e que pode, ou não, estar associada às refeições (1).

Pode ser classificada em:

  • Dispepsia funcional: não existe qualquer causa, ou seja, não existe doença associada
  • Dispepsia orgânica: está relacionada com uma patologia. O diagnóstico inclui a realização de exames laboratoriais, endoscopia digestiva alta e exames imagiológicos

Sintomas

Mulher com dores no estômago

Os sintomas mais comuns da má digestão são (2):

  • Saciedade precoce: a saciedade é atingida após comer uma pequena porção de alimentos
  • Saciedade desconfortável após a refeição: muitas vezes designada de “sensação de enfartamento”
  • Desconforto abdominal
  • Inchaço abdominal
  • Azia
  • Eructação (ato de arrotar)
  • Náuseas e vómitos

Causas

As causas mais comuns da dispepsia são (2):

  • Úlceras gástricas ou duodenais
  • Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)
  • Gastrite
  • Perturbações da motilidade intestinal
  • Cancro do esófago ou estômago
  • Bloqueios intestinais
  • Obstipação
  • Infeção pela bactéria Helicobacter pylori (causa mais comum da gastrite e úlceras pépticas)

Fatores de risco

Mulher a fumar

Alguns comportamentos aumentam significativamente o risco de desenvolver dispepsia:

  • Ingestão de alimentos muito condimentados (picantes, caril, gengibre, carnes vermelhas, fritos e molhos)
  • Consumo excessivo de estimulantes (álcool e cafeína)
  • Consumo de bebidas carbonatadas (refrigerantes ou agua com gás)
  • Comer demasiado depressa, ou em quantidades excessivas
  • Tabagismo
  • Ansiedade e depressão
  • Toma frequente de medicação (anti-inflamatórios e antibióticos)
alimentos ricos em antioxidantes alimentacao colorida
Veja também Os alimentos que não deve comer com gastrite

Quando deve consultar um médico?

Quando a dispepsia é acompanhada de outros sintomas como perda de peso, vómitos e náuseas constantes, disfagia (dificuldade em deglutir), odinofagia (dor ao deglutir), anemia, icterícia ou ainda sangue nas fezes, deve-se consultar um médico (2). As especialidades que tratam a dispepsia são a Medicina Geral e Familiar e a Gastroenterologia.

Exames de diagnóstico

A história clinica e o exame físico são habitualmente suficientes. No entanto, caso existam outros sintomas associados como a perda de peso ou vómitos persistentes, outros exames podem ser solicitados (2):

  • Endoscopia Digestiva Alta: é o exame mais importante para o diagnóstico de dispepsia. Consiste na observação direta do revestimento interno do esófago, estômago e duodeno. Através de uma biópsia, é possível pesquisar a existência de infeção por Helicobacter pylori. É recomendado a pessoas com idade superior a 55 anos ou mais jovens, caso a dispepsia seja acompanhada de outros sintomas (perda de peso ou vómitos persistentes)
  • Estudo Imagiológico do Aparelho Digestivo: exame radiológico do aparelho digestivo, Tomografia Computorizada ou ainda a Ultrassonografia
  • Análises clinicas

Tratamento

Mulher sentada no balcão da cozinha a comer uma salada

Na maioria dos casos, o tratamento da má digestão passa pela mudança de hábitos alimentares e de vida, designadamente:

  1. Alimentação equilibrada e saudável, dando preferência a frutas, legumes, verduras, grãos integrais e alimentos não processados.
  2. Reduzir o consumo de alimentos de difícil digestão, como chocolate, carnes com elevado teor de gordura, bebidas gaseificadas e alcoólicas, alimentos condimentados (pimenta, caril, gengibre), alimentos fritos e molhos, alimentos processados e de charcutaria.
  3. Mastigar devagar para facilitar a digestão e otimizar a ação dos sucos digestivos.
  4. Realizar refeições de pequeno volume e fracionadas ao longo do dia (3 refeições principais e 2 intercalares), para reduzir o trabalho gástrico durante o processo digestivo;
  5. Ter horários regulares para as refeições.
  6. Evitar deitar-se ou sentar-se após a refeição (fazer uma caminhada de 20 minutos após a refeição é o ideal).
  7. Reduzir o consumo de tabaco, café e chá.
  8. Ter um peso dentro dos valores recomendados.
  9. Reduzir os níveis de stress e ansiedade.
  10. Praticar exercício físico com regularidade (melhora o trânsito intestinal, reduz o stress e controla o peso).
  11. Por vezes, é necessário recorrer a medicação: procinéticos, inibidores da bomba de protões, antibióticos ou antieméticos.

Fontes

  1. Marques, SC. (2002). Compreender a dispepsia. Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, 18:227-39. Disponível em: https://www.rpmgf.pt/ojs/index.php/rpmgf/article/view/9883
  2. Nacional Institute Of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. (2020). Indigestion (Dyspepsia). Acedido a 31 de Julho de 2020. Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/health-information/digestive-diseases/indigestion-dyspepsia
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