Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
12 Ago, 2022 - 19:53

O café causa gastrite: mito ou verdade?

Nutricionista Hugo Canelas

É uma das bebidas mais consumidas do mundo e há muitos mitos. Hoje vamos esclarecer um deles: o café causa gastrite?

Sobre a relação café e gastrite sempre houve muitas dúvidas, mas importa responder à questão: será que o café causa gastrite? Não, é a resposta mais simples. Mas vamos entender o porquê e perceber a origem deste mito – faz, de facto, algum sentido?

Gastrite: o que é?

A gastrite é uma doença que resulta da perda da barreira mucosa do estômago, fator decisivo na proteção do órgão contra a agressão pelos ácidos produzidos na digestão e, como tal, alimentos que possam estimular a produção de ácido podem piorar os sintomas.

No entanto, como em tantas outras doenças gastrointestinais, é importante distinguir agente causador de doença e agente precipitador dos sintomas.

Neste caso a identificação de alimentos que provoquem sintomas é uma tarefa pessoal, uma vez que se é certo que alguns alimentos aumentam comprovadamente a secreção de ácido, outros podem causar sintomas e não fazer parte dessa lista.

A verdade é que o papel dos fatores alimentares como causadores diretos de gastrite está praticamente descartado, uma vez que o maior fator de risco para esta e outras doenças gástricas mais graves é a infeção por Helicobacter pylori.

Neste caso, o consumo de sal tem um papel no risco acrescido da doença, uma vez que atua em sinergia com a colonização do fundo gástrico. O papel do café na coinfeção não está determinado.

Estudos que datam de 1965 referem que o café pode estar na origem da gastrite e, para muita gente, este mito mantém-se.

Homem com dores de estômago

A gastrite consiste na inflamação da barreira mucosa do estômago, responsável pela proteção das células contra a agressão do ácido produzido durante a digestão.

Os fenómenos agudos envolvem a inflamação repentina pelo consumo de alimentos específicos, para os quais o indivíduo apresenta sensibilidade ou alimentos/substâncias impróprios para consumo ou corrosivos.

A gastrite crónica envolve episódios repetidos de gastrite aguda, manifestando-se na atrofia da mucosa gástrica, na diminuição das secreções gástricas e na absorção insuficiente de vitamina B12 .

Sintomas da gastrite

Os sintomas desta doença são transversais a muitas outras doenças do trato gastrointestinal e incluem náuseas, vómitos, sensação de enfartamento, indigestão, dor epigástrica e falta de apetite.

Quais as causas da gastrite?

Como referido anteriormente, fatores que influenciem a secreção de muco pelas células do estômago estão na origem desta doença, uma vez que a perda da barreira protetora permite a exposição contínua das paredes do órgão às secreções ácidas necessárias para os processos digestivos.

A evidência disponível acerca da relação entre agentes alimentares específicos e a gastrite não é muita, e o que se sabe é que o consumo de sal e de bebidas alcoólicas aumenta o risco de gastrite, não havendo certezas quanto ao papel das carnes vermelhas, gorduras e pimentos chilli.

Do ponto de vista fisiológico, alguns nutrientes e agentes intervêm na secreção de hormonas que aumentam ou diminuem a produção de ácido no estômago. Mas mesmo nestes casos, o efeito é ainda algo desconhecido.

Um exemplo são as proteínas dos alimentos que se por um lado abrandam temporariamente as secreções gástricas, por outro estimulam a secreção de gastrina, ácido clorídrico e pepsina.

Na verdade, desde que foi descoberta a relação entre a gastrite e a infeção por Helicobacter pylori, fator que aumenta da resposta inflamatória do sistema imunitário, os alimentos deixaram de ser tidos como responsáveis pelo aparecimento da doença.

Esta infeção é geralmente transmitida de pessoa para pessoa, mas pode também acontecer pelo consumo de alimentos ou água contaminados.

A olfactomedina 4 é uma proteína produzida em maior quantidade em doentes com H. pylori, levando à expressão de citocinas pró-inflamatórias que tornam a resposta imunitária do hospedeiro mais fraca, contribuindo assim para a persistência da colonização.

No estômago, esta bactéria é resistente ao ambiente ácido graças à produção de substâncias que neutralizam o meio, como amónia e ureases, o que permite a persistência da infeção.

A prevalência da infeção por H. pylori está associada à geografia e às condições socioeconómicas da população, variando de aproximadamente 10%, nos países desenvolvidos, a 80% a 90% nos países em desenvolvimento.

Felizmente, embora a gastrite seja uma observação característica, apenas 10% a 15% dos indivíduos infetados por H. pylori desenvolvem ulceração sintomática, e aproximadamente 1% desenvolve cancro de estômago.

Outros fatores podem aumentar o risco de desenvolver gastrite, incluindo a idade avançada, o fumo do tabaco, o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, o uso rotineiro de anti-inflamatórios não esteroides (ibuprofeno, aspirina) e o uso de cocaína.

Quanto ao consumo de bebidas alcoólicas, este pode causar, no máximo, danos superficiais na mucosa gástrica, que podem piorar ou interferir no tratamento da doença.

O consumo moderado deste tipo de bebidas não parece ser prejudicial a menos que haja outros fatores de risco associados, como fumo do tabaco ou uso de anti-inflamatórios. Por outro lado, as cervejas e vinhos aumentam significativamente a secreção gástrica e devem ser evitados na doença sintomática.

Afinal, o café causa gastrite?

Mulher a encher chávena de café da cafeteira

Tal como as proteínas, o papel do café na origem da gastrite é alvo de discussão.

O café e a cafeína estimulam a secreção de ácido e contribuem para diminuir a pressão do esfíncter esofágico inferior, o que permite que as secreções gástricas refluam para o esófago, irritando também esta zona do trato gastrointestinal.

No entanto, para além deste papel no exacerbar de sintomas, nem o café nem a cafeína parecem ser causa de gastrite.

Conclusão

O café é uma das bebidas mais consumidas a nível mundial e o seu papel no desenvolvimento da gastrite e outras doenças gástricas mais graves é ainda incerto.

A disparidade de resultados pode estar associada à presença de compostos tanto carcinogénicos como anti-carcinogénicos como os antioxidantes, a temperatura à qual é consumido, ao baixo número de estudos controlados e, mais importante, à influência de fatores confundidores como a infeção por H. pylori.

Para além da cafeína, o café contém outros compostos que estimulam e inibem as secreções gástricas, como é o caso da N-alcanoil-5-hidroxotriptamida e da N-metilpiridina.

Dependendo do tipo de café, a concentração de hidroxitriptamida e metilpiridina pode variar e, na verdade, o café de torra escura tem menores concentrações da primeira e maiores da última, querendo dizer que pode ter um efeito mais inibitório nas secreções gástricas do que estimulatório.

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