Psicóloga Carolina Pinheiro
Psicóloga Carolina Pinheiro
13 Mar, 2020 - 15:30

Dispareunia: o que fazer quando o sexo é doloroso

Psicóloga Carolina Pinheiro

Se sofre de dispareunia e sente dor intensa na relação sexual ou logo após o ato, saiba o que pode fazer.

Casal a enfrentar uma situação de dispareunia

As disfunções sexuais acontecem quando háuma perturbação na capacidade de responder sexualmente ou de experimentar prazer sexual(1). No caso da dispareunia, as pessoas sentem dor durante ou após a relação sexual, sendo que esta perturbação pode afetar tanto homens quanto mulheres (sendo nestas últimas mais comum).

A DISPAREUNIA NA MULHER

A dor não é o único fator que caracteriza a dispareunia. Quando esta acontece pode ter outras implicações, como inibir a preparação vaginal, diminuir a lubrificação e levar a uma diminuição secundária do desejo e anorgasmia, ou seja, na dificuldade em atingir o orgasmo (2).

Mulheres com dispareunia podem também sentir dor na vagina e zonas próximas como clitóris ou lábios. 

A DISPAREUNIA NO HOMEM

A dispareunia masculina é definida como dor intensa no pénis – clinicamente referida como genital ou pélvica. Para ser considerada dispareunia, essa dor deve ser recorrente ou persistente e terá de estar presente por três meses ou mais. 

Ainda que com menos frequência, a dor também pode ocorrer em outras zonas próximas ao pénis (prepúcio, testículos, uretra e próstata), durante ou depois da relação sexual.

A dor pode ser associada àquela que ocorre na ejaculação ou na ereção (durante a fase de excitação) ou até mesmo no ato da penetração durante a relação sexual. Em alguns casos, se a dor for intensa, pode levar à anorgasmia (3).

COMO RECONHECER A DISPAREUNIA?

Dispareunia: casal com problemas do for íntimo

A dispareunia pode apresentar-se sob diferentes formas. Conheça-as para melhor perceber o que pode estar a acontecer consigo (2): 

  1. Primária: há presença de dor desde a primeira relação sexual.
  2. Secundária: previamente às queixas de dor, o indivíduo não apresentava dores. 
  3. Persistente: a dor ocorre em todas as relações.
  4. Condicional: a dor ocorre em algumas posições sexuais ou em algum tipo de estimulações, podendo esta estar relacionada a um parceiro específico. 
  5. Superficial: sendo que nesta, a dor concentra-se na vagina. 
  6. De profundidade: a dor é sentida no útero.

É importante que estes sintomas sejam avaliados por um médico especialista, pois os sintomas desta perturbação podem ser comuns em pessoas com algumas condições médicas como vulvodínia, vaginismo, vestibulodínia, cirurgias prévias ou alterações nos níveis de estrogénio, entre outras.

QUAIS AS POSSÍVEIS CAUSAS DA DISPAREUNIA?

Existem inúmeras causas de dispareunia, incluindo fatores orgânicos e psicossociais (4, 5).  Sabemos que o corpo e mente são um só e o que acontece é que o sofrimento psicológico pode causar mudanças na fisiologia hormonal e neurológica, tal como as mudanças físicas podem gerar reações psicológicas que compõem a disfunção.

Fatores psicológicos e/ou comportamentais da dispareunia

  • Perturbações de humor, como depressão
  • Perturbações de ansiedade
  • Baixa autoestima
  • Medos e preocupações com consequências negativas (por ex., gestação não desejada, incapacidade de ter um orgasmo, doença sexualmente transmissível)
  • Ansiedade no desempenho
  • Experiências sexuais negativas passadas podem levar a baixa autoestima, vergonha ou culpa
  • Abuso emocional, físico ou sexual durante a infância ou adolescência pode mais tarde inibir a expressão de desejos e sentimentos sexuais 
  • Traumas, como perda de alguém significativo, pode inibir a intimidade com o parceiro sexual, por medo de que possa ocorrer outra perda (4, 6).

Fatores orgânicos

  • Lesões genitais (por ex., herpes genial, infeções vaginais, …)
  • Fatores hormonais
  • Fármacos(efeitos colaterais de alguns medicamentos, nomeadamente, antidepressivos)

Outras causas que se podem associar à dispareunia são:

  • Sexualidade (por exemplo, ambiente sexual não erótico o suficiente)
  • Intrapessoais (por exemplo, baixa perceção da autoimagem sexual, podendo esta dever-se a infertilidade ou retirada do seio, entre outras)
  • Relacionamento (por exemplo, falta de confiança, pouca atração pelo parceiro)
  • Culturais (restrições culturais em relação à atividade sexual) (6)

QUAIS OS SINAIS DA DISPAREUNIA?

mulher surpreendida com a menstruação adiantada

Veja alguns dos sinais a que deve estar atento (4):

  • Doenças de pele, como psoríase
  • Secreções vaginais (mais intensa do que o habitual ou mais consistente, …)
  • Inflamação
  • Infeção, como candidíase, herpes simples ou verrugas genitais
  • Cicatrizes (cirúrgicas ou devidas ao parto)

4 ASPETOS ESSENCIAIS A TER EM ATENÇÃO

O aspecto essencial é restaurar o funcionamento e o prazer sexuais. Existem alguns aspetos que o podem ajudar a perceber se necessita ajuda especializada para melhorar a sua relação ou a perceber o que pode estar a acontecer. Lembre-se que quanto melhor identificar, mais facilmente pode pedir ajuda específica (7):1.

Falta de desejo

Este ocorre quando as pessoas não têm interesse em fantasias ou atividades sexuais e, como resultado, ficam angustiadas ou têm problemas no relacionamento.2.

Disfunção erétil

Quando o pénis não consegue ficar ereto, causa constrangimento na relação sexual. 3.

Ejaculação precoce

Quando a ejaculação é prematura pode causar sofrimento emocional.4.

Relações dolorosas

Relações sexuais dolorosas, ou dispareunia, são dores genitais recorrentes ou persistentes que causam sofrimento significativo ou problemas de relacionamento.

TRATAMENTO 

dor testicular diagnostico

O tratamento é um processo que tem algumas etapas. Normalmente, envolve medidas comportamentais, psicoterapia e por vezes, terapêutica farmacológica (hidratantes e lubrificantes vaginais).

É importante ter consciência para identificar atitudes negativas e crenças sobre o sexo de forma a encontrar novas maneiras de pensar. Os problemas de relacionamento entre o casal são também comuns, o que pode dificultar a sua situação. Saiba que a terapia pode permitir uma abertura de comunicação entre o casal que não raras vezes, é inexistente (7). 

As mudanças comportamentais podem passar por manter diários dos seus pensamentos sexuais, assistir filmes eróticos ou desenvolver fantasias (7). 

No fundo, a terapia é direcionada por forma a haver uma redução da ansiedade, tirando o foco da relação sexual. Entre os homens, pode existir um problema físico subjacente. Neste último caso, um urologista ou ginecologista pode ajudar a descartar ou tratar as condições médicas. Para as mulheres, o tratamento também passa pelo relaxamento (7). 

Fontes

  1. American Psychiatric Association (2014). DSM-5: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (5.ª ed.). Porto Alegre: Artmed.
  2. Silva A. (2018). Abordagem fisioterapêutica da dispareunia na mulher com Dor Pélvica Crônica: comparação entre duas técnicas. Trial clínico, randomizado. Tese de doutoramento em Ginecologia e Obstetrícia. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – Universidade de São Paulo. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/17/17145/tde-19072018-115253/publico/AnaPaulaMoreiradaSilva.pdf
  3. Valerio J. (2019). Dispareunia Masculina. Artigo de revisão. Faculdade de Medicina. 80(1), 79-85. DOI: https://doi.org/9.15381/anales.v80i1.15334
  4. Huins H., Payne J. (2016). Dyspareunia. Medical Professionals. UK and European Guidelines. Acedido a 2 de março de 2020. Disponível em: https://patient.info/doctor/dyspareunia
  5. (2018). Obstetrics, gynaecology & Reproductive Medicine, v. 18, 1-6. Disponível em: https://doi.org/9.916/j.ogrm.2017.9.006
  6. Basson R. (2013). Visão geral da função e disfunção sexual feminina. University of British Columbia and Vancouver Hospital. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/disfun%C3%A7%C3%A3o-sexual-em-mulheres/vis%C3%A3o-geral-da-fun%C3%A7%C3%A3o-e-disfun%C3%A7%C3%A3o-sexual-feminina#v964596_pt
  7. APA (2020). American Psychological Association. Adaptado de Encyclopedia of Psychology. Disponível em: https://www.apa.org/topics/sex/treatment
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