Farmacêutica Ana Matos
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27 Fev, 2020 - 09:05

O que distingue os anti-histamínicos de segunda geração?

Farmacêutica Ana Matos

Muito úteis no tratamento da rinite e conjuntivite alérgica, os anti-histamínicos de segunda geração oferecem mais vantagens em relação aos da primeira geração. Saiba quais.

Mulher a tomar anti-histamínicos de segunda geração

As doenças alérgicas, de um modo geral, têm vindo a aumentar mundialmente. Com a chegada da primavera e com o aparecimento dos pólenes começam a surgir as queixas de rinite alérgica (espirros, corrimento e obstrução nasal e prurido), frequentemente acompanhada de conjuntivite (prurido ocular, olhos vermelhos e lacrimejo). A asma também é uma condição que pode agravar-se.

As alergias desta época resultam da inalação dos pólenes presentes na atmosfera. Em Portugal a polinização vai de Fevereiro a Outubro com um pico de Março a Junho (1) e os anti-histamínicos de segunda geração podem ajudar no alívio dos sintomas das doenças alérgicas.

Anti-histamínicos de segunda geração: principais vantagens

Mulher a tomar anti-histamínico

Os anti-histamínicos são fármacos que diminuem a reação do organismo a substâncias estranhas, diminuem a formação do edema, permeabilidade capilar e a vasodilatação e controlam as vertigens e vómitos (2).

Existem anti-histamínicos de primeira, de segunda e de terceira geração e neste artigo apenas iremos abordar as principais diferenças entre os anti-histamínicos de primeira e de segunda geração.

Quais os principais efeitos adversos dos anti-histamínicos de primeira geração?

Os anti-histamínicos de primeira geração são fármacos lipofílicos e por isso atravessam a barreira hematoencefálica, causando o seu principal efeito adverso: a sedação (4, 5, 6. Para além da sedação também se verificam outros efeitos adversos como fadiga, dores de cabeça, diminuição da função cognitiva, memória e performance psicomotora (5, 6).

Os anti-histamínicos de primeira geração não são seletivos na sua acção, ligando-se a receptores muscarínicos (acção anticolinérgica), recetores serotoninérgicos e adrenérgicos conduzindo a inúmeros efeitos adversos.

Nos receptores muscarínicos provocam xerostomia; retenção urinária e taquicardia; nos receptores adrenérgicos provocam hipotensão, tonturas e taquicardia e nos receptores serotoninérgicos provocam aumento do apetite (6).

A xerostomia e a retenção urinária podem ser particularmente problemáticos em pessoas idosas (4).

Após a sua toma são rapidamente absorvidos e metabolizados o que significa que devem ser administrados várias vezes por dia (6).

Dentro da primeira geração temos a hidroxizina e a clemastina (2).

Anti-histamínicos de segunda geração

Os anti-histamínicos de segunda geração oferecem mais vantagens em relação aos da primeira geração (6). Na tabela seguinte verificam-se as principais diferenças entre estas duas classes:

Anti-histamínicos de 1ª geração Anti-histamínicos de 2ª geração
Geralmente administrados várias vezes por dia Administrados uma a duas vezes por dia
Atravessam a barreira hematoencefálica Não atravessam a barreira hematoencefálica
Efeitos adversos como sedação Não causam efeitos adversos relevantes
Dose letal em lactentes e crianças  

Em relação aos anti-histamínicos de primeira geração, os de segunda geração provocam menos sedação e menos efeitos anticolinérgicos.

  Primeira geração Segunda geração
Sistema nervoso central Em doses terapêuticas causam fadiga, sonolência, diminuição da função cognitiva, memória e performance psicomotora, dores de cabeça, agitação. Em doses altas pode causar sedação.
Coração Taquicardia
Bloqueio de receptores muscarínicos; alfa adrenérgicos e serotoninérgicos Retenção urinária, xerostomia, dilatação da pupila, diminuição da motilidade gastrointestinal, estimulação do apetite.

Há duas décadas atrás dois anti-histamínicos pertencentes à segunda geração (astemizol e terfenadina) foram retirados do mercado pois causavam problemas cardíacos graves. Desde então, não foram descobertos mais casos semelhantes nesta classe (5).

Dentro da segunda geração temos a cetirizina, desloratadina, levocetirizina, loratadina e rupatadina (2).

Os anti-histamínicos são úteis no tratamento da rinite e conjuntivite alérgica e urticária. Os de segunda geração são, na prática, os mais usados no tratamento de condições alérgicas por causarem menos sedação (4).

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As medidas que ajudam a reduzir o contacto com os alergénios sazonais, os pólenes, são (1):

  • Evitar a prática de desportos ao ar livre
  • Evitar cortar a relva
  • Evitar arejar a casa durante o dia na primavera
  • Andar de carro com os vidros fechados
  • Evitar atividades no exterior de manhã muito cedo pois existe uma maior quantidade de pólenes no ar
  • Evitar caminhadas em espaços relvados

No tratamento das alergias, os anti-histamínicos adquirem um papel fundamental. Esta classe de fármacos age inibindo a ação da histamina, bloqueando a sua ligação aos recetores H1 (2).

Histamina: o que é?

A histamina é uma amina biogénica que resulta da descarboxilação do aminoácido histidina pela enzima histidina-descarboxilase.

A histamina está localizada por todo o organismo com elevadas concentrações nos pulmões, pele e trato gastrointestinal. É sintetizada e armazenada nos mastócitos e basófilos. Estimula a secreção gástrica, a inflamação, a contração muscular, a vasodilatação e a permeabilidade.  Também funciona como neurotransmissor sendo sintetizada no hipotálamo (3).

Quando a histamina é libertada no organismo esta vai ligar-se aos recetores de superfície presentes nas células-alvo. Atualmente são quatro os receptores conhecidos: H1, H2, H3 e H4 (3, 4).

Os recetores da histamina

Os recetores H1 são expressos primariamente nas células endoteliais vasculares e nas células musculares lisas. Estes receptores medeiam reacções inflamatórias e alérgicas. Aumentam o prurido, a vasodilatação, a permeabilidade vascular, a broncoconstrição e a hipotensão.

Os recetores H2 são primariamente encontrados nas células da mucosa gástrica aumentando a secreção de ácido gástrico no estômago.

Os recetores H3 têm elevada expressão nos neurónios histaminérgicos. Estão envolvidos no aumento do prurido, no aumento da congestão nasal e na prevenção da broncoconstrição excessiva.

Os recetores H4 são principalmente expressos nas células hematopoiéticas como os eosinófilos, linfócitos T, células dendríticas, mastócitos e basófilos. Estão envolvidos no aumento do prurido e da congestão nasal e na modulação do sistema imunológico.

Fontes

  1. Reis M. (2019). Alterações climáticas levam a que alergias aos pólenes comecem mais cedo e durem mais tempo. Acedido em 21 de Fevereiro de 2020. Disponível em: https://ionline.sapo.pt/artigo/655011/-alteracoes-climaticas-levam-a-que-alergias-aos-polenes-comecem-mais-cedo-e-durem-mais-tempo-?seccao=Portugal
  2. Ferreira J. Direção de Informação e Planeamento Estratégico – Infarmed, I.P. (2018). Anti-histamínicos. Acedido em 21 de Fevereiro de 2020.
  3. Worm J., et al. The Journal of Headache and Pain (2019). Histamine and migraine revisited: mechanisms and possible drug target. Acedido em 21 de Fevereiro de 2020.
  4. Randall K., et al. (2018). Antihistamines and allergy. Acedido em 22 de Fevereiro de 2020.
  5. Simons F.,et al. WAO Journal. (2008). H1 Antihistamines Current Status and Future Directions. Acedido em 22 de Fevereiro de 2020.
  6. Criado P., et al. ResearchGate. (2010). Histamina, receptores de histamina e anti-histamínicos: novos conceitos. Acedido em 22 de Fevereiro de 2020.
Veja também