Dr. João Júlio Cerqueira
Dr. João Júlio Cerqueira
13 Nov, 2020 - 17:51

Attenborough faz um favor aos ambientalistas simplórios

Dr. João Júlio Cerqueira

A crítica do médico João Júlio Cerqueira ao documentário recentemente lançado na Netflix: “David Attenborough: Uma Vida no Nosso Planeta”.

Documentário de David Attenborough

Nota: os documentários não são peças informativas ou científicas. São narrativas com uma mensagem que pode ou não ser factual. Dos documentários que vi, a maioria tende a adaptar a realidade à narrativa e não ao contrário. Tendem a escolher a “ciência” que convém, apresentando os pontos a preto e branco e esquecendo os cinzentos.

Infelizmente este documentário não é muito diferente. Apesar de apoiar globalmente a mensagem que se pretendeu transmitir – sensibilizar a população relativamente às alterações climáticas e à necessidade de mudarmos o rumo – há vários pontos cinzentos esquecidos. Há a simplificação de problemas complexos. Foram deixadas de fora algumas das soluções mais relevantes para combater as alterações climáticas, como os transgénicos e a energia nuclear. Não sou eu que o digo, é o IPCC que o diz relativamente à importância dessas tecnologias.

O novo documentário de David Attenborough parece ter sido realizado em resposta às críticas que tem vindo a sofrer por parte dos ambientalistas, de ter “traído” o mundo natural que tanto ama, relativizando as alterações climáticas e a perda de biodiversidade. No entanto, infelizmente, o documentário “David Attenborough: Uma Vida no Nosso Planeta” é mesmo isso…um favor aos ambientalistas simplórios e não ao ambiente…

O documentário começa em Chernobyl, considerada por Attenborough uma “catástrofe ambiental”, a “mais cara do nosso tempo”.

Esta introdução demoniza a energia nuclear de forma indireta, quando sabemos que a energia nuclear é a energia mais limpa e segura a que temos acesso. Estranhamente, se Chernobyl não tivesse acontecido, não estaríamos a falar de alterações climáticas já que a aposta na energia nuclear não teria tido tantos obstáculos e o problema do dióxido de carbono possivelmente seria uma miragem. Existe um artigo bastante interessante do “The Economist” exatamente sobre isso…um mundo “nuclear”, sem alterações climáticas.

Além disso, Chernobyl foi mesmo um evento único e discutir este evento único e extrapolar para a segurança da energia nuclear seria o mesmo que discutir a segurança dos carros de hoje em dia e falar sobre os primeiros carros que foram construídos no passado. Ou aviões…

Sem considerar que, como em tudo, não há pretos e brancos. Chernobyl permitiu uma “explosão” de biodiversidade na zona geográfica atingida…um santuário para animais selvagens. Num documentário que pretende bater-se pela perda de biodiversidade, esse ponto de vista devia ter sido explorado.

Documentário: “David Attenborough: Uma Vida no Nosso Planeta”

Extinções

Fóssil de dinossauro

Attenborough refere a existência de cinco eventos de extinção massiva no passado (e que eventualmente estaremos a passar por uma sexta extinção, apesar de isso ser altamente controverso) sendo que a última está relacionada com o desaparecimento dos dinossauros. Obviamente que qualquer evento deste género é catastrófico. Mas é da catástrofe que surgem novas oportunidades. Sem a extinção dos dinossauros possivelmente nós, seres humanos, não existiríamos devido à incapacidade dos nossos antepassados se imporem aos dinossauros. Os nossos antepassados saíram da escuridão e evoluíram três vezes mais depressa depois desse evento catastrófico.

Longe de mim desejar um novo evento do género. Mas é para exemplificar, mais uma vez, que o mundo é feito de cinzentos e mesmo eventos catastróficos podem ter um “silver lining”. Aconselho a leitura do livro “Breve história de quase tudo”, de Bill Bryson, para perceber estes cinzentos.

Holoceno

Marcas de eras geológicas

Attenborough refere que o Holoceno, que se iniciou há cerca de 10-11 mil anos atrás, é uma das fases mais estáveis que o nosso planeta viveu até à data.

Na realidade, as variações de temperatura no planeta costumam acontecer ao longo de milhões de anos. Não me parece que essa referência tenha qualquer tipo de validade, muito menos a justificação apresentada por Attenborough, que é o ecossistema terrestre e marítimo que tem garantido essa estabilidade, já que esse ecossistema não tem 10 mil anos mas sim milhões de anos.

Que alterações nos últimos 10 mil anos ou mesmo 100 mil anos, justificariam a atribuição da importância do ecossistema à estabilidade do clima do planeta? Desconheço?

Attenborough também “vende” a ideia que o clima se comportava como um relógio suíço, com as alterações de estação e as monções a acontecerem “na hora certa”. Na realidade, variações importantes ocorreram nestes últimos 10.000 anos, com o que parece ser um “enfraquecimento” das monções ao longo do tempo.

Possivelmente foi graças a esta variabilidade climática que levou ao desenvolvimento tecnológico de nossos sistemas de irrigação e conservação de água na agricultura.

Diga-se que não quero, com isto, negar os as alterações climáticas de origem antropogénica. Elas são reais e é crítico alterar o rumo dos acontecimentos investindo numa economia “carbono zero” ou “carbono negativo”. Não podemos é usar falsos argumentos para vender essa ideia, mesmo que seja a bem da simplificação da mensagem para o grande público.

Biomassa

Chita

Attenborough chama a atenção para a cada vez menor representatividade dos mamíferos selvagens na biomassa do planeta Terra, em detrimento dos seres humanos e animais domesticados.

É verdade que os seres humanos e outros mamíferos são cada vez mais representativos da biomassa dos mamíferos existentes no nosso planeta. No entanto, é preciso dizer que os mamíferos no nosso planeta são uma pequena amostra da biomassa existente. Nós contabilizamos neste momento 0.01% da biomassa no planeta Terra e os animais domesticados cerca de 4%.

Além disso, em termos evolutivos apenas indica que somos uma espécie bem-sucedida e mesmo o modelo utilizado pelos animais selvagens domesticados também poderá ser considerado um modelo de sucesso se considerarmos apenas a reprodução das espécies e transmissão de genes para a geração seguinte. Eu sei que é uma forma “fria” de analisar as coisas, não desejo de todo que o Ser Humano leve à extinção dos restantes mamíferos (apesar de isso estar a acontecer há centenas de milhares de anos), queria apenas deixar um ponto de vista diferente.

Queda das Morsas

Morsa

Attenborough mostrou imagens chocantes de morsas a cair de penhascos, atribuindo esse acontecimento às alterações climáticas. Na realidade, esses acontecimentos já estão a ser registados há mais de 100 anos, não tendo a ver com a perda de habitat das morsas. Attenborough pediu tacitamente desculpa pela manipulação emocional realizada no documentário, sendo uma das partes mais chocantes do mesmo.

Aumento da população

Multidão a passear na rua

Attenborough coloca a pressão das alterações climáticas no aumento da população mundial. Foi um argumento atacado pelos ambientalistas (1, 2). No entanto, não há grandes erros na mensagem que passou a não ser nas projeções utilizadas no documentário – 11 mil milhões de pessoas em 2100, segundo as Nações Unidas – não referindo que têm vindo a ser sucessivamente corrigidas em baixa, mesmo por este instituto. Há estimativas referindo que nunca iremos ultrapassar os 9 mil milhões de pessoas. Esse problema está a ser resolvido.

Resolver alterações climáticas com energias renováveis

Painéis solares e parque eólico

Para Attenborough o problema das alterações climáticas passa pelo recurso a energias renováveis, vendendo a ideia que tal energia é “infinita”. O problema é que se esquece que são necessários recursos (muitos recursos) para produzir painéis solares e ventoinhas. Que estes métodos de produção, assim como as barragens, têm impactos ambientais relevantes. Deixa de fora o principal motor de descarbonização que seria a energia nuclear.

A energia mais segura, com menor produção de CO2, com potencial de descarbonização da economia demonstrado em França, Canadá e Suécia, com menor pegada na utilização de recursos, com a menor necessidade de utilização de espaço para a quantidade de energia produzida e com a maior fiabilidade de produção energética já que não é uma energia intermitente. No fundo, o documentário continua a bater nas mesmas teclas dos ambientalistas simplórios.

A ideia que a energia renovável é infinita começa a ser desmentida pela realidade, à medida que as centrais eólicas começam a competir umas com as outras em zonas de proximidade geográfica com redução da eficiência de produção energética. O tempo também leva à diminuição da produção energética das eólicas e dos painéis solares, o que leva à necessidade de substituição destes produtos, com sistemas de reciclagem que ainda não existem.

Não há nenhum país que tenha demonstrado ser autossuficiente com recurso exclusivamente a solar e eólica. Os que existem têm como base um grande suporte da energia hídrica que, com as alterações climáticas, poderá ser cada vez mais inconstante menos fiável devido a secas prolongadas. É pena que os ambientalistas não aprendam e continuem a insistir no erro.

A questão da carne

Mulher a comer bife suculento

Já tinha falado sobre a necessidade de reduzirmos o consumo de carne. No entanto, não é preciso abolir completamente a carne. Aliás, um estudo recente publicado na Science refere que diminuir consumo de carne, aumentar a eficiência dos sistemas agrícolas, aderir à biotecnologia e diminuir o desperdício, mesmo que cumprindo estes pressupostos em apenas em 50% é suficiente, juntamente com a redução do consumo de combustíveis fósseis, para controlar a evolução do aquecimento global em 0.5 a 1.3º C. Há várias soluções para o problema e acredito que a ciência e tecnologia nos irá dar a resposta. Algo que o documentário aborda de forma tangencial como a agricultura hidropónica e vertical.

Plantar árvores

Mulher a plantar árvore

Plantar árvores é dada como solução para sequestração de carbono. No entanto, apesar de poder ajudar tal solução é ineficiente. A maioria do dióxido de carbono é, na realidade, absorvido pelos oceanos. Apesar de plantar árvores poder ajudar, há prós e contras em apostar nesta solução, com o risco de nos desviar do real “tratamento” para o problema…a redução da emissão de CO2.

Conclusão

O documentário não me aqueceu nem arrefeceu. A maioria dos factos apontados já são amplamente conhecidos e divulgados. A narrativa ambientalista clássica também não trouxe nenhuma novidade relevante, apesar de ter tocado tangencialmente em novas tecnologias para combater as alterações climáticas.

Como referido, deixou de fora o nuclear demonizando indiretamente esta tecnologia e nem um palavra sobre os transgénicos. Não se falou da eletrificação dos transportes. Não se falou de Geoengenheria nem que fosse para apontar os prós e contras destas tecnologias. Não se referiu ao IPCC uma única vez, sendo a fonte de informação mais relevante sobre o tema.

Posso dizer que o documentário é melhor que qualquer documentário vegan sobre o tema. É melhor que o documentário do Leonardo Dicaprio, mas pouco mais que isso. Pareceu-me, mesmo, ser apenas um “mea culpa” tardio, após pressão crescente dos ambientalistas para ser mais vocal sobre a temática.

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