Pediatra Filipa Marujo
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26 Fev, 2020 - 16:02

O que os pais precisam saber sobre a COVID-19: qual o impacto nas crianças?

Pediatra Filipa Marujo

Apesar de os casos da doença COVID-19 aumentarem de dia para dia, o número de infeções confirmadas entre crianças é relativamente mais baixo.

COVID-19: criança com máscara protetora

A COVID-19 provocada pelo vírus SARS-CoV-2, conhecido por novo coronavírus, tem feito manchetes em todo o mundo nas últimas semanas. A COVID-19 é contagiosa, mas as crianças parecem ser menos vulneráveis. Pelo menos, até agora.

Coronavírus e COVID-19: o que está em causa?

Mitos sobre o coronavírus: os mais comuns

Os coronavírus são uma grande família de vírus, sendo já vários os conhecidos como responsáveis por infeção em pessoas. Habitualmente, causam doenças respiratórias leves, como a nasofaringite aguda (a chamada constipação na linguagem quotidiana). No entanto, pelo menos dois coronavírus foram identificados anteriormente como causadores de surtos e infeções respiratórias graves em humanos: o coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV), entre 2002 e 2003, e o coronavírus da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-Cov), em 2012.

O nome, COVID-19, resulta das palavras “corona”, “vírus” e “doença” com indicação do ano em que surgiu (2019).

O primeiro caso COVID-19 foi detetado no final de dezembro de 2019 na cidade chinesa de Wuhan, a 7ª maior cidade na região central da China, albergando cerca de 11 milhões de habitantes. A fonte da infeção ainda não é conhecida e, segundo as informações publicadas pelas autoridades internacionais, ainda pode estar ativa.

A maioria dos primeiros casos estavam associados a um mercado de venda de alimentos e animais vivos (peixe, mariscos e aves) em Wuhan, que pertence à província de Hubei. Os investigadores suspeitam que o vírus seja de origem animal, mas ainda sem certezas, uma vez que já foram confirmadas infeções em pessoas que não tinham visitado este mercado.

Como são transmitidos os novos coronavírus?

Alguns coronavírus podem causar doenças nas pessoas, enquanto outros circulam entre os animais. Raramente, os vírus que infetam animais podem sofrer mutações e infetar humanos.

As evidências sugerem que isto possa ter ocorrido com a COVID-19, já que o vírus estava ligado a um grande mercado de frutos do mar e animais em Wuhan, sugerindo a transmissão de animal para humano.

Presentemente, o vírus tem-se transmitido de pessoa para pessoa através de secreções respiratórias. Suspeita-se que o vírus também possa ser transmitido através de superfícies, ou seja, contactando com uma superfície em que uma pessoa infetada tenha tocado ou espirrado.

Desde 31 de dezembro de 2019 até 23 de fevereiro de 2020, foram confirmados laboratorialmente 78 833 casos de COVID-19 (de acordo com as definições de casos aplicadas nos países afetados), dos quais 77 035 casos são na China, com um total de 2 445 óbitos. Os restantes 1 798 casos encontram-se em 30 países diferentes, incluindo 9 países europeus com um total de 123 casos confirmados.

Quais são os sintomas dA COVID-19?

Os sintomas da infeção surgem após um período de incubação entre os 5,2 e os 14 dias e são semelhantes aos de uma gripe (febre, tosse, dificuldade respiratória e cansaço).

A gravidade dos sintomas da COVID-19 varia de leve a grave. Nos casos mais graves, a doença pode evoluir para pneumonia grave com insuficiência respiratória aguda e falência renal, podendo mesmo conduzir à morte.

Quão perigoso é novo coronavírus? E como se comporta com as crianças?

COVID-19: rapaz com máscara protetora

Ainda há muita coisa desconhecida sobre este vírus e o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), juntamente com a Organização Mundial da Saúde (OMS) estão a monitorizar a situação de perto.

Apesar do contínuo aumento de casos de infeção pelo novo coronavírus na China, o número de infeções confirmadas entre crianças é notavelmente mais baixo. À luz do conhecimento atual, as crianças parecem desenvolver menos sintomas e doença mais leve comparativamente aos adultos.

A razão para esta diferença pode dever-se ao facto das crianças terem menos doenças que os adultos e apresentarem diferenças importantes no modo de atuação de seu sistema imunitário.

Quando se contacta de novo com um agente infecioso, existe ativação de duas vias de defesa: a via inata e a via adaptativa. A primeira está disponível e atua desde o nascimento, sendo uma resposta rápida e estereotipada a um número grande, mas limitado, de estímulos. Já a via adaptativa é específica para cada agente infecioso e vai sendo contruída ao longo do crescimento. Cria-se assim uma memória imunológica que confere proteção contra reinfeções pelo mesmo agente.

Com base nestes pressupostos, temos que as crianças apresentam uma via inata mais ativa que a dos adultos e, simultaneamente, uma via adaptativa menos desenvolvida. Estas duas características conferem à criança um estado mais protetor contra a doença grave.

Até agora, parece que o novo vírus tem maior probabilidade de infetar adultos mais velhos, principalmente pessoas com problemas de saúde crónicos.

Devemos ter em conta que a COVID-19 parece ter características genéticas semelhantes ao SARS, e também como este, as crianças estão a ser “poupadas” relativamente à população adulta.

Existe risco de transmissão da COVID-19 entre mãe e feto?

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Outra dúvida que existe prende-se com a possibilidade de transmissão materna da COVID-19 ao feto.

De acordo com o conhecimento até à data, não parece haver transmissão do vírus através da placenta ou do leite materno. Também não se registaram complicações nos recém-nascidos de mães infetadas com a COVID-19.

Por outro lado, os bebés nascem com anticorpos maternos, o que lhes pode também conferir algum nível de proteção para a forma de doença grave. Poderá ser este o motivo pelo qual se tem registado baixo grau de gravidade em bebés nascidos de mães infetadas com este vírus.

Como se pode prevenir a infeção pela COVID-19?

A melhor maneira de prevenir a infeção é evitar a exposição ao vírus. Atualmente, não existe vacina para a COVID-19 e o CDC recomenda que se evitem todas as viagens não essenciais à China, não existindo para já restrições nas deslocações.

As ações preventivas diárias podem ajudar a impedir a propagação de vírus respiratórios (nos quais de incluem o novo coronavírus mas também outros, como o vírus da gripe). As medidas gerais e que todos os pais devem ensinar aos seus filhos incluem:

  • Lavar as mãos frequentemente com água e sabão durante, pelo menos, 20 segundos e usar um desinfetante para as mãos à base de álcool, se água e sabão não estiverem disponíveis
  • Evitar tocar na cara, nariz e boca com as mãos não lavadas
  • Evitar contato próximo com pessoas doentes
  • Ficar em casa enquanto se estiver doente
  • Tapar a tosse ou espirro com o antebraço ou com um lenço de papel, colocando-o imediatamente no lixo
  • Limpar e desinfetar os objetos e superfícies usados frequentemente

Fontes

  1. Cheng Z, Shan J. 2019 Novel coronavirus: where we are and what we know. Infection 2020. doi: 10.1007/s15010-020-01401-y.
  2. COVID-19. Situation update – worldwide. European Centre for Disease Prevention and Control – An agency of the European Union [consultado em Fevereiro de 2020]. Disponível em: https://www.ecdc.europa.eu/en/geographical-distribution-2019-ncov-cases
  3. COVID-19. Temas de Saúde. SNS 24 – Centro de Contacto do Serviço Nacional de Saúde [consultado em Fevereiro de 2010]. Disponível em: https://www.sns24.gov.pt/tema/doencas-infecciosas/coronavirus/covid-19/
  4. Huang C, Wang Y, Li X, Ren L, Zhao J, Hu Y, et al. Clinical features of patients infected with 2019 novel coronavirus in Wuhan, China. Lancet 2020;395(10223):497-506.
  5. Zhu N, Zhang D, Wang W, Li X, Yang B, et al. A Novel Coronavirus from Patients with Pneumonia in China, 2019. N Engl J Med 2020; 382(8):727-733
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