Mónica Carvalho
Mónica Carvalho
05 Mar, 2020 - 15:26

Depois do enfarte ou AVC: será que doentes mudam comportamentos de risco?

Mónica Carvalho

Estudo da FMUP e do CINTESIS mostra que grande parte dos doentes cardiovasculares falha na prevenção e no controlo depois de sofrerem um enfarte ou AVC.

médica a auscultar coração

Após um enfarte ou AVC impõem-se algumas mudanças no estilo de vida e comportamentos de modo a reduzir o risco de reincidências. Porém, na realidade, não é isso que acontece. Pelo menos de acordo com um estudo da FMUP e do CINTESIS, que revela que muitos dos doentes com problemas cardiovasculares seguidos nos cuidados de saúde primários não corrigem o estilo de vida e falham no controlo dos fatores de risco principais.

Para chegar a esta conclusão, foram analisados cerca de mil doentes de seis países diferentes, Portugal, Croácia, França, Eslovénia, Espanha e Turquia, tendo-se percebido que uma percentagem significativa de doentes não muda os seus comportamentos depois de sofrer um enfarte do miocárdio e/ou um acidente vascular cerebral (AVC). Assim, metade dos doentes não aumenta a sua atividade física e metade das mulheres e um terço dos homens continuam a fumar.

O estudo a cargo de Carlos Martins revela ainda que parte dos doentes não consegue alcançar os valores alvo de colesterol e de tensão arterial aconselhados pelas guidelines europeias: apenas 23% dos doentes conseguem atingir o valor alvo desejado de colesterol LDL, que corresponde a menos de 70 mg/dL. No que à tensão arterial diz respeito, um quarto dos doentes não consegue atingir valores abaixo dos 140/90 mmHg.

Doentes continuam em risco

estetoscópio e coração

“Estes números são relevantes para os médicos de família porque estes doentes têm um risco elevado de novos eventos cardiovasculares, nomeadamente de enfarte, AVC e mesmo morte”, explicam os autores do estudo.

Os números podem ser ainda mais graves dado que o estudo apenas analisou doentes que permanecem em consulta. De fora estão aqueles que não vão às consultas e que podem estar ainda menos motivados para modificar os hábitos de vida, nomeadamente a alimentação pouco saudável e o tabagismo e seguirem os tratamentos recomendados.

A falta de atividade física e o tabagismo são o motivo para mais de 70% das doenças crónicas, um valor que, de acordo com o EUROSTAT – Gabinete de Estatísticas da União Europeia pode aumentar para 80% já em 2020.