Nutricionista Rui Jorge
Nutricionista Rui Jorge
06 Ago, 2019 - 17:02

A alimentação na doença de Crohn: quais as evidências existentes?

Nutricionista Rui Jorge

Uma correta alimentação na doença de Crohn aumenta a qualidade de vida de quem sofre da doença, controlando ou atenuando os sintomas da mesma.

A alimentação na doença de Crohn: quais as evidências existentes?
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A dieta e a nutrição são preocupações quase sempre presentes em indivíduos com doença de Crohn. Com o objetivo de incentivar a adoção de um padrão alimentar que auxilie no controlo da doença, bem como aumentar a qualidade de vida de quem sofre de doença de Crohn, seguem algumas recomendações práticas sobre a alimentação na doença de Crohn, baseadas na evidência científica disponível.

Em que consiste a doença de Crohn?

alimentacao na doenca de Crohn intestinos

A doença de Crohn pertence à família das doenças inflamatórias intestinais, doenças crónicas que afetam o trato gastrointestinal, como é também exemplo a Colite Ulcerosa (1).

A doença de Crohn pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal mas, na maioria dos casos, afeta principalmente o íleo e o cólon, podendo levar a défices de ingestão oral (consumo insuficiente de alimentos através da boca), à malabsorção (défices de absorção dos nutrientes no trato gastrointestinal), ao hipercatabolismo (aumento do gasto energético devido ao metabolismo aumentado pela inflamação do trato gastrointestinal) e, consequentemente, à desnutrição (2).

Alimentação na doença de Crohn: importância de uma boa dieta

alimentacao na doenca de Crohn mulher com dores abdominais

Em primeiro lugar é necessário clarificar que a alimentação/dieta, não é a causa, nem será a cura da doença de Crohn. O que se sabe é que a alimentação de quem tem doença de Crohn afeta os sintomas da doença e tem um papel relevante nos mecanismos subjacentes aos processos inflamatórios característicos da doença de Crohn.

Uma boa dieta é fundamental na doença de Crohn por 3 principais ordens de razão:

1. Necessidades nutricionais do organismo aumentadas

Sendo a doença de Crohn uma doença inflamatória crónica, tende a aumentar as necessidades nutricionais do organismo, principalmente nas fases mais ativas da doença. Assim, a dieta de um indivíduo com doença de Crohn deverá ser ainda mais rica a nível nutricional do que a de um indivíduo saudável (3).

2. Existência de défices digestivos e na absorção de nutrientes

A doença de Crohn leva, usualmente, a défices digestivos e de absorção dos nutrientes, não só das vitaminas e minerais, mas também das proteínas, hidratos de carbono, gorduras e até de líquidos.

Um indivíduo com doença de Crohn pode ingerir uma dieta saudável com a mesma quantidade e qualidade de um indivíduo sem doença de Crohn mas, mesmo assim, não poderá não digerir e absorver todos os nutrientes de que necessita, simplesmente por possuir doença (4).

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3. Sintomas que promovem falta de apetite

Quem tem doença de Crohn, frequentemente tem sintomas como falta de apetite, náuseas, dores abdominais, diarreias, alterações de paladar e até “medo de comer”, por receio de que esses alimentos causem mais sintomas ou agravem os mesmos.

Todos estes fatores promovem a chamada falta de apetite, que contribui para uma diminuída ingestão de alimentos, que aumenta o risco de perda de peso e desnutrição (5).

Para além do referido anteriormente, fazer uma boa alimentação na doença de Crohn irá fazer com que o organismo reaja de forma mais eficiente aos medicamentos. Em crianças e adolescentes vai ainda evitar que existam défices no crescimento e desenvolvimento por causa da doença de Crohn. Em mulheres evitará um impacto grande nas alterações hormonais que podem, inclusivamente, levar à ausência de menstruação.

Como deverá ser a alimentação na doença de Crohn?

A dieta de um indivíduo com doença de Crohn dependerá de diversos fatores: se há ou não estenoses intestinais, que partes do intestino estão mais afetadas e se a doença está ativa ou inativa.

1. Fase inativa da doença de Crohn

alimentacao na doenca de crohn mulher a beber agua

Os princípios nutricionais de um indivíduo com doença de Crohn inativa têm como base os princípios gerais de alimentação saudável, com vista à garantia da manutenção de um bom estado nutricional:

  • Proteínas como carnes magras (mesmo se forem carnes vermelhas que sejam as partes mais magras), aves (ex: frango e peru), peixes, ovos ou soja;
  • Hidratos de Carbono com fibra solúvel (ex: aveia e cevada);
  • Frutas (mas preferencialmente sem pele e grainhas);
  • Legumes cozidos;
  • Suplementos vitamínicos e minerais se aconselhados pelos profissionais de saúde que o acompanham;
  • Ingerir cerca de 2l de líquidos por dia (preferencialmente água ou infusões), para prevenir a desidratação. Por exemplo, se houver diarreia (o que pode acontecer recorrentemente) a ingestão de líquidos deverá ser superior.

2. Fase ativa da doença de Crohn

alimentacao na doenca de crohn peixe aves e soja

Durante a fase ativa da doença, relembrando que não será a alimentação que vai “estagnar”/curar a fase ativa da doença de Crohn, deverão ser evitados (5):

  • Alimentos que por experiências anteriores já identificou que lhe trazem desconforto ou agravam os sintomas;
  • Alimentos com teores de fibra alimentar elevados (ex: leguminosas, cereais integrais, ameixas secas);
  • Oleaginosas e sementes (ex: nozes, chia, linhaça);
  • Alimentos ou bebidas com álcool, cafeína ou picantes;
  • Frutas e vegetais crus;
  • Produtos lácteos (dentro das doses que sabe que poderá não tolerar);
  • Comer grandes quantidades de alimentos de uma vez.

No sentido contrário, durante as fases ativas da doença de Crohn é aconselhado:

  • Fazer refeições pequenas mas frequentes;
  • Tomar suplementos vitamínicos e minerais se aconselhados pelos profissionais de saúde que o acompanham;
  • Consumir como principais fontes de proteína carnes magras como aves, peixe e soja;
  • Vegetais ou fruta bem cozidos e sem pele, se for o caso (e.g. batata bem cozida e sem pele);
  • Cereais refinados e simples (e.g. arroz branco);
  • Refeições simples e pouco condimentadas.

É também de salientar que se aconselha um estilo de vida ativo, com a prática de exercício físico, e uma exposição diária de, pelo menos, 15 a 20 minutos de sol diariamente para evitar défices de vitamina D, usualmente encontrados nesta população (6).

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Em conclusão…

Ressalta-se a importância da alimentação saudável na promoção da qualidade de vida do indivíduo com doença de Crohn, alertando para que cada indivíduo aprenda a conhecer a sua doença, que alimentos o fazem melhorar ou piorar os sintomas, e para que varie, dentro do possível, os alimentos e métodos de confeção que tem disponíveis.

O prazer da alimentação tem que continuar a estar presente no quotidiano alimentar de quem tem doença de Crohn, sob pena de tornar a alimentação numa prática repetitiva, sem sabor, penosa e que induz sofrimento e receio constante.

A informação presente neste artigo, não invalida a necessidade de um acompanhamento personalizado com o seu médico e nutricionista, sobre os princípios alimentares a seguir na sua situação específica.

Veja também:

Fontes

1. Yamamoto-Furusho, J.K. et al. (2016). Diagnóstico y tratamiento de la enfermedad inflamatoria intestinal: Primer Consenso Latinoamericano de la Pan American Crohn’s and Colitis Organisation. Disponível em:
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0375090616300829
2. Donnellan, C. et al. (2013): Nutritional management of Crohn’s disease. Therap Adv Gastroenterol. 6(3):231–42. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23634187
3. Diestel, C. et al. (2012). Tratamento Nutricional nas Doenças Inflamatórias Intestinais. Rev do Hosp Univ Pedro Ernesto, UERJ. 52–8. Disponível em:
https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revistahupe/article/view/9008
4. Mahan, L.K. et al. (2017). Krause´s Food & The Nutrition Care Process. 14a. Disponível em:
https://evolve.elsevier.com/cs/product/9780323340755?role=student
5. Mowat, C. et al. (2011). Guidelines for the management of inflammatory bowel disease in adults. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21464096
6. Nair, R. et al. (2012). Vitamin D: The “sunshine” vitamin. J Pharmacol Pharmacother. 3(2):118-26. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22629085