Psicóloga Ana Graça
Psicóloga Ana Graça
14 Dez, 2020 - 09:12

Beijos e abraços: como explicar que não nos sentimos confortáveis?

Psicóloga Ana Graça

Adiamos os beijos e abraços, mas nem todos encaram bem este distanciamento físico. Como cumprir as normas sem magoar aqueles de quem gostamos?

Casal a trocar beijos e abraços

Onde ficam os beijos e abraços numa altura em que a pandemia por COVID-19 obriga ao distanciamento físico? Como seres sociais que somos, a situação de isolamento físico e social pode ser bastante desafiadora para todos e, para algumas pessoas, ser particularmente tensa e ter impacto negativo ao nível da saúde mental.

Como lidar da melhor forma possível com a distância social daqueles de quem gostamos e como explicar que não nos sentimos confortáveis com a proximidade física e as expressões físicas de carinho? Eis algumas considerações.

Como viver o amor em tempo de pandemia?

Como reencontrar o amor após uma relação mal sucedida?

Uma situação de crise como a que vivemos pode ser indutora de maior stress, medos e irritações fáceis. Viver o amor nas suas diferentes formas e expressar os afetos pode ser especialmente desafiante numa altura em que o distanciamento físico e social é regra.

Alguns estudos têm vindo a mostrar que as condicionantes sociais que a pandemia coloca estão associadas a um aumento das situações de conflito nas famílias, uma diminuição da vivência da sexualidade e intimidade nos casais e maiores sentimentos de depressão e solidão em muitos de nós.

Assim sendo, importa reforçar as relações dentro do agregado familiar e vivê-las da forma mais positiva possível, a bem da saúde psicológica de todos. Não sabe como fazê-lo? Eis 3 sugestões:

1. Expresse gratidão. Lembre-se o quão afortunado é por partilhar casa com as pessoas que ama. Preste especial atenção àqueles com quem vive e seja gentil para com eles.

2. Expresse amor e carinho. Tendencialmente saímos menos de casa e os rituais carinhosos de chegada e despedida (beijos e abraços) podem, por isso, acontecer em menor frequência. Reforce-os.  

3. Retire algo de positivo da situação de isolamento. Se é importante permanecer em casa mais tempo, junto da família, porque não aproveitar esse tempo da melhor forma possível? Para tal, planeie atividades diferentes e divertidas (1, 2).

COVID-19: a falta de toque e as crianças

Jovem casal e filhos sentados no sofá em casa

Faz parte da natureza das crianças procurar o mimo infinito, os beijos e abraços, os carinhos sem fim. Mas, de repente, o distanciamento social tornou-se regra e os beijos e abraços sofreram algumas interdições.

O potencial efeito nas crianças destas limitações está por estudar, mas importa que, atendendo à idade e ao nível de desenvolvimento, lhes sejam dadas algumas explicações.

O toque é inerente ao ser humano. Seguramos, abraçamos, beijamos os nossos filhos. Treinamos os nossos filhos para que busquem também nos outros o toque como sinal de amor e conforto. Nas brincadeiras com os pares o toque é essencial. Através da brincadeira livre, as crianças aprimoram as suas habilidades sociais e constroem amizades.

É importante que os adultos de referência respondam às reações das crianças a todas estas mudanças de forma compreensiva, mostrando apoio, escutando as suas preocupações e dando-lhes uma dose extra de atenção e carinho. Recorrendo a palavras adaptadas à idade, é importante explicar-lhes o que se passa, garantindo que estas o compreendem e se sentem seguras (3, 4).

Beijos e abraços: como explicar que não nos sentimos confortáveis?

Amigos a cumprimentarem-se com os braços

Teremos que continuar a manter o distanciamento ainda durante algum tempo. E se para alguns de nós é fácil aceitar e cumprir a distância física, para outros pode ser um verdadeiro desafio. Como explicar a miúdos e graúdos que os beijos e abraços estão em pausa? Eis algumas sugestões:

1

Explicar que o distanciamento físico não é igual à ausência de contacto

Manter a distância física não significa anular a necessidade humana de contacto social. Podemos proteger-nos uns aos outros e, ao mesmo tempo, manter relações sociais saudáveis e prazerosas, ainda que à distância de 2 metros ou tendo um ecrã como intermediário (5).

2

Alimentar as relações

Vamos sempre sentir falta dos beijos e abraços, mas há outras formas de manter as relações vivas e felizes, ao mesmo tempo que zelamos pela saúde psicológica de todos nós.

Alimentar as relações pode ser feito de forma simples: acenar, estabelecer contacto ocular, dizer olá mesmo por detrás da máscara, sorrir com o olhar, utilizar as mais variadas plataformas digitais e redes sociais (5).

3

Prestar especial atenção aos mais jovens

Devemos prestar especial atenção à forma como moldamos as nossas relações com os mais jovens, transmitindo-lhes tranquilidade e esperança no futuro.

É importante que crianças e adolescentes percebam que manter a distância não implica ter medo e que não abraçar/beijar não é sinónimo de falta de amor ou carinho (6).

4

Estar presente e atento às necessidades do outro

Estar presente é dedicar tempo ao outro. Conectar-se com o outro, prestar-lhe atenção, escuta-lo, de preferência evitando ser distraído pelo telefone, trabalho ou outros interesses.

Mesmo quando não se pode partilhar beijos e abraços, é possível partilhar sentimentos, manter um diálogo franco e positivo e ser sensível as necessidades do outro (7).

Fontes

  1. Brenner, G. (2020). Impact of COVID-19 on Relationship Conflict and Sexuality. Psychology Today. Disponívem em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/experimentations/202009/impact-covid-19-relationship-conflict-and-sexuality
  2. Weil, Z. (2020). Love in the Time of Coronavirus. Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/becoming-solutionary/202003/love-in-the-time-coronavirus
  3. Freiberg, J. (2020). COVID-19, Our Children, and Their Loss of Touch. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/are-you-lonely/202005/covid-19-our-children-and-their-loss-touch
  4. Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2020). Ajudar as crianças a lidar com o stresse durante o surto de covid-19. Disponível em: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/ajudar_as_criana_as_a_lidar_com_o_stress_durante_o_surto_de_covid19_4.pdf
  5. Banks, A. (2020). Social vs. Physical Distancing: Why It Matters. Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/wired-love/202004/social-vs-physical-distancing-why-it-matters
  6. Timothy, A. (2020). COVID-19 and Fear in Our Children. Psychology Today. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/us/blog/dont-delay/202006/covid-19-and-fear-in-our-children
  7. Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2020). Relações durante a pandemia desafios e estratégias para casais. Disponível em: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/doc_relaa_aoes_durante_a_pandemia_desafios_e_estrataegias_para_casais_vf.pdf
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