Psicóloga Carolina Pinheiro
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24 Fev, 2020 - 09:07

Obsessão ou compulsão: saiba reconhecer as diferenças

Psicóloga Carolina Pinheiro

Problemas do foro afetivo emocional podem levar a uma necessidade de organização e controlo exterior, que se pode manifestar através da obsessão ou compulsão.

Obsessão ou compulsão: homem a organizar objetos

Existem preocupações e rituais que todos os indivíduos têm e fazem no seu dia a dia. Contudo, quando estes são excessivos e persistem por um longo período de tempo, causando sofrimento no indivíduo, estamos perante uma Perturbação Obsessiva Compulsiva (POC). Reconheça quais as diferenças ente obsessão ou compulsão.

Obsessão ou compulsão: reconheça as diferenças

A obsessão

Como melhorar a sua capacidade de tomar decisões

São pensamentos, ideias, impulsos ou imagens recorrentes e persistentes.  Como invadem a consciência são vivenciados pelo indivíduo como intrusivos (impostos involuntariamente), indesejados e perturbadores, provocando ansiedade e sofrimento (1, 2).

Para o indivíduo a obsessão é estranha, desagradável e sentida como fora do seu controlo.

Alguns autores consideram que existem seis tipos de obsessões: ideias, imagens, convicções, ruminações, impulsos e medos (1, 2).

Ideias

As ideias de natureza obsessiva correspondem a pensamentos repetitivos, suscetíveis de interromper o normal curso do pensamento, podendo surgir sob a forma de palavras, frases ou rimas, de conteúdo absurdo, violento, etc.

Imagens

As imagens obsessivas consistem em representações imaginadas e repetitivas, frequentemente descritas como violentas e repulsivas.

Convicções

As convicções obsessivas são pensamentos muitas vezes de carácter mágico: “…se não fechar a porta três vezes, a minha mãe morre…”.

Ruminações

As ruminações obsessivas são intermináveis e consideradas pensamentos inconclusivos, pois relacionam-se com questões que não se obtém qualquer resposta.

Impulsos

Os impulsos obsessivos relacionam-se essencialmente com a preocupação de poder vir a cometer um ato nocivo, imoral ou agressivo (por exemplo, acontecer alguma coisa de mal a alguém próximo ou poder fazer mal caso não “obedeça aos seus pensamentos”).

Medos

Os medos obsessivos, normalmente relacionam-se com temas como a contaminação e a sujidade. Uma importante característica das obsessões é que o indivíduo tenta (na maioria das vezes sem sucesso) opor resistência a estes pensamentos.

Vejamos um exemplo: uma obsessão é estar constantemente a pensar “as minhas mãos estão sujas e com bactérias”; ou dúvidas repetidas (por exemplo, imaginar se foram executados certos atos, tais como ter deixado uma porta mal fechada ou ter desligado o fogão). A compulsão, como poderá ver a seguir, é a ação, ou seja, “ir lavar as mãos” ou “verificar várias vezes se a porta está fechada”. Enquanto o indivíduo não a realizar, não consegue deixar de ter o pensamento obsessivo.

A compulsão

Obsessão ou compulsão: mulher a lavar as mãos vigorosamente

Os atos ou rituais compulsivos podem apresentar-se como comportamentos repetitivos (ex.: lavagem das mãos) ou atos mentais, rituais e/ou superstições excessivas (ex.: rezar, contar ou repetir em silêncio).

Para os indivíduos que fazem estes rituais, estas ações têm como objetivo evitar ou reduzir a ansiedade ou mal-estar que acompanha a obsessão ou mesmo prevenir um acontecimento (1, 2).

Vejamos alguns exemplos de ações compulsivas:

  1. Limpezas excessivas: como lavar as mãos ou corpo constantemente; ou limpar a casa diariamente e/ou várias vezes ao dia.
  2. Organização muito metódica: ter tudo sempre muito arrumado e seccionado por uma ordem específica.
  3. Verificação (repetidas vezes): por exemplo se as portas de casa ou o gás ficaram fechados.
  4. Contagem: enumerar e contar objetos repetidamente, como por exemplo uma gaveta, duas gavetas, três gavetas.

As obsessões e compulsões consomem muito tempo (por ex., tomar banho mais do que 1 hora ou organizar todos os dias simetricamente as roupas; verificar se desligaram o ferro de engomar várias vezes; entre outros). Uma vez que os indivíduos se sentem impelidos a realizá-las de acordo com as suas regras rígidas, não raras vezes para além do sofrimento pessoal e social, o campo profissional é também afetado.

Obsessão ou compulsão: compreender melhor

O surgimento desta perturbação está relacionado com a história de vida de cada um. Por vezes, uma infância sentida como ameaçadora pode levar a criança ou jovem a sentir que precisa de ter sempre controlo sobre si próprio e sobre o que o rodeia.

Uma educação rígida, com pais exigentes também pode gerar muita ansiedade, na medida em que os filhos sentem que têm de corresponder às expectativas dos pais (3).

Não obstante, esta perturbação pode, mas não tem necessariamente de se manifestar logo desde infância, podendo surgir perante determinadas situações stressantes de vida dos indivíduos que despoleta a obsessão ou compulsão.

Os indivíduos, em maior ou menor grau de consciência, são capazes de reconhecer que a obsessão ou compulsão são irracionais e em algum momento podem desejar não tê-las ou deixar de realizar as tarefas que advém da compulsão. Porém, a ansiedade com que ficam leva-os a ceder à compulsão como forma de alívio no momento ou porque temem que se não fizerem algo de mal pode acontecer (3).

Ainda que os comportamentos possam ser muito diversos, a manifestação destes está relacionada com uma necessidade de “descarregar” a ansiedade, mesmo que esta não seja visível e a pessoa não se aperceba da mesma.

desorganização interna pela qual a pessoa esteja a passar é compensada por uma necessidade de organização e controlo exteriores (3), ou seja, como sentem que há determinados aspetos da sua vida que não conseguem controlar deslocam o sentimento para algo que “pensam controlar”.

Intervenção

A linha que separa preocupações aceitáveis que muitas pessoas apresentam na sua vida diária de sintomas clínicos para uma perturbação obsessiva compulsiva, depende em parte da variabilidade do grau e intensidade da sintomatologia, inclusive do nível de sofrimento e incapacidade causado nos indivíduos. Pelo que, é importante uma boa avaliação clínica. A intervenção passa por intervenção psicoterapêutica e/ou farmacológica (3, 4).

Psicofarmacológica

As medicações mais frequentemente utilizadas para o tratamento da perturbação obsessivo compulsiva são os inibidores da recaptação da serotonina (SSRIs), especialmente a clomipramina.

Os SSRIs como a fluoxetina, fluvoxamina, paroxetina e sertralina, e o citalopram, também demonstraram eficácia no tratamento destes indivíduos.

Psicoterapêutica

A psicoterapia, nomeadamente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), pretende promover maior consciencialização emocional, controlar a ansiedade e dotar o indivíduo de estratégias que lhe permitam lidar com as obsessões e/ou compulsões, entre outras.

Fontes

  1. Dulce Maia (2007). Psicopatologia das Perturbações Obsessivo-Compulsivas. Disponível em: https://www.psimedi.pt/pdf/psicopatologiaPOC.pdf
  2. American Psychiatric Association (2014). DSM-5: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5.ª ed.). Porto Alegre: Artmed.
  3. Psimed (2017). A Perturbação Obsessiva Compulsiva. Acedido a 19 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://www.psimedi.pt/psicoduvidas/material-didatico-e-psicoeducao/22-perturbacao-obsessivo-compulsiva.html
  4. Storch E. (2015). Cognitive Behavioral Therapy for Obsessive–Compulsive Disorder [ficheiro em vídeo]. Disponível em: https://www.apa.org/pubs/videos/4310936
Veja também