Farmacêutica Ana Matos
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27 Fev, 2020 - 08:15

Mononucleose infeciosa: o que saber sobre a doença do beijinho

Farmacêutica Ana Matos

A forma mais comum de transmissão é pela saliva, daí a mononucleose infeciosa ser conhecida por “doença do beijinho”.

Mononucleose infeciosa: casal a beijar-se

A mononucleose infeciosa é uma doença vírica causada pelo vírus Epstein-Barr.

Surge com mais frequência em adolescentes e jovens adultos. O tratamento passa pelo alívio dos sintomas e apesar de não ser uma doença grave pode levar à perda de dias de trabalho e de escola devido ao cansaço extremo que provoca.

Mononucleose infeciosa: a “doença do beijinho”

Mitos sobre o coronavírus: os mais comuns

A mononucleose infeciosa é uma doença contagiosa, transmitida pelo vírus Epstein-Barr (EBV) (1, 2), um tipo de herpesvírus chamado precisamente de herpesvírus 4.2.

Pertencente à família Herpesviridiae, é um dos vírus mais difundidos no mundo e estima-se que 90% da população dos países desenvolvidos se torne portadora antes de atingir a idade dos 20 anos.

Uma vez contraída a infecção, o vírus permanece latente no corpo durante toda a vida. Devido a alterações ambientais, fragilidade do sistema imunitário e stress este pode ser reativado em qualquer momento (3).

Os infetados podem eliminar periodicamente o vírus pela saliva sendo que nessa altura é mais provável haver contágio de outras pessoas mesmo que o portador não apresente sintomas (2, 4).

A incidência da infeção sintomática vai aumentando nos adolescentes e adultos jovens com pico de infeção dos 15 aos 24 anos. Um em cada quatro adolescentes infetados com o vírus EBV desenvolve a doença. Nos adultos é pouco frequente (4).

O termo mononucleose infeciosa deve-se à presença de muitos glóbulos brancos (células mononucleares) na corrente sanguínea (2).

Como se transmite a mononucleose infeciosa?

Este vírus transmite-se de pessoa-a-pessoa maioritariamente por fluídos corporais como a saliva (1, 4, 5).

É por esta razão que a doença é conhecida como a “doença do beijo” pelo facto do beijo ser uma forma comum de contágio (4).

A transmissão deste vírus também pode ocorrer por secreções respiratórias (através do espirro ou tosse), pela partilha de talheres, escova de dentes ou de copos que estiveram em contato com uma pessoa infetada (4, 5).

O contato sexual, transfusões sanguíneas e transplante de órgãos também fazem parte do modo de transmissão do EBV (1, 5).

Como se manifesta?

Como tratar uma gripe de forma eficaz?

O tempo de incubação da doença é geralmente entre 30 a 50 dias. Os sintomas não se desenvolvem ao mesmo tempo.

Os sintomas incluem (1, 2, 4, 5):

  • Fadiga extrema
  • Febre
  • Inflamação da garganta
  • Aumento dos gânglios do pescoço
  • Aumento do baço e fígado
  • Erupção cutânea

Geralmente, a infeção começa com uma indisposição geral e fadiga que costuma ser mais grave nas primeiras duas a três semanas. Estes sintomas indefinidos são seguidos por febre, dor de garganta e/ou aumento dos gânglios.

Em algumas pessoas o aumento dos gânglios é o único sintoma. O baço aumenta de tamanho em cerca de 50% das pessoas com mononucleose infeciosa. Por norma, este aumento traz poucos sintomas trazendo apenas risco de vida caso este entre em rutura e se encontre lesionado. O fígado também pode aumentar um pouco de tamanho (2).

As erupções cutâneas desenvolvem-se com pouca frequência. Normalmente, as pessoas com infeção pelo vírus EVB e tratadas com ampicilina podem ficar mais propensas a desenvolver uma erupção cutânea (2, 4).

Após cerca de duas semanas, os sintomas diminuem e a maioria das pessoas pode retomar a sua vida diária. No entanto, o cansaço pode persistir durante várias semanas e até meses (1, 2).

Mononucleose infeciosa: o diagnóstico

O diagnóstico da mononucleose infeciosa é feito com base numa apresentação típica dos sintomas. Para aqueles casos de apresentação de sintomas atípica e perante dúvidas de diagnóstico existem exames complementares.

Nestes casos, um exame sanguíneo pode ser feito para confirmar o diagnóstico. Neste tipo de exame é possível verificar:

  • Grande quantidade de glóbulos brancos
  • Glóbulos brancos com aparência anormal
  • Quantidade reduzida de plaquetas ou neutrófilos
  • Função hepática anormal.

Como se trata?

medicamentos para a gripe: os mais aconselhados

O tratamento passa pelo alívio dos sintomas. Assim sendo é importante (1, 4):

  • Descanso: não é necessário repouso absoluto, mas o cansaço pode ser incapacitante
  • Analgesia e antipiréticos: para alívio das dores e desconforto provocado pela febre
  • Hidratação: a falta de apetite é normal mas é importante manter-se hidratado.

Como deve ser a alimentação?

É necessário adotar uma alimentação adequada de forma a fortalecer o sistema imunitário e ajudar na recuperação. Assim recomenda-se que (6):

  • Adote uma dieta variada, equilibrada e rica: aposte em alimentos que reforçam o sistema imunitário como, por exemplo espinafres, brócolos, gengibre, alho, laranjas e kiwis
  • Faça refeições leves e com alimentos mais moles: alimentos como sopas (canjas), leite, iogurtes e gelados são mais fáceis de engolir, sendo úteis em situações de dor de garganta
  • Prefira gorduras saudáveis: evite comer alimentos com muita gordura e prefira alimentos ricos em ómega 3 (como, por exemplo o salmão e as nozes), que contribuem para combater a inflamação
  • Ingira bebidas frescas: de forma a evitar a desidratação, beba bastantes líquidos – preferencialmente água (sensivelmente 8 a 10 copos de água diariamente); pode também recorrer a batidos, chás e sumos de frutas

Não existe nenhuma vacina para tratar a mononucleose infeciosa. Tratando-se de uma doença vírica, os antibióticos não apresentam qualquer benefício. Também não existem antivíricos conhecidos eficazes para tratar ou curar a infeção por EBV (1, 4).

Nos casos de aumento do tamanho do baço é aconselhado evitar desportos de contato pelo risco de rutura do baço.

Mononucleose infeciosa: como se previne?

A prevenção passa por evitar o contato com pessoas doentes, nomeadamente nos beijos, na partilha de bebidas, alimentos ou objectos pessoais como a escova de dentes (1, 4).

Existe alguma relação do EVB com cancro e doenças auto-imunes?

Parece haver uma relação clara entre o EVB e doenças auto-imunes, doenças crónicas e cancro. Pessoas infetadas têm uma maior predisposição para doenças oncológicas e doenças auto-imunes.

Na parte oncológica temos o linfoma de Burkitt, cancro gástrico, esofágico, cancro na próstata e na tiróide. Nas doenças auto-imunes temos a esclerose múltipla, artrite reumatóide e lúpus (3).

O EVB modifica a resposta imune do hospedeiro. A prevalência mundial de doenças auto-imunes mostra que este patogéneo é muito comum nestas situações (3).

Fontes

  1. Centers for Disease Control and Prevention. About Infectious Mononucleosis. Acedido em 18 de Fevereiro 2020. Disponível em: https://www.cdc.gov/epstein-barr/about-mono.html
  2. Manual MSD. Kaye K. (2018). Mononucleose infeciosa. Acedido em 18 de Fevereiro de 2020. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/infec%C3%A7%C3%B5es/infec%C3%A7%C3%B5es-por-herpesv%C3%ADrus/mononucleose-infecciosa
  3. Atlas da Saúde. Vasconcelos A. (2019). Acedido em 19 de Fevereiro de 2020. Disponível em: https://www.atlasdasaude.pt/publico/content/o-virus-epstein-barr-pode-ser-responsavel-por-inumeras-doencas
  4. Areal MC, et al. (2019). Mononucleose infeciosa – “doença do beijo”. Acedido em 19 de Fevereiro de 2020. Disponível em: http://metis.med.up.pt/index.php/Mononucleose_infeciosa_%E2%80%93_%E2%80%9Cdoen%C3%A7a_do_beijo%E2%80%9D
  5. Auwaerter PG. (2020). Patient education: Infectious mononucleosis (mono) in adults and adolescents (Beyond the Basics). Acedido em 19 de Fevereiro de 2020. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/infectious-mononucleosis-mono-in-adults-and-adolescents-beyond-the-basics/print?search=mononucleose%20infecciosa&source=search_result&selectedTitle=4~150&usage_type=default&display_rank=4
  6. Farmácias Portuguesas. Conhece a Doença do Beijinho?. Acedido em 20 de Fevereiro de 2020. Disponível em: https://www.farmaciasportuguesas.pt/menu-principal/familia/conhece-a-doenca-do-beijinho.html
Veja também