Psicóloga Inês Tavares
Psicóloga Inês Tavares
21 Fev, 2020 - 18:20

Como lidar com diferenças de desejo sexual no casal

Psicóloga Inês Tavares

O desejo sexual não é algo que se mantenha constante ao longo do tempo. Pode variar em alturas específicas ou ocorrer ao longo da duração de uma relação.

Como lidar com diferenças de desejo sexual no casal

O desejo sexual é uma parte importante do bem-estar sexual de cada pessoa. É visto como a motivação que sentimos para nos envolvermos em atividade sexual, seja de forma individual ou com um parceiro (1).

No caso do desejo sexual solitário, sentimos interesse ou motivação para nos envolvermos em atividade sexual solitária (por exemplo, masturbação) e podemos até ter interesse em abstermo-nos de intimidade e de partilhar atividade sexual com outras pessoas.

No caso de sentirmos desejo sexual diádico, sentimos interesse ou motivação para nos envolvermos em atividade sexual com outra(s) pessoa(s). Este tipo de desejo também pode envolver um desejo de intimidade e de partilha, que podem ser vividos através da atividade sexual com um parceiro.

Fatores que afetam o desejo sexual no casal

Casal a ter relações sexuais
Casal a ter relações sexuais

O nível de desejo sexual que sentimos não é sempre igual. Já sentiu, certamente, que em algum momento da sua vida o seu interesse e motivação para se envolver em atividade sexual diminuiu. Deu por si a deixar de ter interesse em sexo, a deixar de ter pensamentos ou fantasias sexuais, e a desinvestir neste aspeto da sua vida. O sexo deixou de ser parte do seu quotidiano e, provavelmente, passou para segundo (terceiro, ou quarto!) plano.

Ainda assim fique tranquilo, pois estas variações são frequentes. O nosso nível de desejo pode variar, por exemplo, de acordo com épocas em que sentimos maior stress, com grandes transições de vida (por exemplo, após o nascimento de um filho) ou, caso estejamos numa relação, com outras mudanças (e insatisfação) na nossa relação de casal. Estas variações são normais, e são mais comuns do que provavelmente imagina.

A melhor forma de entender o funcionamento do desejo sexual é imaginá-lo como uma onda ou como as fases da maré. Sobe e desce… vai e vem… Pode desaparecer por longos períodos de tempo e depois regressar e arrebatar-nos com toda a força. Muitas pessoas em relações de longa duração provavelmente se revêem nesta situação.

O desejo sexual não é algo que se mantenha constante ao longo do tempo. Este subir e descer, ir e vir, pode variar em alturas específicas da nossa vida (de acordo com a idade ou fase da vida em que nos encontramos) ou pode ocorrer ao longo da duração de uma relação.

Sabemos que alguns fatores como a falta de sono, stress, insatisfação com a nossa relação de casal, preocupações financeiras, ou incerteza laboral podem afetar negativamente o desejo sexual. Mas haverá causas menos óbvias?

Quais os antídotos do desejo sexual?

Como lidar com diferenças de desejo sexual no casal

Uma das distinções importantes a fazer quando falamos de desejo é que este é diferente do conceito de amor. O amor sustenta-se na familiaridade, no conforto, na proximidade. Mas o desejo sustenta-se na novidade, no mistério, na aventura, na distância. O desejo é, em si mesmo, um estado de querer aquilo que não se tem.

Na sua TED Talk “The Secret to Desire in a Long-Term Relationship”, a terapeuta Esther Perel explora os diferentes ingredientes do desejo sexual em relações de longa duração. Como manter a chama do desejo acesa ao longo do tempo? E quais os seus antídotos? Os seguintes três aspetos parecem ser antídotos claros do desejo nas relações a longo prazo:

1. Quando o “nós” substitui o “eu”

O desejo é como um fogo, que precisa de ar para sobreviver. Ao não manter a sua individualidade na sua relação, a chama do desejo não terá ar suficiente para arder, e acabará por se extinguir.

Aqui falamos de um equilíbrio entre a necessidade de conexão, por um lado, e de separação, por outro. De segurança, por um lado, e de aventura, por outro. Ou de união, por um lado, e de autonomia, por outro.

A intimidade precisa de proximidade, mas o desejo requer distância. Reconciliar estes dois tipos de necessidades é uma tarefa difícil, mas pode ser possível se se mantiver um equilíbrio entre ambas. Para isso, tente manter algumas partes do seu “eu” separadas do “nós”.

2. Quando um parceiro é carente

Esther Perel chama a carência de “anti-afrodisíaco”, no sentido em que não existe espaço para a carência no desejo, e expressar esta necessidade de carência ao seu parceiro pode levar a que o desejo se extinga.

É claro que todos nós temos necessidades. Muitas delas, incluindo segurança, confiabilidade, e proximidade, são cumpridas (na maioria das vezes) através de uma relação romântica. Mas as necessidades associadas ao desejo são diferentes e incluem aspetos como aventura, novidade, mistério, risco, e até algum perigo – no fundo, os ingredientes do desejo são o desconhecido e o inesperado.

Ao expressar as suas necessidades relacionadas com aspetos de segurança através de comportamentos de carência, as necessidades relacionadas com os aspetos do desejo vão ter dificuldade em sobreviver a este paradoxo. Manter este equilíbrio (e manter, portanto, o desejo vivo) está fortemente relacionado com manter a sua independência.

Se for capaz de satisfazer as suas necessidades enquanto uma pessoa independente do seu parceiro, é mais provável que as suas necessidades sejam satisfeitas também pelos outros. Por outro lado, se insistir em que precisa do seu parceiro para o tranquilizar, é menos provável que ele o queira fazer, e o desejo acabará por sair prejudicado.

3. Rotina

Como é possível desejar algo que já se tem? Todos sabemos que é com quem nos é mais familiar que tendemos a ser mais impacientes e intolerantes. A rotina e a familiaridade com os nossos parceiros contribuem para que seja mais difícil sentir desejo por eles. Então, como nos levamos a querer algo que já temos?

O segredo passa por redefinir a novidade. Lingerie e brinquedos sexuais podem ajudar, mas não serão aquilo que, por si só, resolverá a questão de fundo. Pense no conceito de novidade em termos de novas “camadas” ou aspetos de si próprio que poderá relevar ao seu parceiro.

Que partes de si próprio sente que o seu parceiro leva a que se revelem? Use a sua imaginação e pense sobre formas diferentes de partilhar aspetos (novos) de si próprio ao seu parceiro que possam contrariar alguma da rotina, permitindo espaço para que a chama do desejo cresça.

Fontes

1. Moyano, Vallejo-Medina & Sierra (2016). “Sexual Desire Inventory: Two or Three Dimensions?”, The Journal of Sex Research, DOI: 10.1080/00224499.2015.1109581
2.https://www.ted.com/talks/esther_perel_the_secret_to_desire_in_a_long_term_relationship#t-864402

Veja também