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Os laticínios causam asma? Não, e explicamos porquê

Há uma crença popular na medicina alternativa de que os laticínios causam asma. Porém, não há qualquer evidência científica desta relação.

 
Os laticínios causam asma? Não, e explicamos porquê
Analisamos a crença de que o leite causa asma

Há uma crença popular na medicina alternativa de que os laticínios causam asma. Esta crença antiga – que pode ser rastreada até ao século XII – baseia-se no pressuposto de que o consumo de leite e derivados aumenta a produção de muco nos tratos respiratórios superior e inferior e que, por esta razão, estes produtos devem ser retirados da dieta. De qualquer forma, não existe explicação precisa para esta recomendação (1).

Laticínos causam Asma? Desmontando os conceitos


Lacticínios e asma

Independentemente da opinião popularizada pelas medicinas alternativas, os laticínios não causam asma. A verdade é que, quando também associada a uma alergia à proteína do leite, o consumo de leite e derivados pode piorar os sintomas da doença. Mas, vamos por partes.

O que é a Asma?

A asma é uma doença crónica caracterizada pela inflamação e hipereatividade das vias aéreas que afeta cerca de 300 milhões de pessoas no mundo inteiro. Sendo uma doença tipicamente associada a respostas imunes exageradas, estas respostas são fortemente influenciadas pela exposição ambiental a determinados alergénios (3).

As dificuldades respiratórias causadas pela asma estão ligadas à inflamação e edema das vias aéreas, mas também produção exagerada de muco.

É uma doença que atinge tanto adultos como crianças, podendo ser potencialmente fatal. Os sintomas da asma incluem sibilos, falta de ar, tosse, sensação de aperto no peito e a presença de muco nos pulmões.

O tratamento da asma é médico, envolvendo a prescrição de broncodilatadores e esteroides de forma a aumentar o fluxo de ar nas vias e a diminuir o edema associado à reação imune exacerbada.

Muco

O muco é uma secreção que reveste a superfície na mucosa dos tratos respiratório e gastrointestinal, protegendo estas estruturas de uma série de agressões mecânicas, térmicas e químicas. É um produto das células epiteliais secretórias que consiste em água, mucinas e uma mistura de mucopolissacarídeos e glicoproteínas, lisozima, imunoglobulinas e leucócitos (2).

A medicina tradicional chinesa considera que o consumo de lácteos (exceto a manteiga) bem como chocolate, mel e outros adoçantes naturais aumentam o efeito humidificante em humanos, efeito esse que contribui para a espessura excessiva do muco.

Uma vez que está documentado um aumento da produção de muco em doentes asmáticos, não é de admirar que se proponha uma relação entre laticínios e asma e que as recomendações das medicinas alternativas vão para a evicção de alimentos designados formadores de muco (1).

lacticínio causam asma

Laticínios causam asma? Há ou não uma relação causal?

Como referimos, os laticínios não causam asma. Associada a uma alergia à proteína do leite, o consumo de leite e derivados pode piorar os sintomas da doença, mas apenas neste caso em particular.

A asma e a alergia alimentar apresentam uma relação muito próxima, partilhando os mesmos fatores de risco como a alergia alimentar dos pais, eczema atópico e sensibilização ao alergénio.

Neste sentido, um ataque de asma pode sim ser provocado por um alergénio alimentar, independentemente de ser a proteína do leite ou outro alimento (4,5). Apenas neste sentido é que parece haver relação entre latícinios e asma.

A prova disso é que cerca de 45% das crianças asmáticas são também alérgicas ao leite ou a outros alimentos (4). O risco de asma em crianças que apresentem qualquer alergia alimentar é 4 vezes superior ao das crianças não alérgicas (5).

No entanto, o contrário também se verifica. Se não houver alergia à proteína do leite de vaca associada, a ingestão de produtos lácteos não irá despoletar sintomas de asma. Um estudo em crianças demonstra, inclusive, que o consumo de lacticínios está inversamente associado à prevalência dos sintomas da asma (6). Outro estudo mostra que a ingestão de leite por mulheres grávidas diminui o risco de asma, alergias e complicações alérgicas como o eczema nos bebés (7).

Laticínios causam asma: alergia à proteína do leite


lacticínios e asma

Define-se alergia alimentar como uma reação adversa aos alimentos ou constituintes alimentares (proteínas ou haptenos) mediada por mecanismos imunológicos (IgE). As reações ocorrem habitualmente imediatamente ou até 2 horas após a exposição, podendo variar de gravidade.Os sintomas são causados pela resposta específica do indivíduo e não pelo alimento em si.

A percentagem de pessoas com alergias alimentares é muito baixa. Cerca de 5% das crianças apresentam alergia à proteína do leite de vaca (8). Destas, cerca de 80% deixa de ser alérgica durante a infância ou adolescência (9).

Os sintomas de qualquer alergia alimentar incluem reações respiratórias, gástricas e cutâneas, o que pode explicar em parte o frenesim associado à relação entre laticínios e asma. Reações como sibilos, tosse, falta de ar e edema das vias respiratórias são transversais às duas doenças mas, no caso da alergia, incluem também vómitos, diarreia, cãibras abdominais e urticária. Nos casos mais graves, a reação alérgica pode causar anafilaxia, uma condição potencialmente fatal.

Em caso de alergia alimentar, e embora possa haver um papel terapêutico na indução de tolerância oral específica (SOTI) na gestão dos sintomas, a verdade é que a evicção alimentar é a única forma de tratamento comprovada.

Ao contrário da maior parte das intolerâncias alimentares, que permite a ingestão de quantidades reduzidas do alimento agressor, as alergias/hipersensibilidades alimentares não.

Produtos como bebidas energéticas, enlatados, embutidos, pastilhas elásticas e mesmo alguns medicamentos podem causar ataques de asma. Consulte-se com o seu médico ou nutricionista antes de iniciar qualquer padrão de evicção alimentar de forma a não correr o risco de possíveis carências nutricionais.

Conclusão


A asma pode ser uma doença fatal. No entanto, nada aponta para que haja relação entre os laticínios e asma, a menos que haja uma alergia ao leite de vaca associada. Uma vez que a prevalência de alergias alimentares na idade adulta é muito baixa, dificilmente um asmático terá sintomas após a ingestão de produtos lácteos.

Na verdade, pessoas que excluem os lacticínios da sua dieta perdem também uma importante fonte de proteína de alto valor biológico e de cálcio, incorrendo em todos os riscos que essas carências acarretam.

Nas medicinas alternativas é muito comum ouvir-se a recomendação para a não ingestão de lácteos e, no caso da asma, essa crença está associada ao aumento da produção e viscosidade de muco nas vias respiratórias. No entanto, está demonstrado que o consumo de laticínios não altera significativamente a função pulmonar, podendo, inclusive, melhorar os sintomas da asma e, se for consumido na gravidez, pode prevenir o seu aparecimento nas crianças.

Em suma:

  • A sensação associada à produção de muco não é específica ao leite de vaca, dependendo muito mais das características físicas de algumas bebidas do que da origem delas;
  • Em casos raros, os sintomas de asma podem ser despoletados, mas apenas quando há confirmação de alergia à proteína do leite de vaca;
  • Limitar o consumo de laticínios sem que haja confirmação de alergia à proteína do leite de vaca pode conduzir ao aporte inadequado de vários nutrientes incluindo o cálcio;
  • Começam a ser frequentes os casos de carência nutricional em crianças associado à substituição do leite por bebidas vegetais, com destaque para o aumento da incidência de raquitismo, kwashiorkor e escorbuto, para além da diminuição da estatura média em crianças (10).

Aconselhe-se com o seu médico ou nutricionista antes de eliminar qualquer alimento da sua dieta – ou da dos seus filhos – acreditando na crença antiga de que há relação entre os laticínios e asma.

Veja também:

Fontes

1. Wüthrich, B., Schmid, A., Walther, B., & Sieber, R. (2005). Milk Consumption Does Not Lead to Mucus Production or Occurrence of Asthma. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16373954 
2. Silberberg A, Meyer FA. (1982). Structure and function of mucus. Disponível em: https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-1-4615-9254-9_6
3. Pivniouk, V., et.al. (2019). The role of innate immunity in asthma development and protection: lessons from the environment. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/31581343
4. Caffarelli, C., et.al. (2016). Asthma and Food Allergy in Children: Is There a Connection or Interaction? Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4821099/
5. Kewalramani, A., Bollinger, A.E. (2010). The impact of food allergy on asthma. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3047906/
6. Hallit, S., et.al. (2017). Correlation of types of food and asthma diagnosis in childhood: A case–control study.. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28925766 
7. Bunyavanich, S., et.al. (2014). Peanut, milk, and wheat intake during pregnancy is associated with reduced allergy and asthma in children. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24522094
8. Venter, C., et.al. (2013). Diagnosis and management of non-IgE-mediated cow’s milk allergy in infancy – a UK primary care practical guide. Disponível em: https://ctajournal.biomedcentral.com/articles/10.1186/2045-7022-3-23
9. Milk & Dairy Allergy (n.d.) (2019). Disponível em: https://acaai.org/allergies/types-allergies/food-allergy/types-food-allergy/milk-dairy-allergy
10. Bebidas vegetais – uma boa alternativa ao leite? (2019). Disponível em: https://pensarnutricao.pt/bebidas-vegetais-alternativa-leite/

Nutricionista Hugo Canelas Nutricionista Hugo Canelas

Hugo Canelas é nutricionista (CP 1389N), licenciado em Ciências da Nutrição pela Escola Superior de Biotecnologia e mestre em Nutrição Clínica pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. É professor assistente convidado da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Brangança desde 2018 e Nutritional Consultant do projeto de perda de peso “360em63”.

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