Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
23 Jan, 2020 - 10:29

Intolerância à lactose em bebés

Nutricionista Hugo Canelas

A intolerância à lactose em bebés com menos de 1 ano de idade é bastante rara – mas existe.

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O leite de vaca pode causar algum desconforto, tanto em adultos como em crianças. Habitualmente, o culpado dos sintomas característicos é um açúcar chamado lactose que, no caso de intolerância, não é corretamente digerido.

Como resultado, ingerir leite e produtos lácteos como queijo e iogurte vai levar à fermentação da lactose no intestino, o que se manifesta numa diversidade de sintomas que vão desde as câimbras abdominais até á diarreia (1).

Nos humanos, a enzima lactase é a responsável pela quebra da lactose em glicose e galactose, para posterior digestão. Esta enzima é particularmente importante nas crianças, uma vez que nos primeiros meses de vida a alimentação é exclusivamente baseada no leite materno ou de fórmula.

No entanto, à medida que crescemos, deixamos gradualmente de produzir lactose. Na verdade, estima-se que a prevalência mundial da intolerância á lactose ronde os 75% (2).

Com o declínio na produção de lactase só tem início após o desmame, a intolerância à lactose em bebés com menos de 1 ano de idade é bastante rara – mas existe.

Neste artigo desmistificamos a intolerância à lactose em bebés bem e a forma como esta condição pode afetar a alimentação das crianças, seja através do leite materno ou do leite de fórmula.

Causas da intolerância à lactose em bebés

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Deficiência congénita de lactase ou Alactasia

Alguns bebés apresentam intolerância à lactose devido a uma carência da enzima lactase desde a nascença. Esta doença é conhecida como deficiência congénita de lactase e os sintomas manifestam-se logo após o nascimento (1).

Desconhece-se a prevalência mundial desta doença mas, curiosamente, parece ser mais comum na Finlândia, atingindo cerca de 1 em cada 60.000 recém-nascidos (2).

A causa desta deficiência é uma mutação no gene LCT, que codifica para a produção de lactase. Sendo uma doença hereditária, só se manifesta se ambos os pais forem portadores da mesma mutação (1).

Deficiência secundária de lactase ou hipolactasia secundária

Alguns bebés prematuros, especialmente aqueles que nascem antes da 34ª semana de gestação, podem apresentar este tipo de deficiência devido à imaturidade do intestino, sendo essencialmente uma intolerância temporária.

Noutros casos, esta mesma intolerância pode desenvolver-se devido a infeções virais, como gastroenterites, que afetam a mucosa intestinal e a expressão de lactase (1).

Quais são os sintomas da intolerância à lactose em bebés?

intolerância à lactose em bebés: principais sintomas

Obviamente que, se o bebé apresenta dificuldade em digerir o leite, isso não se traduz automaticamente numa intolerância á lactose. Os sintomas podem estar a ser causados por outra razão. No entanto, de forma geral, os sintomas da intolerância à lactose em bebés incluem diarreia, dores e inchaço abdominal e flatulência excessiva.

Uma vez que os bebés não têm capacidade para se exprimir, é bastante difícil saber quando é que as dores abdominais os estão a perturbar. Interpretar sinais pode ser importante na tentativa de decifrar o porquê do desconforto e alguns sinais de dores abdominais em bebés podem incluir manifestações como:

  • Cerrar de punhos
  • Arquear de costas;
  • Pontapear ou levantar as pernas
  • Choro aquando dos períodos de flatulência

Para além destas, a distensão abdominal, caracterizada por um enrijecimento da barriga também podem ser interpretados como sinais de dores abdominais.

Outro sinal de intolerância à glicose é o início dos sintomas 30 minutos a 2 horas após o consumo de leite materno, leite de fórmula ou alimentos que contenham leite ou produtos lácteos (2).

E se for alergia ao leite de vaca?

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Os sintomas gastrointestinais da alergia ao leite de vaca são transversais aos da intolerância à lactose. Este tipo de reações ocorre quando o sistema imune reage de forma violenta às proteínas presentes no leite ou produtos lácteos (1, 3). Para além das manifestações gastrointestinais como dores abdominais e diarreia, outros sintomas da alergia ao leite de vaca incluem:

  • Sibilos
  • Tosse
  • Edema
  • Prurido
  • Lacrimejar dos olhos
  • Vómitos

Se suspeitar de uma alergia alimentar, mesmo que ligeira, consulte um médico.

Uma alergia ao leite de vaca pode ser potencialmente letal, incluindo sintomas como descida da pressão arterial, dificuldades respiratórias e choque anafiático.

De acordo com a Food Allergy Research and Education (FARE) as alergias ao leite de vaca afetam 2.5% das crianças com menos de 3 anos de idade (3).

Como é diagnosticada a intolerância à lactose em bebés?

Em primeiro lugar, se desconfia de uma intolerância à lactose no seu bebé, não a diagnostique por si. Consulte um pediatra uma vez que, visto ser uma condição muito rara, os sintomas desenvolvidos podem ser devidos a uma alergia ao leite.

No caso de alergia, a pele do bebé é exposta a uma quantidade pequena de proteínas do leite de vaca, sendo monitorizada a reação alérgica decorrente.

Se o bebé não for alérgico ao leite, o pediatra irá recolher uma amostra de fezes de forma a analisar a acidez. Fezes mais alcalinas – ou menos ácidas – são sinal de mal absorção de lactose. De forma semelhante, vestígios de glicose na amostra são indicadores de má-digestão da lactose (1, 2).

Como é que a intolerância à lactose em bebés afeta a alimentação?

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Caso se confirme a intolerância à lactose, deve suspender imediatamente a amamentação. A capacidade para continuar a alimentar o seu bebé com leite materno – ou de fórmula – irá depender do tipo de deficiência de lactase.

Se o seu bebé desenvolve a intolerância após uma gastroenterite virica, recomenda-se que continue a amamentar uma vez que o leite materno reforça o sistema imune e promove melhorias da saúde intestinal.

No caso de ser uma deficiência secundária associada à prematuridade, a duração dos sintomas pode ir de semanas a meses. Sendo assim, devido ao caracter transitório da condição, o bebé vai poder ser alimentado com leite materno ou de formula, embora seja necessária uma fórmula sem lactose até o problema se resolver.

No entanto, no caso de deficiência congénita, a alimentação com leite materno está completamente contra-indicada. A lactose presente no leite materno vai causar diarreias severas que podem conduzir a perda de peso por desnutrição e desidratação, comprometendo o estado de saúde do seu bebé. Nestes casos, o bebé deverá ser alimentado com uma fórmula sem lactose (1, 2).

É possível reverter uma intolerância à lactose em bebés?

Como dito anteriormente, depende muito do tipo de deficiência de lactase. No caso de estar associada a doença intestinal ou à prematuridade, eventualmente, o bebé pode voltar a ser alimentado com leite materno.

No caso de deficiência congénita convém saber que as fórmulas sem lactose contêm todos os nutrientes presentes nas outras fórmulas, como cálcio, vitamina A e vitamina D.

A deficiência congénita, sendo uma condição permanente, exige uma dieta isenta de lactose para a vida toda.

Que alimentos evitar nestes casos?

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É importante saber ler os rótulos e interpretar quaisquer ingredientes que possam traduzir-se indiretamente em alimentos que contêm lactose. Expressões como proteínas do soro, sólido lácteo, fermentos lácteos, leite em pó desidratado e coalho são excelentes exemplos do que foi referido acima.

Adicionalmente, alguns alimentos muito populares para bebés podem ser fontes de lactose, incluindo:

  • Iogurtes
  • Papas lácteas
  • Leites de fórmula
  • Purés de batata instantâneos
  • Biscoitos
  • Pudins
  • Gelados e sorvetes
  • Queijo

Conclusão

A incapacidade para digerir o açúcar do leite pode causar muito desconforto nos bebés, mas sintomas como diarreia, dores abdominais e flatulência não querem dizer que haja intolerância à lactose.

De facto, esta condição é bastante rara e frequentemente temporária pelo que há uma forte probabilidade de o seu bebé ser alérgico e não intolerante à lactose.

Caso desconfie da dificuldade para digerir o leite, aconselhe-se com um pediatra de forma a diagnosticar de forma segura qualquer condição que o seu bebé possa apresentar.

Fontes

  1. Mahan, L.K., Raymond, J.L. (2017). Krause’s Food and Nutrition Care Process. 14th Edition. St Louis, Missouri.
  2. NIH. (2010). Lactose intolerance. Disponível em: https://ghr.nlm.nih.gov/condition/lactose-intolerance
  3. FARE. (n.d.) Does your baby have a milk allergy? Disponível em: https://www.foodallergy.org/common-allergens/milk/does-your-baby-have-a-milk-allergy
Veja também