Psicóloga Ana Graça
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08 Mai, 2020 - 17:13

Luto: o que fazer quando alguém que amamos vai embora?

Psicóloga Ana Graça

A dor é inevitável, mas quanto mais conscientes estivermos sobre a forma como cada um vive o luto, mais facilmente conseguiremos lidar com o mesmo.

Luto: mulher a chorar

Ao longo da vida, a experiência de luto é inevitável. É uma das mais dolorosas e intensas experiências de vida, e requer tempo, até alcançar a paz e a aceitação.

Importa compreender como decorre habitualmente o processo de luto e qual a melhor forma de lidar com a perda de alguém que amamos.

O que é luto?

Luto: mulher a sofrer pela perda de uma pessoa amada

O luto é a resposta natural que ocorre devido à perda de uma pessoa ou de algo importante. É uma parte natural da vida e não uma resposta patológica (1). Numa situação de luto, perante a perceção de perda, são experienciadas reações psicológicas, sociais e somáticas, naturais e esperadas face à situação (2).

Assim sendo, são vários os sintomas que de forma comum surgem durante o processo de luto, nomeadamente:

1.

Sintomas físicos

  • Hiperatividade ou baixa atividade
  • Irrealidade
  • Dores somáticas
  • Alterações no apetite
  • Flutuações de peso
  • Cansaço
  • Problemas de sono
  • Falta de ar
  • Aperto na garganta
2.

Sintomas emocionais

  • Tristeza
  • Raiva
  • Alívio
  • Medo
  • Solidão
  • Saudade
  • Ansiedade
  • Abandono
  • Falta de sentido
  • Apatia
  • Vulnerabilidade
Sintomas da ansiedade: mulher com olhar vazio
Veja também Sintomas da ansiedade: conhecê-los pode ajudar a reconhecer o problema
3.

Sintomas sociais

  • Dependência dos outros
  • Afastamento dos outros
  • Evitamento dos outros
  • Falta de iniciativa
4.

Sintomas comportamentais

  • Comportamentos de procura pela pessoa falecido
  • Sentir a presença da pessoa falecida
  • Vaguear sem objetivo
  • Não falar sobre o que aconteceu para não deixar os outros desconfortáveis
  • Precisar de contar a história da morte da pessoa querida (3)

O normal processo de luto pode durar algum tempo e ser acompanhado por sofrimento físico e psicológico, o que torna difícil determinar quando este se torna patológico.

O luto patológico tende a ser mais prolongado (duração exagerada dos sintomas) e mais intenso (maior interferência dos sintomas nas atividades quotidianas ou maior intensidade dos sintomas) (3).

Quais as fases do luto?

Fases do luto: apoio amigos e familiares

Diferentes autores apresentaram diferentes fases do processo de luto. Uma das posições defendidas passa pela existência de 3 fases essenciais:

1. Choque/Negação: processo de evitamento, com características como entorpecimento, incredulidade, procura.

2. Desorganização/Desespero: processo de consciencialização, com características como dor emocional, preocupações e recordações recorrentes, dificuldades de memória a curto prazo, desespero, perda de objetivos, isolamento e sintomas físicos.

3. Reorganização/Recuperação: processo de restabelecimento, reajustamento ao novo mundo e reinvestimento identitário (4).

O que fazer quando alguém que amamos vai embora?

Quando alguém que amamos parte de forma irremediável, há determinadas tarefas que têm de ser concretizadas para que se restabeleça o equilíbrio e para que o processo de luto fique concluído:

Aceitar a realidade da perda

Quando alguém que amamos morre, mesmo que essa seja uma morte de alguma forma previsível, há sempre um sentimento de que tal não aconteceu. Assim, para superar o sofrimento e ultrapassar o processo de luto, a primeira tarefa passa por aceitar a inevitabilidade da perda, aceitar que a pessoa que amamos não irá voltar.

Muitas pessoas recusam-se a acreditar e a aceitar esta realidade, ficam paralisadas. De facto, aceitar a realidade da perda leva tempo, já que envolve não só uma aceitação intelectual, mas também emocional, esta última mais morosa e dolorosa.

Apesar de levar inevitavelmente tempo e ser uma tarefa difícil de concluir, os rituais tradicionais, como o funeral, parecem ajudar na aceitação da perda.

Trabalhar a dor da perda

Perder alguém que amamos pode provocar diferentes tipos de dor (física; emocional). Evitar ou suprimir essa dor irá, muito provavelmente, prolongar o processo de luto e o sofrimento. Assim sendo, é importante que a dor da perda seja reconhecida, vivida e legitimada.

Ajustar-se ao ambiente onde está a faltar a pessoa que faleceu

O ajuste ao novo ambiente depende muito da relação que se tinha com a pessoa falecida e dos vários papéis que esta desempenhava.

Por exemplo, no caso de um casal, a perda de um dos cônjuges pode significar muitas perdas, dependendo dos papéis que este normalmente desempenhava (por exemplo, um parceiro sexual; um amigo; um bom gestor das finanças familiares; etc.).

Há três áreas de ajustamento a ter em consideração após perder alguém que nos é próximo: ajustamentos externos (funcionamento diário no mundo); ajustamentos internos (sentido de si mesmo); ajustamento de crenças (valores, crenças, considerações sobre o mundo).

Reposicionar em termos emocionais a pessoa que faleceu e continuar a vida

Esta última e importante tarefa passa por encontrar um local adequado na vida emocional para a pessoa que faleceu, que ao mesmo tempo permita à pessoa enlutada viver bem no presente.

O processo de luto termina quando a pessoa enlutada deixar de sentir a necessidade de reativar a representação da pessoa falecida com uma intensidade exagerada no dia-a-dia. Para muitas pessoas, esta é a tarefa mais difícil de alcançar, contudo, pode ser alcançada e a pessoa enlutada acaba por perceber que pode voltar a amar sem deixar de amar a pessoa que perdeu (5).

conclusão

O processo de luto termina quando as quatro tarefas acima descritas estão concluídas. O processo de luto é intenso e doloroso, daí que algumas pessoas optem por contorná-lo ao invés de o vivenciar. No entanto, de forma a diminuir o sofrimento imposto pela partida de alguém que amamos importa aceitar e expressar a dor sentida.

Por fim, importa ressalvar que durante o processo de luto é fundamental que sejam mantidas rotinas saudáveis (refeições regulares e nutritivas; períodos de descanso adequados; rotinas de sono regulares; atividade física; vigilância médica), bem como a interação social, já que o processo de luto não precisa ser um processo solitário.

Fontes

  1. Hughes, M. (1995). Bereavement and Support – healing in a group environment. Fort Pierce:Taylor&Francis.
  2. Rando, T. (1984). Grief, Dying and Death – clinical interventions for caregivers. Champaign: Research Press Company.
  3. Seabra, F. (2003/2004). Programa de Intervenção no Luto na Adolescência. Instituto de Educação e Psicologia. Universidade do Minho.
  4. Barbosa, A. (2010). Processo de Luto. In Barbosa, A. & Neto, I. (eds.), Manual de Cuidados Paliativos. (2ª ed). Lisboa: Faculdade de Medicina de Lisboa.
  5. Worden, J. (1991). Grief Counseling and Grief Therapy. A Handbook for the Mental Health Practitioner (2nd ed.). London: Routledge.
Veja também