Nutricionista Hugo Canelas
Nutricionista Hugo Canelas
18 Fev, 2020 - 11:30

Fact-check: alimentos biológicos são melhores?

Nutricionista Hugo Canelas

Orgânico ou biológico não é sinónimo de seguro ou saudável e explicamos por quê.

Variedade de alimentos biológicos
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Fact-Check Falso

Questão em análise

Várias pessoas consideram os alimentos biológicos mais saudáveis, baseando-se em falsas noções de que são mais seguros para consumo. Na verdade, os alimentos biológicos têm pesticidas, tanto orgânicos como químicos e não apresentam uma qualidade nutricional acima dos demais. Orgânico ou biológico não é sinónimo de seguro, saudável e muito menos amigo do ambiente.

Não necessariamente. Várias pessoas consideram os alimentos biológicos mais saudáveis, baseando-se em falsas noções de que são mais seguros para consumo.

Na verdade, os alimentos biológicos têm pesticidas – no caso das plantas – embora as carnes e lácteos sejam isentos de hormonas.

Relativamente à segurança, deve ser salientado que nos últimos relatórios disponíveis foram identificados produtos alimentares contaminados com os chamados pesticidas químicos, os mesmos que são utilizados na agricultura convencional.

Orgânico ou biológico não é sinónimo de seguro ou saudável. Na verdade, o limiar de toxicidade aguda e crónica de muitos dos pesticidas orgânicos é bem maior do que dos inorgânicos.

Outra ideia errada acerca destes alimentos é de que apresentam uma qualidade nutricional maior. Infelizmente, neste momento, não é possível concluir que estes produtos sejam mais ricos em antioxidantes, ómega-3 ou mais pobres em nitratos.

O mesmo se aplica aos supostos benefícios para a saúde.

Finalmente, quando ao impacto no meio ambiente, a agricultura biológica apresenta-se potencialmente mais danosa, uma vez que utiliza mais solos e tem um potencial de eutrofização – vulgo contaminação dos leitos de água com nutrientes que permitem o crescimento de algas, plantas e bactérias – bem superior ao da agricultura convencional.

Posto isto, fica a critério do leitor a opção de consumir estes produtos, lembrando que a finalidade do site Vida Ativa é a de fornecer informação objetiva por forma a facilitar o maior entendimento das questões inerentes às ciências da nutrição e alimentação.

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O QUE É UM ALIMENTO BIOLÓGICO?

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O termo “biológico” ou “orgânico” é empregue com o mesmo significado e refere-se ao processo pelo qual alguns alimentos são produzidos.

Teoricamente, os alimentos biológicos são cultivados ou criados sem recurso a químicos, hormonas, antibióticos e organismos geneticamente modificados (GMO).

Para além da isenção de químicos, a agricultura biológica tende a preservar a qualidade do solo e dos leitos de águas, resultando, em teoria, em menores graus de poluição ambiental.

OS ALIMENTOS BIOLÓGICOS APRESENTAM MAIORES QUANTIDADES DE NUTRIENTES?

Embora vários estudos afirmem que os alimentos biológicos são nutricionalmente mais ricos, outros não encontraram provas consistentes para os recomendar em detrimento dos convencionais ou inorgânicos (1, 2).

Os resultados largamente divergentes podem ser atribuídos a fatores como a qualidade dos solos, condições climatéricas e altura das colheitas.

Já a qualidade das carnes e lácteos pode ser influenciada por fatores genéticos e a própria raça dos animais bem como a sua dieta.

Antioxidantes e vitaminas

Vários estudos indicam que os alimentos biológicos apresentam maiores níveis de antioxidantes e nutrientes como a vitamina C, o zinco e o ferro (3456).

A razão para tal fenómeno é o facto de os hortofrutícolas orgânicos não serem cultivados com recurso a pesticidas químicos. Não queremos dizer com isto que estes alimentos sejam isentos de pesticidas, mas vamos por partes.

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Nitratos

O conteúdo em nitratos dos alimentos tem vindo a ser sistematicamente associado ao risco de doenças crónicas como o cancro (7). As plantações orgânicas podem apresentar níveis de nitratos até 30% inferiores às plantações convencionais (68).

Perfil dos ácidos gordos

Os produtos lácteos biológicos podem apresentar maiores concentrações de ácidos gordos ómega-3, ferro, vitamina E e carotenoides (89 10).

Um consumo acrescido de ómega-3 está associado a vários benefícios para a saúde, incluindo o risco de doença cardiovascular.

No entanto, os lácteos biológicos são mais pobres em selénio e iodo, dois minerais essenciais para a saúde (9).

OS ALIMENTOS BIOLÓGICOS NÃO TÊM PESTICIDAS?

alimentos que pode replantar alimentos que tem casa

Várias pessoas escolhem os alimentos biológicos como forma de evitar o consumo de substâncias químicas. Na verdade, cerca de 80% dos portugueses acredita que na agricultura biológica não são utilizados pesticidas (11).

Efetivamente, um estudo indica que o conteúdo em cadmio, um metal extremamente tóxico, nos alimentos biológicos é quase 50% inferior aos dos convencionais (6).

No entanto, isso não quer dizer que os alimentos biológicos sejam isentos de substâncias químicas. Um pesticida pode ser qualquer substância produzida com o intuito de matar um organismo e, nesse sentido, as plantas conseguem produzir quantidades enormes de pesticidas que são consumidos pelos humanos.

Na verdade, pensa-se que cerca de 99.9% dos pesticidas consumidos pelo homem sejam de origem natural e que a ingestão de pesticidas sintéticos seja residual (12).

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Em segundo lugar, a agricultura biológica utiliza sim pesticidas, mas os orgânicos como o piretro e o sulfato de cobre, abolindo todos aqueles que são inorgânicos. O problema é que tanto os pesticidas orgânicos como inorgânicos apresentam um limiar de toxicidade aguda e crónica. Na verdade, a designação “natural” não transforma a segurança de um produto.

Por fim, alguns estudos indicam que grande parte dos produtos biológicos estão contaminados com pesticidas sintéticos (13, 14).

Talvez mais grave, é o facto de os testes utilizados não terem a capacidade para detetar os pesticidas orgânicos mais comuns, ou seja, é extremamente impossível saber quais e mais importante que quantidade de pesticidas foram usados nestes produtos.

Aparte dos pesticidas, nunca podemos esquecer a contaminação bacteriana. Na verdade, é natural que a contaminação com Salmonella e E. Coli seja mais prevalente na agricultura biológica uma vez que é utilizado estrume em vez de fertilizantes inorgânicos (15, 16).

O IMPACTO AMBIENTAL DOS ALIMENTOS BIOLÓGICOS É MENOR?

O impacto da agricultura convencional no meio ambiente é alvo de bastantes críticas. Questões como o desflorestamento, a poluição de solos e água, a diminuição da biodiversidade e a erosão dos solos são alguns dos principais efeitos negativos da agricultura convencional extensiva.

No entanto, de acordo com uma meta-analise de 2017, onde se comparou o impacto da agricultura biológica, concluiu-se, entre outras coisas, que os sistemas orgânicos requerem mais 25 a 110 % do uso de terras e que o potencial de eutrofização é 37% superior.

Por potencial de eutrofização entende-se o crescimento de plantas aquáticas, algas e microrganismos que diminuem a disponibilidade de oxigénio na água e inviabilizam a vida dos ecossistemas (17).

OS ALIMENTOS BIOLÓGICOS SÃO MAIS BENÉFICOS PARA A SAÚDE?

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Vários estudos sugerem que os alimentos biológicos apresentam benefícios para a saúde.

Por exemplo, estudos observacionais referem que o consumo de alimentos biológicos está associado a um menor risco de alergias e eczema em bebés e crianças (81819).

Por outro lado, outro estudo observacional não reportou qualquer diferença no risco de cancro em mulheres que nunca ingeriram alimentos biológicos relativamente àquelas que os consumiam com frequência (20).

Por fim, um estudo de 3 semanas relatou maiores níveis de antioxidantes na urina de 16 pessoas que ingeriam uma dieta baseada em alimentos biológicos. No entanto, para além de ter uma amostra muito pequena, este estudo apresenta algumas limitações associadas à variabilidade da excreção urinária bem como da fisiologia e microflora intestinais (21).

Assim sendo, não existe evidência científica suficiente para afirmar que os alimentos biológicos são mais saudáveis do que os obtidos através da agricultura convencional.

Fontes

  1. Smith-Spangler, C., et.al. (2012). Are Organic Foods Safer or Healthier Than Conventional Alternatives? Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22944875
  2. Dangour, A. D., et.al. (2009). Nutritional quality of organic foods: a systematic review. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19640946
  3. Brandt, K., et.al. (2011). Agroecosystem Management and Nutritional Quality of Plant Foods: The Case of Organic Fruits and Vegetables. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/07352689.2011.554417
  4. Hunter, D., et.al. (2011). Evaluation of the Micronutrient Composition of Plant Foods Produced by Organic and Conventional Agricultural Methods. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21929333
  5. Asami, D. K., et.al. (2003). Comparison of the Total Phenolic and Ascorbic Acid Content of Freeze-Dried and Air-Dried Marionberry, Strawberry, and Corn Grown Using Conventional, Organic, and Sustainable Agricultural Practices. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12590461
  6. Barański, M., et.al. (2014). Higher antioxidant and lower cadmium concentrations and lower incidence of pesticide residues in organically grown crops: a systematic literature review and meta-analyses. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24968103
  7. Williams, C. M. (2002). Nutritional quality of organic food: shades of grey or shades of green? Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12002790
  8. Huber, M., et.al. (2011). Organic food and impact on human health: Assessing the status quo and prospects of research. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1573521411000054
  9. Średnicka-Tober, D., et.al. (2016). Higher PUFA and n-3 PUFA, conjugated linoleic acid, α-tocopherol and iron, but lower iodine and selenium concentrations in organic milk: a systematic literature review and meta- and redundancy analyses. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26878105
  10. Średnicka-Tober, D., et.al. (2016). Composition differences between organic and conventional meat: a systematic literature review and meta-analysis. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/26878675
  11. Público. (2018). Portugueses querem produtos biológicos mas ignoram uso de pesticidas. Disponível em: https://www.publico.pt/2018/04/26/sociedade/noticia/portugueses-querem-produtos-biologicos-mas-ignoram-uso-de-pesticidas-1811697
  12. American Council on Science and Health. (2017). 99.99% of Pesticides We Eat Are Produced by Plants Themselves. Disponível em: https://www.acsh.org/news/2017/06/13/9999-pesticides-we-eat-are-produced-plants-themselves-11415
  13. CBS. (2014). Pesticide residue found on nearly half of organic produce. Disponível em: https://www.cbc.ca/news/canada/manitoba/pesticide-residue-found-on-nearly-half-of-organic-produce-1.2487712
  14. Forbes. (2016). Inconvenient Truth: There Are Pesticide Residues On Organics. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/stevensavage/2016/02/08/inconvenient-truth-there-are-pesticide-residues-on-organics/#65fd59f2683b
  15. PAN, F., et.al. (2015). Cross-Sectional Survey of Indicator and Pathogenic Bacteria on Vegetables Sold from Asian Vendors at Farmers’ Markets in Northern California. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/2571988
  16. Mukherjee, A., et.al. (2004). Preharvest evaluation of coliforms, Escherichia coli, Salmonella, and Escherichia coli O157:H7 in organic and conventional produce grown by Minnesota farmers. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15151224
  17. Clark, M., & Tilman, D. (2017). Comparative analysis of environmental impacts of agricultural production systems, agricultural input efficiency, and food choice. Disponível em: https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/aa6cd5/meta
  18. Alfven, T., et.al. (2006). Allergic diseases and atopic sensitization in children related to farming and anthroposophic lifestyle – the PARSIFAL study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16512802
  19. Kummeling, I., et.al. (2007). Consumption of organic foods and risk of atopic disease during the first 2 years of life in the Netherlands. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17761012
  20. Bradbury, K. E., et.al. (2014). Organic food consumption and the incidence of cancer in a large prospective study of women in the United Kingdom. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4007233/
  21. Grinder-Pedersen, L., et.al. (2003). Effect of Diets Based on Foods from Conventional versus Organic Production on Intake and Excretion of Flavonoids and Markers of Antioxidative Defense in Humans. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12952417
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