Camila Farinhas
Camila Farinhas
22 Jun, 2020 - 11:40

Cancro da tiróide: diagnóstico e tratamento

Camila Farinhas

O cancro da tiróide é mais frequente nas mulheres. Apresenta taxas de sobrevida bastante elevadas, pelo que o diagnóstico precoce fará toda a diferença.

Cancro da tiróide: estetoscópio e maquete de tiróide

Em Portugal, são diagnosticados anualmente 400 novos casos de cancro da tiróide, representando 1% das doenças oncológicas. São 4 vezes mais frequentes nas mulheres (1). Em casos onde já existam nódulos da tiróide diagnosticados ou fatores hereditários associados, a atenção deve ser redobrada.  

O que é o cancro da tiróide?

Mulher com nódulo na garganta

A tiróide é a maior glândula do sistema endócrino, pesa entre 15 a 20 g no adulto e mede aproximadamente 2,5 cm. É responsável pela regulação de diversos processos metabólicos essenciais à vida. Quando saudável, as células da tiróide crescem e multiplicam-se à velocidade necessária para que as células envelhecidas sejam substituídas e assim preservar a função da glândula.

No decorrer deste processo, algumas células podem sofrer mutações genéticas fazendo com que a sua divisão seja excessiva, dando-se origem a um tumor. Em alguns casos, as células podem interferir também com as estruturas vizinhas ocorrendo disseminação em outros órgãos, o que tecnicamente se chama de metastização.

O cancro da tiróide é um tumor maligno relativamente raro, e geralmente tem origem num nódulo da tiróide. Pode ainda apresentar-se sob a forma de um gânglio linfático cervical aumentado, rouquidão por compressão nervo laríngeo recorrente, ou dificuldade na deglutição ou respiração devido à obstrução do esófago ou laringe (1).

Fatores de risco para desenvolver cancro de tiróide

O fator de risco mais conhecido para o desenvolvimento de carcinoma da tiróide, sobretudo do tipo papilar é a exposição da glândula à radiação, principalmente quando esta ocorre na infância. 

Também as alterações genéticas parecem contribuir para desenvolver cancro de tiróide, pelo que ter familiares próximos com esta patologia, aumenta a probabilidade de desenvolver um nódulo maligno. Neste caso, os exames de rotina e a vigilância devem ser reforçados.

Como é diagnosticado o cancro de tiróide?

Mulher a fazer ecografia à tiróide

O diagnóstico de cancro de tiróide é resultado do estudo de um nódulo identificado (2).

Podem ser realizadas análises sanguíneas aos parâmetros básicos indicativos do funcionamento da tiróide (níveis de T3, T4 e TSH) ou ainda outros que o médico considere adequados.

A ecografia é o exame de diagnóstico por imagem utilizado para avaliar o nódulo, ou ainda para guiar a Citologia Aspirativa por Agulha Fina (através de uma punção do nódulo, são aspiradas células para análise anatomopatológica).

Quais os tipos de cancro de tiróide existem?

Médico a explicar funcionamento da tiróide

Na tiróide, existem dois tipos de células endócrinas que dão origem a diferentes tumores:

  • Células foliculares: produzem as hormonas T3 e T4
  • Células C: produzem calcitonina

Assim, os tumores da tiróide classificam-se em (3):

  1. Carcinoma Papilar: 75 a 85% dos casos. Podem apresentar-se em crianças. São mais frequentes em mulheres jovens.
  2. Carcinoma Folicular: 10 a 20% dos casos. Mais frequente em mulheres com mais de 50 anos.
  3. Carcinoma Anaplásico: corresponde a menos de 5% dos casos. É altamente agressivo e letal. A idade média de apresentação é 65 anos.
  4. Carcinoma Medular: corresponde a 5% dos casos. Têm origem nas células C (parafoliculares).

Estadiamento, o que é?

Perante um diagnóstico de cancro da tiróide, e para que seja definido corretamente o plano de tratamento, é necessário avaliar a extensão da doença. Tecnicamente dá-se a este processo de diagnóstico o nome de estadiamento.

O estadiamento pode ser clínico (com base em exames de diagnóstico) ou patológico (quando a peça cirúrgica é analisada em laboratório). Por vezes, o estadiamento clínico pode ser diferente do patológico, pelo que a combinação entre os dois tipos de estadiamento fornece informações mais precisas à equipa médica.

A American Joint Committee on Cancer (AJCC) utiliza para estadiamento o sistema TNM (4). Para cada letra é atribuída uma letra ou um número para descrever o tumor, envolvimento ganglionar e possíveis metástases. De forma simples, este sistema consiste em:

  • T – representa o tumor primário. Esta categoria fornece informações sobre o tamanho, profundidade de envolvimento no órgão onde se originou e quanto invadiu os tecidos adjacentes. Assim: TX (tumor não pode ser avaliado), T0 (não existe evidência de tumor primário), Tis (as células cancerígenas estão apenas na camada superficial do órgão ou “carcinoma insitu”), T1,T2,T3,T4 (representam a extensão da doença nas proximidades, pelo que quanto maior o número, maior a disseminação)
  • N – representa o envolvimento ganglionar nos tumores que se disseminaram para os gânglios próximos. Assim: NX (gânglios não podem ser avaliados), N0 (não existe envolvimento ganglionar), N1, N2, N3 (representam o grau de envolvimento ganglionar regional. Quanto mais elevado, maior disseminação ganglionar)
  • M – representa a existência de metástases e descreve o grau de metastização. Desta forma: M0 (não existe metastização), M1 (o tumor disseminou-se para órgãos à distância)

Recentemente, a European Society for Medical Oncology, atualizou as seguintes guidelines para o tratamento do cancro de tiróide (3).

Tratamento do cancro de tiróide

Médicos a fazer cirurgia

A decisão do tratamento, deve ser alvo de avaliação e discussão multidisciplinar pelas diversas áreas médicas envolvidas na abordagem do cancro de tiróide. Na consulta de decisão terapêutica (CDT), é definida a estratégia mais eficaz e adequada a cada doente, tendo em consideração o estadiamento e intenção do tratamento. A terapêutica dos carcinomas folicular e papilar consiste em:

1.

Cirurgia

Sempre que exista um diagnóstico de carcinoma, a totalidade da tiróide deve ser retirada (tiroidectomia total), assim como os gânglios afetados (1, 3). No entanto, a abordagem cirúrgica dependerá da decisão da equipa médica.

2.

Iodo Radioativo (Iodo-131)

Tratamento administrado pela área da Medicina Nuclear. Indicado nos casos de cancro diferenciado da tiróide agressivo (invasão dos tecidos que rodeiam a tiróide ou locais à distância, como o pulmão e osso), ou ainda em complemento à tiroidectomia nos casos menos agressivos (1, 6).

Baseia-se no fato de que as células malignas da tiróide captam o iodo 131 e são por ele destruídas. Em condições normais, as células do cancro da tiróide captam apenas diminutas quantidades de iodo (ou 131I). No entanto, quando a TSH está muito aumentada, as células malignas da tiróide são capazes de captar quantidades significativas de 131I. Esta dose elevada de 131I, destrói as células malignas da tiróide sem lesar os tecidos que as rodeiam.

É um tratamento seguro e geralmente bem tolerado. Podem ser realizadas várias sessões desde que com intervalo de 4 a 6 meses entre tratamentos.

Antes da alta hospitalar são medidos os níveis de radiação, para verificar se estão dentro dos limites necessários (5). Deverá, no entanto, evitar o contato com grávidas e crianças. Os efeitos secundários mais frequentes são: náuseas, alteração do paladar, dor ou inchaço do pescoço e inflamação das glândulas salivares. O aumento da ingestão de água é recomendada para acelerar a eliminação do iodo radioativo.

3.

Hormona da tiróide

Em muitos casos, a T4 deverá ser administrada numa dosagem que permita a supressão da produção de TSH pela hipófise, pois esta estimula a produção de células malignas da tiróide que possam não ter sido totalmente removidas na cirurgia

Em alguns casos, por decisão médica, pode ser necessário recorrer a radioterapia externa ou termoablação tumoral.

Follow-up

O acompanhamento (ou follow-up) de pessoas submetidas a tratamento de cancro da tiróide, passa pela consulta regular de Endocrinologia com diferenciação em doenças oncológicas. A vigilância do carcinoma diferenciado da tiróide consiste em:

  • Observação clínica
  • Análises sanguíneas (devem incluir os níveis de tiroglobulina (Tg), pois esta substância é produzida e libertada pela célula tiroideia normal e também pelo célula maligna do cancro da tiróide. Após tiroidectomia total, o seu nível é muito baixo. Um nível elevado ou a subir da tiroglobulina implica persistência ou crescimento tumoral, mas não está obrigatoriamente associada a um mau prognóstico (1). Um nível de tiroglobulina elevado alerta o médico para a necessidade de efectuar outros exames para a detecção de recidiva tumoral)
  • Ecografia

Conclusão

O cancro da tiróide, nomeadamente os carcinomas papilar e folicular quando diagnosticados precocemente, têm um prognóstico bastante positivo. As taxas de sobrevida rondam os 95% aos 10 anos após o diagnóstico. Se existem nódulos na tiróide já diagnosticados ou presença de factores hereditários, a vigilância deverá ser maior.  

Fontes

  1. Sociedade Portuguesa de Diabetes e Metabolismo (2020). Cancro da tiróide. Acedido em 18 de Junho de 2020. Disponível em: http://www.spedm.pt/grupo-de-estudo-da-tiroide/cancro-da-tiroide-2/
  2. Direção-Geral da Saúde (2015).  Abordagem Diagnóstica do Nódulo da Tiroide em Idade Pediátrica e no Adulto. Disponível em: https://www.dgs.pt/directrizes-da-dgs/normas-e-circulares-normativas/norma-n-0192013-de-26112013-pdf.aspx
  3. S, Filetti., et al. (2019). Thyroid cancer: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of Oncology 30: 1856–1883. Disponível em: https://www.annalsofoncology.org/article/S0923-7534(20)32555-2/pdf
  4. American Cancer Society (2020). Thyroid Cancer Stages. Acedido a 19 de Junho de 2020. Disponível em: https://www.cancer.org/cancer/thyroid-cancer/detection-diagnosis-staging/staging.html
  5. Comissão Europeia (1999). Proteção contra as radiações 97: Proteção contra as radiações após terapêutica com Iodo-131. Disponível em: https://ec.europa.eu/energy/sites/ener/files/documents/097_pt.pdf
  6. Fugazzola, L., et al. (2019). European Thyroid Association Guidelines for the Treatment and Follow-Up of Advanced Radioiodine-Refractory Thyroid Cancer. European Thyroid Journal 8:227–245. Disponível em:  https://www.karger.com/Article/FullText/502229
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A não esquecer

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