Mónica Carvalho
Mónica Carvalho
04 Jun, 2020 - 09:26

Quase 60% dos portugueses melhorou alimentação durante quarentena

Mónica Carvalho

Os dados resultam de um inquérito realizado pela Direção-Geral da Saúde sobre Alimentação e Atividade Física em Contexto de Contenção Social.

Alimentação durante quarentena: homem a preparar almoço

Conhecer os comportamentos alimentares e de atividade física dos portugueses durante a quarentena foi o objetivo de um estudo realizado pela Direção-Geral da Saúde (DGS), em parceria com o Instituto de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Os portugueses com mais de 55 anos e com menor nível de escolaridade são quem tem mais dificuldade em aceder e compreender informação sobre saúde, apesar de 44,5% procurar mais informação sobre saúde do que fazia antes do período de quarentena e mais de metade compreender a informação transmitida relativa à COVID-19 (56,3%).

Durante este período, a DGS produziu várias normas e orientações sobre diferentes temas, no sentido de facilitar procedimentos e comportamentos no contexto de isolamento ou confinamento. 77,6% diz que as informações disponibilizadas sobre alimentação foram úteis ou muito úteis e 69,3% diz o mesmo sobre os dados relativos à prática de exercício físico.

Como foi a alimentação dos portugueses durante a quarentena?

Família a almoçar

58,2% dos inquiridos referiu que melhoraram os hábitos alimentares durante o período de isolamento ou de confinamento e fê-lo por diferentes motivos:

  • 34,3% pela alteração do número de idas às compras
  • 19,3% porque sentiu alterações no apetite
  • 18,6% referiu que sentiu alterações no apetite derivado ao stress
  • 17,6% por ter horas diferentes de trabalho
  • E apenas 2,5% demonstrou preocupação com a possível falta de alimentos nos supermercados

De 9 de abril a 4 maio, período abrangido no inquérito, registou-se o aumento do consumo de determinados bens:

  • Água (31,1%)
  • Snacks doces (30,1%)
  • Fruta (29,7%) e hortícolas (21,0%)
  • Diminuição de consumo de take-away (43,7%), refeições pré-preparadas (40,7%), refrigerantes (29,5%) e bebidas alcoólicas (28,2%).

No que aos comportamentos diz respeito, 71% dos inquiridos alterou o número de idas às compras, 56,9% passou a cozinhar mais, 31,4% passou a petiscar ao longo do dia e 30,1% alterou o número de refeições diárias.

Estes comportamentos refletem preocupação ou incerteza quanto ao acesso aos alimentos por dificuldades económicas em 33,7% e dificuldades económicas no acesso aos alimentos em 8,3% dos casos.

E se muitos referem que o período de quarentena se refletiu no peso, pela amostra deste estudo, 26,4% das pessoas referiu o aumentou de peso durante o período de contenção social, 57,3% manteve e 16,3% baixou de peso.

Padrões de comportamento alimentar: os portugueses fizeram escolhas saudáveis?

18,2% confirmou que adere a um padrão saudável, o que implica o aumento do consumo de fruta, hortícolas e pescado, enquanto 10,8% adere a um padrão não saudável. Por sua vez, isto traduz-se no aumento de refeições pré-preparados, snacks salgados, refrigerantes, take-away e numa diminuição do consumo de fruta e hortícolas.

As pessoas com dificuldades económicas e as pessoas em situação de insegurança alimentar são os que mais adotam o padrão de comportamento alimentar não saudável.

Atividade física: mais de metade dos portugueses praticamente não fez desporto

Mulher a fazer caminhada

Os dados relativos à prática de atividade física durante a quarentena apontam para um quadro em que 60,9% da população reportou níveis baixos de atividade física, 22,6% foram moderadamente ativos e apenas 16,5% reporta níveis de atividade física elevados.

Ao comparar estes resultados com estudos anteriores, verificou-se que, em tempos de confinamento houve um aumento de pessoas com níveis baixos de atividade física, em quase o dobro; assim como uma diminuição da prevalência de pessoas com níveis elevados de atividade física.

Além disso, a duração do tempo em confinamento parece também ter tido um efeito na prática de atividade física, sublinhando uma tendência diferente entre homens e mulheres, sendo que 20,05% dos homens se mostrou ativo em relação a 13,4% das mulheres.

Existe também uma queda na prática desportiva à medida que o tempo em confinamento aumentou no sexo feminino, sendo que se verifica o contrário nos homens.

Entre as razões para continuar a treinar, os participantes no inquérito referem a saúde (60,9%), a gestão do stress (55,1%) e para evitar o aumento de peso (35,1%).

Das principais atividades praticadas estruturadas, destacam-se a caminhada (32,3%), atividades de fitness (25,4%), treino de força (18%) e corrida (14,1%). Em relação às atividades não estruturadas, isto é, aquelas que se enquadram no quotidiano, o destaque vai para tarefas domésticas (70%) e subir e descer escadas (50%).

Assim, pode concluir-se que os tempos de sedentarismo foram consideráveis: até 3 horas por dia (33%) e 38,9% com sete ou mais horas por dia de sedentarismo.

Durante esse tempo, estas são as atividades de comportamento sedentário: ver televisão (70%), estar no computador / tablet / telemóvel, sem ser por motivos profissionais (60,6%), teletrabalho (36,5%) e ler (31,4%).

Este estudo permite, então, identificar dois padrões distintos de comportamento por parte dos portugueses durante o período de isolamento social: o de risco e um padrão mais protetor.

No que aos comportamentos de risco diz respeito, registaram-se níveis baixos de atividade física, aumento do consumo de snacks salgados, de refeições pré-preparadas, de refrigerantes e de opções de take-away, bem como a diminuição do consumo de hortofrutícolas. Este grupo regista ainda maior desconhecimento das recomendações da DGS sobre atividade física e alimentação saudável em contexto de isolamento social e apresenta uma situação financeira percecionada como difícil ou muito difícil, menor nível de escolaridade, bem como mais tempo em situação de confinamento social (5 semanas ou mais).

Por outro lado, existe outro grupo de portugueses que se enquadra num padrão protetor da saúde, que pratica mais desporto e não aumentou o consumo de snacks e refeições pré-preparadas. É um grupo com fácil acesso às recomendações de atividade física e alimentação saudável em contexto de isolamento social, que tem a perceção de uma boa situação financeira, maior nível de escolaridade (12º ano ou nível universitário), é mais jovem e esteve menos tempo em situação de confinamento social.

Fontes

  1. Direção-Geral da Saúde – “Inquérito sobre alimentação e atividade física em contexto de contenção social”, disponível em: https://www.dgs.pt/documentos-e-publicacoes/inquerito-sobre-alimentacao-e-atividade-fisica-em-contexto-de-contencao-social-pdf.aspx?fbclid=IwAR1CgP-e71OJp3wF-zDdkd05YxjMGxubsS4dEkSPu2xOHqghXd18ea3UAJE
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