Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
15 Mai, 2020 - 17:28

Fact-chek: alimentos alcalinos podem ajudar a prevenir a COVID-19?

Nutricionista Hugo Canelas

Sobre a relação entre dietas alcalinas e COVID-19, é falso que alimentos alcalinos sejam eficazes na prevenção da COVID-19.

Dieta alcalina e COVID-19: alimentos com pH alcalino
fact-check falso

Questão em análise

Várias mensagens têm circulado na internet com alegações de que o pH do novo coronavírus se encontra entre os 5,5 e os 8,5, sendo por isso aconselhado um maior consumo de alimentos alcalinos. Esta informação tem por base um estudo de 1991 publicado no Journal of Virology.

A dúvida sobre a possibilidade de dietas alcalinas poderem prevenir a COVID-19 foi suscitada após a re-descoberta de um artigo publicado em 1991 intitulado “Alteration of the pH Dependence of Coronavirus-Induced Cell Fusion: Effect of Mutations in the Spike Glycoprotein” (1).

Os problemas da extrapolação deste artigo para os dias de hoje

Dietas alcalinas e COVID-19: conjunto de alimentos alcalinos

Neste estudo, os autores propõe-se a estudar o que acontece às células de roedores quando infetadas por uma estirpe do coronavírus em pH entre 5,5 e 8,5.

Logo na primeira frase do resumo do trabalho, fica a dúvida da utilidade deste estudo no que concerne ao novo coronavírus: a estirpe MHV4 é diferente do novo coronavírus, o SARS-CoV-2.

Para além disso, o estudo nunca afirma que o vírus em questão, o MHV4, tem um valor de pH associado.

Por fim, as palavras-chave aqui são “roedores” e “células”. O estudo é realizado em modelos animais logo os resultados nunca poderão ser diretamente transpostos para seres humanos.

Além disso, o impacto foi analisado em células isoladas, não sendo de longe comparável às complexas reações e relações fisiológicas que se observam no organismo como um todo.

dIETAS ALCALINAS e covid-19: O que são alimentos alcalinos?

Dietas alcalinas e COVID-19: tabela com pH de alimentos

Estas dietas têm ganho alguns adeptos nos últimos anos. A premissa principal é de que os alimentos que comemos podem alterar o pH ou acidez do nosso corpo.

Os defensores da dieta alcalina acreditam que ingerir determinadas quantidades de alimentos acidificantes pode acidificar o nosso organismo, aumentando a sua vulnerabilidade e predisposição para doenças como a osteoporose e alguns tipos de cancro. Assim, a ingestão de alimentos alcalinos pode ser benéfica para equilibrar o pH sanguíneo.

Importa clarificar que o efeito acidificante ou alcalinizante de um alimento não está relacionado com o pH do alimento em si, mas sim com os subprodutos produzidos depois da digestão.

O PRAL (ou carga renal ácida potencial) é uma fórmula aplicada em laboratório e diz respeito à quantidade de ácido que se espera que chegue aos rins após a metabolização dos alimentos (2).

Os nutrientes acídicos como as proteínas, o fósforo e os compostos de enxofre aumentam a quantidade de ácido que os rins devem filtrar. Portanto, carnes e grãos, que tendencialmente apresentam maiores quantidades destes nutrientes, possuem um PRAL positivo (2).

Por outro lado, as frutas e vegetais são mais ricas em nutrientes alcalinos como o magnésio, o potássio e o cálcio logo apresentam um PRAL negativo (2). À semelhança das restantes frutas, o sumo do limão produz subprodutos alcalinos e, uma vez metabolizado, apresenta um PRAL negativo.

Na verdade, o que acontece, é que os nutrientes alcalinos podem ter efeito apenas acidez da saliva e da urina e são vários os estudos que mostram que o que comemos tem um efeito muito limitado no pH do sangue (345).

O organismo precisa de manter os níveis de pH entre 7.35–7.45 de forma a que o funcionamento das células seja o normal. Caso contrario, entramos num estado de acidose ou alcalose metabólica, com consequências fatais se não tratado.

No entanto, este fenómeno raramente se verifica já que os rins estão constantemente a filtrar os excessos de ácido e a eliminá-lo através da urina. Por isso, mesmo que a urina possa apresentar uma acidez variável, em casos normais, isso raramente afeta o pH do sangue.

Valores de pH, COVID-19 e alimentos alcalinizantes

Variedade de alimentos com pH alcalino

Os níveis de pH variam de 0 a 14, sendo os valores < 7 acídicos e > 7 alcalinos.

Sabe-se que a maioria dos vírus, encapsulados ou não, usam mecanismos endocíticos de entrada nas células e que descidas no pH do hospedeiro podem facilitar esse processo. Um exemplo é o vírus Semliki Forest (6). Mas mais uma vez se reitera: o organismo tem mecanismos específicos de manutenção do pH entre 7,35 e 7,45 como forma de evitar variações que podem conduzir à morte.

Avaliação Vida Ativa: Falso

É essencial não esquecer que o nosso organismo já tem mecanismos próprios para manter os níveis de pH entre 7.35–7.45 de forma a que o funcionamento das células seja o normal.

Queremos com isto dizer que qualquer tentativa de alteração do pH através da dieta apenas será refletida na urina, suor e saliva, muito dificilmente no sangue.

Por muito que tentem provar o contrário, infelizmente, não existe qualquer alimento que possa ser útil em caso de doença ativa, ou seja, não há forma de reforçar o sistema imunitário através da alimentação.

Fontes

  1. Gallangher, T.M., et.al. (1991). Alteration of the pH dependence of coronavirus-induced cell fusion: effect of mutations in the spike glycoprotein. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/1848311
  2. REMER, T., & MANZ, F. (1995). Potential Renal Acid Load of Foods and its Influence on Urine pH. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7797810/
  3. Bonjour, J.-P. (2013). Nutritional disturbance in acid–base balance and osteoporosis: a hypothesis that disregards the essential homeostatic role of the kidney. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23551968
  4. Koeppen, B. M. (2009). The kidney and acid-base regulation. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19948674
  5. Fenton, T. R., & Lyon, A. W. (2011). Milk and Acid-Base Balance: Proposed Hypothesis versus Scientific Evidence. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22081694
  6. Helenius, A. (2013). Virus entry: What has pH got to do with it? Disponível em: https://www.nature.com/articles/ncb2678.pdf?origin=ppub&utm_medium=affiliate&utm_source=commission_junction&utm_campaign=3_nsn6445_deeplink_PID2190813&utm_content=deeplink
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