Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
27 Mai, 2020 - 09:53

Fact-check: o café causa gastrite?

Nutricionista Hugo Canelas

Embora seja uma das bebidas mais consumidas do mundo, os mitos dos efeitos na saúde continuam a existir. Saiba se há alguma relação entre café e gastrite.

fact-check falso

Questão em análise

Estudos que datam de 1965 referem que o café pode estar na origem da gastrite e, para muita gente, este mito mantém-se.

Sobre a relação café e gastrite, importa saber que o café não causa gastrite.

A gastrite é uma doença que resulta da perda da barreira mucosa do estômago, fator decisivo na proteção do órgão contra a agressão pelos ácidos produzidos na digestão e, como tal, alimentos que possam estimular a produção de ácido podem piorar os sintomas.

No entanto, como em tantas outras doenças gastrointestinais, é importante distinguir agente causador de doença e agente precipitador dos sintomas.

Neste caso a identificação de alimentos que provoquem sintomas é uma tarefa pessoal, uma vez que se é certo que alguns alimentos aumentam comprovadamente a secreção de ácido, outros podem causar sintomas e não fazer parte dessa lista.

A verdade é que o papel dos fatores alimentares como causadores diretos de gastrite está praticamente descartado, uma vez que o maior fator de risco para esta e outras doenças gástricas mais graves é a infeção por Helicobacter pylori.

Neste caso, o consumo de sal tem um papel no risco acrescido da doença, uma vez que atua em sinergia com a colonização do fundo gástrico. O papel do café na coinfeção não está determinado.

o que é a gastrite?

Homem com dores de estômago

A gastrite consiste na inflamação da barreira mucosa do estômago, responsável pela proteção das células contra a agressão do ácido produzido durante a digestão.

Os fenómenos agudos envolvem a inflamação repentina pelo consumo de alimentos específicos, para os quais o indivíduo apresenta sensibilidade ou alimentos/substâncias impróprios para consumo ou corrosivos.

A gastrite crónica envolve episódios repetidos de gastrite aguda, manifestando-se na atrofia da mucosa gástrica, na diminuição das secreções gástricas e na absorção insuficiente de vitamina B12 (1).

Sintomas da gastrite

Os sintomas desta doença são transversais a muitas outras doenças do trato gastrointestinal e incluem náuseas, vómitos, sensação de enfartamento, indigestão, dor epigástrica e falta de apetite (1).

Quais as causas da gastrite?

Como referido anteriormente, fatores que influenciem a secreção de muco pelas células do estômago estão na origem desta doença, uma vez que a perda da barreira protetora permite a exposição contínua das paredes do órgão às secreções ácidas necessárias para os processos digestivos.

A evidência disponível acerca da relação entre agentes alimentares específicos e a gastrite não é muita, e o que se sabe é que o consumo de sal e de bebidas alcoólicas aumenta o risco de gastrite, não havendo certezas quanto ao papel das carnes vermelhas, gorduras e pimentos chilli (1, 2, 3).

Do ponto de vista fisiológico, alguns nutrientes e agentes intervêm na secreção de hormonas que aumentam ou diminuem a produção de ácido no estômago. Mas mesmo nestes casos, o efeito é ainda algo desconhecido.

Um exemplo são as proteínas dos alimentos que se por um lado abrandam temporariamente as secreções gástricas, por outro estimulam a secreção de gastrina, ácido clorídrico e pepsina.

Na verdade, desde que foi descoberta a relação entre a gastrite e a infeção por Helicobacter pylori, fator que aumenta da resposta inflamatória do sistema imunitário, os alimentos deixaram de ser tidos como responsáveis pelo aparecimento da doença (2, 3).

Esta infeção é geralmente transmitida de pessoa para pessoa, mas pode também acontecer pelo consumo de alimentos ou água contaminados.

A olfactomedina 4 é uma proteína produzida em maior quantidade em doentes com H. pylori, levando à expressão de citocinas pró-inflamatórias que tornam a resposta imunitária do hospedeiro mais fraca, contribuindo assim para a persistência da colonização (3).

No estômago, esta bactéria é resistente ao ambiente ácido graças à produção de substâncias que neutralizam o meio, como amónia e ureases, o que permite a persistência da infeção.

A prevalência da infeção por H. pylori está associada à geografia e às condições socioeconómicas da população, variando de aproximadamente 10%, nos países desenvolvidos, a 80% a 90% nos países em desenvolvimento.

Felizmente, embora a gastrite seja uma observação característica, apenas 10% a 15% dos indivíduos infetados por H. pylori desenvolvem ulceração sintomática, e aproximadamente 1% desenvolve cancro de estômago (1).

Outros fatores podem aumentar o risco de desenvolver gastrite, incluindo a idade avançada, o fumo do tabaco, o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, o uso rotineiro de anti-inflamatórios não esteróides (ibuprofeno, aspirina) e o uso de cocaína.

Quanto ao consumo de bebidas alcoólicas, este pode causar, no máximo, danos superficiais na mucosa gástrica, que podem piorar ou interferir no tratamento da doença.

O consumo moderado deste tipo de bebidas não parece ser prejudicial a menos que haja outros fatores de risco associados, como fumo do tabaco ou uso de anti-inflamatórios. Por outro lado, as cervejas e vinhos aumentam significativamente a secreção gástrica e devem ser evitados na doença sintomática.

O CAFÉ E GASTRITE

Mulher a encher chávena de café da cafeteira

Tal como as proteínas, o papel do café na origem da gastrite é alvo de discussão.

O café e a cafeína estimulam a secreção de ácido e contribuem para diminuir a pressão do esfíncter esofágico inferior, o que permite que as secreções gástricas refluam para o esófago, irritando também esta zona do trato gastrointestinal.

No entanto, para além deste papel no exacerbar de sintomas, nem o café nem a cafeína parecem ser causa de gastrite.

Avaliação Vida Ativa: Falso

O café é uma das bebidas mais consumidas a nível mundial e o seu papel no desenvolvimento da gastrite e outras doenças gástricas mais graves é ainda incerto.

A disparidade de resultados pode estar associada à presença de compostos tanto carcinogénicos como anti-carcinogénicos como os antioxidantes, a temperatura à qual é consumido, ao baixo número de estudos controlados e, mais importante, à influência de fatores confundidores como a infeção por H. pylori (4, 5).

Para além da cafeína, o café contém outros compostos que estimulam e inibem as secreções gástricas, como é o caso da N-alcanoil-5-hidroxotriptamida e da N-metilpiridina.

Dependendo do tipo de café, a concentração de hidroxitriptamida e metilpiridina pode variar e, na verdade, o café de torra escura tem menores concentrações da primeira e maiores da última, querendo dizer que pode ter um efeito mais inibitório nas secreções gástricas do que estimulatório (6).

Fontes

  1. Mahan, L.K., Raymond, J.L. (2017). Krause’s Food and Nutrition Care Process. 14th Edition. St Louis, Missouri.
  2. Boekema, J., et.al. (1999). Coffee and Gastrointestinal Function: Facts and Fiction: A Review. https://sci-hub.se/https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10499460
  3. Rosenstock S., et al. (2003). Risk factors for peptic ulcer disease: a population based prospective cohort study comprising 2,416 Danish adults. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12524398/
  4. Shimamoto T. et al. (2013). No association of coffee consumption with gastric ulcer, duodenal ulcer, reflux esophagitis, and non-erosive reflux disease: a cross-sectional study of 8,013 healthy subjects in Japan. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23776588/
  5. Lee, Y.Y., et.al. (2013). Environmental and Lifestyle Risk Factors of Gastric Cancer. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23725070
  6. Schubert, M. (2015). Functional anatomy and physiology of gastric secretion. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26376477
Veja também