Nutricionista Mafalda Andrade
Nutricionista Mafalda Andrade
13 Jun, 2017 - 16:01

Deficiência em ferro na gravidez: o que saber

Nutricionista Mafalda Andrade

Se está grávida e foi-lhe diagnosticada anemia, temos alguns conselhos sobre como evitar a deficiência em ferro na gravidez.

Deficiência em ferro na gravidez: o que saber

A deficiência em ferro na gravidez desenvolve-se, na maioria das vezes, durante a segunda metade da gestação.

Este problema de saúde surge por várias razões, de entre as quais gravidez múltipla, algumas doenças crónicas, vómitos ou diarreias constantes e ingestão insuficiente de ferro.

A deficiência de ferro pode levar à anemia, problema de saúde muito grave quando não controlado, principalmente na gravidez.

Em que consiste a anemia na gravidez?

Deficiência em ferro na gravidez: o que saber

Mesmo antes de engravidar, o seu corpo precisa de ferro para realizar uma série de funções, como a produção de hemoglobina e a manutenção de um sistema imunitário saudável.

Durante a gravidez, o coração trabalha mais arduamente para fornecer tudo o que é necessário ao bebé, sendo que o volume de sangue na grávida aumenta cerca de 30 a 50%, tornando o ferro ainda mais importante para o corpo. Contudo, apesar do aumento de volume sanguíneo, nem sempre o número de glóbulos vermelhos consegue equiparar este aumento.

A anemia é um problema de saúde em que existe uma diminuição de glóbulos vermelhos ou hemoglobina no sangue para um valor abaixo ao de referência, e que se traduz numa na dificuldade no transporte de oxigénio pelos tecidos do corpo.

As principais causas são nutricionais, e, dentro destas, o ferro é mais comum. Estima-se que 95% dos casos de anemia na gravidez ocorra por deficiência em ferro, sendo que, quando os níveis deste mineral são baixos, os glóbulos vermelhos são incapazes de transportar o oxigénio pelo corpo.

A anemia também poderá ocorrer devido à perda sanguínea ou destruição excessiva de glóbulos vermelhos.

Existe uma quantidade de ferro mínima?

Para grávidas, a recomendação mínima de ferro é de 27 miligramas por dia. Para as não grávidas, de 15 a 18 miligramas.

Prevalência da anemia na gravidez

Estima-se que a anemia ocorre em 20% a 80% das gestações. Destas, a anemia por deficiência de ferro é a mais comum.

Estima-se que aproximadamente 50% das grávidas em todo o mundo são anémicas, sendo que 52% encontram-se em países em desenvolvimento e 23% em países desenvolvidos.

Consequências da anemia na gravidez

Aproximadamente 40% das mortes maternas e perinatais são ligadas à anemia. Efetivamente, a deficiência em ferro na gravidez é perigosa tanto para a mãe e para o bebé.

Contudo, não precisa de entrar em pânico. Hoje em dia, a anemia na gravidez é facilmente diagnosticada e tratada. De qualquer das formas, aqui tem uma listagem das várias consequências para as mães e para os bebés de uma anemia não-controlada.

Para as mães

  • Pré-eclâmpsia (pressão arterial elevada)
  • Nascimentos prematuros
  • Complicações no parto
  • Insuficiência cardíaca
  • Hemorragia pós-parto
  • Pré-disposição para infeção e respetivo atraso na recuperação pós-cesariana
  • Labilidade emocional – Aumento da probabilidade de depressão pós-parto
  • Diminuição da função imunitária
  • Queda de cabelo
  • Enfraquecimento das unhas
  • Alterações da função da tiroide e das catecolaminas

Para os bebés:

  • Morte fetal
  • Atraso no crescimento intra-uterino
  • Baixo peso no nascimento
  • Atraso no desenvolvimento neurológico e cognitivo
  • Sistema imunitário comprometido

Quais são os sintomas da anemia?

Deficiência em ferro na gravidez: o que saber

Os sintomas provenientes da deficiência em ferro na gravidez não são iguais para todas as mulheres. Enquanto, em alguns casos, se verifica um quadro típico de anemia com quase todos os sintomas listados, noutros a grávida não sente nenhum deles e só se apercebe da doença aquando da análise sanguínea de rotina.

O sintoma mais frequente é o cansaço. É evidente que a gravidez, por si só, mascara este sintoma, porque a maioria das afetadas atribui a fadiga anormal à gravidez em si. Os restantes sintomas são bastante diversos.

O que está em causa na anemia é a capacidade de transporte de oxigénio e quando há transporte de oxigénio diminuído, toda a função cognitiva, sexual, entre outras, fica comprometida. Deste modo, alguns dos restantes sintomas da deficiência de ferro na gravidez são:

  • Palidez
  • Mal-estar geral
  • Queda de cabelo
  • Alteração da pigmentação da pele (frequentemente para um tom amarelado ou pálido)
  • Cortes nos cantos da boca
  • Fragilidade das unhas
  • Taquicardia
  • Falta de ar
  • Dificuldades de concentração

Se estiver grávida de gémeos, se tiver engravidado pouco tempo depois de ter dado à luz outro bebé ou se teve períodos menstruais abundantes ​​antes de engravidar, tem um risco mais elevado de desenvolver anemia por deficiência de ferro, pelo que deve consultar o seu médico assim que possível.

Como se deteta?

Deficiência em ferro na gravidez: o que saber

Ao consultar o médico, para diagnosticar a anemia, irá realizar uma análise ao sangue.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o valor aritmético que define a existência de anemia, diz-nos que uma mulher adulta deve ter um valor superior a 12 g/dl de hemoglobina.

Na grávida, estes valores são diferentes. É aceitável que a mulher no segundo trimestre da gravidez tenha um valor de 10,5 g/dl, enquanto no primeiro e terceiro trimestres tenha um valor de 11 g/dl.

Alguns especialistas dividem a anemia em 3 graus, de acordo com os valores de hemoglobina:

  • Ligeira – 9-11 g/dl
  • Moderada — 8-9 g/dl
  • Grave – inferior a 8 g/dl

O volume corpuscular médio (VCM) também pode ser um bom indicador de anemia, mas como este aumenta discretamente durante os dois primeiros trimestres, pode mascarar uma deficiência em ferro na gravidez.

Por sua vez, testes para avaliar o perfil do ferro no organismo, ferro sérico, a capacidade total de ligação de ferro, saturação da transferrina sofrem flutuações decorrentes de mecanismos adaptativos próprios da gestação. Assim, a ferritina sérica é considerada o melhor teste laboratorial para avaliar se existe deficiência de ferro.

Aqui tem os valores laboratoriais típicos de uma anemia ferropénica na gravidez:

Hemoglobina<11g/dL
Ferritina sérica<12ng/mL
Capacidade total de ligação de ferro>400mcg/dL
Ferro plasmático<50mcg/dL
Índice de saturação de transferrina<16%
Volume corpuscular médio (VCM)Diminuído
Hemoglobina corpuscular médiaDiminuída

Como se trata a deficiência de ferro na gravidez?

Na medicina moderna, anemia em mulheres grávidas não é difícil de diagnosticar e tratar.

Existem vários componentes do tratamento, sendo que a mais usual é uma combinação entre a alimentação e a suplementação oral.

Alimentação na deficiência de ferro

Deficiência em ferro na gravidez: o que saber

A primeira abordagem para diminuir a probabilidade de ocorrer anemia é uma alimentação equilibrada, que concilie o ferro de origem vegetal com o ferro de origem animal na mesma refeição. Não comer legumes é mau, contudo só ingerir legumes também não é bom. Deste modo, o ideal é conciliar estes dois grupos na mesma refeição para ter uma absorção de ferro ideal.

Existem dois tipos de ferro diferentes: o ferro não-heme (de origem vegetal) e o ferro heme (de origem animal). O ferro não-heme é de baixa absorção, entre 1% e 7%, contribuindo muito pouco para as reservas maternas. Por outro lado, o ferro heme, possui uma taxa de absorção que varia entre os 20% e 30%, sendo que este é o que mais contribui para as reservas.

Se procura aumentar o teor de ferro da sua alimentação, ingira os alimentos listados abaixo e siga as dicas aqui descritas.

Alimentos mais ricos em ferro:

  • Carne branca
  • Carne vermelha
  • Peixe
  • Lentilhas
  • Feijão
  • Grão-de-bico
  • Beterraba
  • Vegetais de folha verde- escuro (Espinafres, brócolos, entre outros)
  • Ervilhas
  • Frutos gordos

Dicas para aumentar ao máximo a absorção de ferro

  1. Mastigue bem os alimentos – A mastigação correta é essencial para o bom aproveitamento dos componentes nutricionais das refeições. Quando a alimentação é feita de forma rápida, é mais fácil ter flatulência e outros problemas gastrointestinais e os nutrientes são menos absorvidos.
  2. Privilegie a qualidade e não a quantidade – Há quem diga que a expressão “a grávida pode alimentar-se por dois” significa que esta pode comer muito mais do que normalmente. Isto não é verdade! É recomendado comer os alimentos certos e ter uma atenção redobrada às escolhas alimentares, mas em quantidade adequada, pois o excesso alimentar poderá provocar excesso de peso, tanto na mãe como no bebé, muito prejudicial em ambos os casos.
  3. Acompanhe os alimentos ricos em ferro com alimentos ricos em vitamina C – Alimentos com um grande teor de vitamina C (como os citrinos, morangos, kiwi, melão, tomate, entre outros) devem ser ingeridos em simultâneo com os alimentos ricos em ferro, visto que a vitamina C promove uma melhor absorção deste mineral. Deste modo, acompanhe a carne com umas rodelas de laranja ou kiwi ou tempere o peixe com bastante sumo de limão, por exemplo. São pormenores que irão certamente fazer a diferença.
  4. Evite consumir chá e café com suas refeições – eles contêm substâncias conhecidas como fenóis que interferem na absorção do ferro.

Suplementação

O primeiro trimestre de gravidez até pode ser feito sem suplementação, porque de alguma forma o facto de haver uma ausência de menstruação contribui para um melhor balanço em termos de ferro.

É a partir do segundo trimestre que existe um aumento exponencial desta necessidade, devido ao crescimento significativo do feto e da placenta. Para isso é já necessária a suplementação farmacológica.

Assim, a OMS recomenda, de modo geral, suplementação com 60mg de ferro elementar para todas as gestantes a partir da 20ª semana de gravidez, o que corresponde à suplementação com 300mg de sulfato ferroso, visto que a quantidade de ferro elementar corresponde a 20% da dose total do mineral.

A resposta ao tratamento é considerada adequada quando existe um incremento de 50% ou mais dos valores iniciais da hemoglobina após trinta dias de administração e o tempo de tratamento para reposição das reservas maternas depende da intensidade da deficiência de ferro e correção da causa da anemia.

Contudo, a eficácia do tratamento depende da capacidade de absorção intestinal, e, principalmente, da tolerância ao tratamento oral, visto que este por vezes pode causar danos gastrointestinais como náuseas, vómitos, diarreia ou obstipação.

Acima de tudo, convém relembrar que o suplemento em ferro não irá substituir os cuidados com a alimentação e este também não deverá ser seguido sem prescrição médica.

Quando tudo o resto falha…

Em casos graves, pode ser necessária a suplementação de ferro por via intravenosa ou uma transfusão de sangue.

A terapia com ferro parenteral constitui-se em alternativa eficaz para:

  • Casos de intolerância ao tratamento oral, quer seja por dificuldade de ingestão ou absorção
  • Situações em que a deficiência de ferro é grave (hemoglobina inferior a 7 gr/dl) após a 14ª semana
  • Quando se pretende uma resposta mais rápida para diminuir as probabilidades de transfusão. A transfusão de hemácias é indicada mais raramente no período pré-natal, porém, nos casos de anemia grave, com descompensação materna, associação com outras doenças, prejuízo da vitalidade fetal, risco de procedimento cirúrgico ou parto emergencial, o procedimento justifica-se para prevenção das complicações provenientes da anemia
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