Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
17 Jun, 2020 - 09:45

Fact-check: fruta junta amadurece mais rápido?

Nutricionista Hugo Canelas

É um facto que alguns tipos de fruta amadurecem mais rápido devido a um composto específico. Esclarecemos quais as frutas e os compostos responsáveis.

Fruta junta amadurece mais rápido: variedade de frutas e legumes em cima de mesa
fact-check verdadeiro

Questão em análise

Há uma crença que fruta junta amadurece mais rápido. Por exemplo, muitos acreditam que as bananas aceleram o processo de maturação e apodrecimento dos outros frutos e, por isso, são guardadas separadas do resto.

Fruta junta amadurece mais rápido? Existe um provérbio muito popular na língua inglesa, “one bad apple spoils the whole bunch” que se traduz literalmente em: “uma maçã estragada estraga o conjunto”. Curiosamente e ao contrário de muitos outros, há uma explicação cientifica para esta questão.

Efetivamente, nem toda, mas alguma fruta junta amadurece mais rápido. Exemplo disso são as maçãs e as bananas que não devem ser armazenadas juntas nem de outros frutos como mangas, kiwis e meloas.

A razão para este fenómeno é uma hormona, o etileno, que acelera o processo de amadurecimento das frutas e algumas delas, incluindo a maçã e a banana, são produtoras excessivas deste composto.

Assim sendo, não devem ser armazenadas juntamente com abacates, limões e uvas entre outros, que são designados “sensíveis” ao etileno.

Fruta junta amadurece mais rápido: eis as principais causas

Cesto com variedade de frutas e legumes

Existe uma explicação para manter maçãs e bananas separadas das outras frutas. Estas duas, e outras, produzem grandes quantidades de etileno gasoso, uma hormona vegetal produzida rápida e naturalmente durante o processo de amadurecimento (1).

As maçãs McIntosh, por exemplo, produzem etileno em quantidades muito elevadas pelo que amadurecem e apodrecem mais rapidamente que as outras frutas. O mesmo pode ser dito para as ameixas Early Golden.

Na verdade, todos os frutos produzem etileno, mas em concentrações variáveis. No entanto, de acordo com um estudo de 2015, existem outras hormonas produzidas pelos frutos intervêm também no processo de amadurecimento, como o ácido abscísico e a auxina (2).

Frutas que não deve armazenar em conjunto

O etileno é um composto que se espalha rapidamente pelas outras frutas e acelera o amadurecimento e eventual apodrecimento dos alimentos. Para além do etileno produzido, não podemos descartar o que é adicionado aos alimentos antes da sua comercialização.

Assim, evite juntar frutas naturalmente produtoras de etileno para aumentar o tempo de conservação da mesma. Se o objetivo for amadurecer fruta verde, juntá-las pode ser uma opção viável, desde que devidamente vigiada.

Frutos produtores de etileno

Caixa de madeira com variedade de frutas

Maçãs, peras, bananas, kiwis, mangas, ameixas, nectarinas e meloas são frutos que libertam grandes quantidades de etileno e como tal devem ser armazenados separadamente (4).

Frutos “sensíveis” ao etileno

Fruta espalhada em cima de mesa

Por norma, os frutos mencionados acima devem ser separados dos ditos “sensíveis” ao etileno como abacate, uvas, melancia, limão e lima. Alguns vegetais como pimentos, pepinos e cebolas também são “sensíveis” ao etileno e como tal devem ser mantidos separados dos produtores de etileno.

Alguns dos grandes produtores são também “sensíveis” ao etileno e, por esta razão, não se recomenda armazenar maçãs e bananas juntamente, por exemplo. No entanto, fazer uso de sacos e recipientes fechados para o armazenamento vai impedir a dissipação do gás, acelerando o processo de apodrecimento (4).

Frutos “não sensíveis” ao etileno

Prato com fruta em cima de mesa

Uma boa notícia é que nem todos os frutos são sensíveis ao etileno. Cerejas, ananás, toranjas, laranjas, morangos, framboesas e mirtilos podem perfeitamente ser armazenados junto ou perto dos produtores deste gás.

USO DO ETILENO NA PRODUÇÃO DE FRUTAS E LEGUMES

O homem faz uso das propriedades do etileno desde os tempos do Antigo Egito, onde o ato de fatiar figos aumentava a libertação desta hormona e acelerava o processo de amadurecimento do fruto.

Hoje em dia, a indústria manipula o amadurecimento das frutas e vegetais que respondem ao etileno. Alimentos como bananas, tomates, pêssegos, peras e maçãs são colhidos ainda “verdes” para que o risco de danos no transporte seja menor.

De seguida, estes produtos são submetidos a tratamento com etileno nas estufas e armazéns antes de ser distribuídos nas superfícies comerciais.

Embora o papel do etileno na fisiologia das plantas seja conhecido e estudado há séculos, a forma como as plantas regulam a produção e libertação desta hormona permaneceu um mistério até muito recentemente.

Mulher a tirar uma maça de uma taça com fruta

Um estudo de 2018 descobriu que existem mecanismos de controlo de genes nas plantas que impedem o amadurecimento precoce (3). De acordo com os investigadores, este processo é vital porque desta forma há garantia que a planta se reproduza.

Quando o “interruptor” do amadurecimento é ativado, também os genes que regulam os processos metabólicos são ativados. Neste caso específico, isto consiste em tornar os frutos prontos para consumo, através da produção de açúcares, compostos que conferem aromas e pigmentos que os tornam apelativos ao consumo.

Em alguns frutos, este “interruptor” envolve ainda a produção e libertação de etileno. Assim sendo, controlar como e quando o etileno é produzido é um processo que na natureza exige algum equilíbrio.

O etileno não está apenas envolvido no amadurecimento das frutas, é também uma hormona de stress. Sempre que uma parte da planta é atacada ou danificada, o processo de produção de etileno é estimulado, fazendo com que aquela zona pereça levando a uma espécie de amputação forçada.

Avaliação Vida Ativa: Verdadeiro

É verdade que juntar algumas frutas favorece o amadurecimento. A razão para tal prende-se com o etileno, um composto que se espalha rapidamente pelas outras frutas e acelera o amadurecimento e eventual apodrecimento dos alimentos.

Por isso, é importante que armazene a fruta tendo em consideração aquelas que produzem quantidades mais elevadas de etileno, separando-as das que são mais sensíveis a este composto.

Fontes

  1. UMAINE. (n.d.). The role of ethylene in fruit ripening. Disponível em: https://extension.umaine.edu/fruit/harvest-and-storage-of-tree-fruits/the-role-of-ethylene-in-fruit-ripening/
  2. Liu, M., Pirrello, J., CHERVIN, C., Roustan, J.-P., & Bouzayen, M. (2015). Ethylene control of fruit ripening: revisiting the complex network of transcriptional regulation. Disponível em: http://www.plantphysiol.org/content/169/4/2380
  3. Lü, P., Yu, S., Zhu, N., Chen, Y.-R., Zhou, B., Pan, Y., … Zhong, S. (2018). Genome encode analyses reveal the basis of convergent evolution of fleshy fruit ripening. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41477-018-0249-z
  4. UCSD. (n.d.). Ethylene in Fruits and Vegetables. Disponível em: https://ucsdcommunityhealth.org/wp-content/uploads/2017/09/ethylene.pdf
Veja também