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Será que existem mesmo chás para os rins?

Os denominados chás para os rins podem ser importantes aliados para a manutenção do bom funcionamento destes órgãos e purificação do organismo.

Será que existem mesmo chás para os rins?
Não descure a saúde de órgãos tão importantes como os rins

Muitas pessoas tomam “chás” para os rins com a intenção destes serem importantes aliados para a manutenção do bom funcionamento destes órgãos de purificação do organismo. Neste artigo vamos explorar até que ponto estes “chás” podem ou não ser reais aleados dos nossos rins.

Antes de começar a desenvolver o tema do presente artigo é necessário fazer uma clarificação que servirá também para futuros artigos. É comum utilizar-se a palavra “chá” para denominar vários preparados baseados na imersão de uma determinada substância (normalmente plantas frescas ou secas) em água (normalmente a ferver). Todavia, a descrição que acabou de ler é a definição de infusão e não de chá.

Chás são exclusivamente as bebidas preparadas através da infusão das folhas, flores e/ou raízes da Camelia sinensis (popularmente conhecida como a planta do chá). Assim a maioria dos “chás” de que já ouviu falar ou leu sobre (e. g. Camomila, Tília, etc.) são na realidade infusões (1) – termo que usaremos de forma correta doravante, visto fazer parte da missão do Vida Ativa informar adequadamente quem nos lê).

“Chás” para os rins: será que existem mesmo?


Chás para os rins

Certamente já ouviu falar nas infusões de Cavalinha, Dente-de-leão, Hibisco e até de Orégão, por exemplo, como “fazendo bem aos rins”. Será que existem mesmo infusões que ajudam ao bom funcionamento dos rins?

Os rins desempenham um papel essencial na manutenção da homeostasia / equilíbrio de todo o organismo humano. São dois órgãos em forma de feijão com um tamanho aproximado ao do nosso punho fechado, medindo cerca de 12 centímetros no seu maior eixo. Estão situados na zona posterior do abdómen, um de cada lado da coluna vertebral (2).

Do ponto de vista de funções, os rins:

  • Filtram continuamente o sangue, eliminando elementos potencialmente tóxicos quando em excesso, provenientes do nosso metabolismo interno (e. g. ureia, creatinina, ácido úrico, etc.);
  • Garantem o equilíbrio hidroeletrolítico do organismo, através da regulação da quantidade de água, e eletrólitos (e. g. sódio e potássio) do organismo, evitando problemas como o desenvolvimento de edemas (isto é, inchaços) e alterações da pressão arterial (hipotensão ou hipertensão arterial);
  • Produzem eritropoetina, renina e são fundamentais no metabolismo da vitamina D. A eritropoetina estimula a produção de glóbulos vermelhos e a sua falta pode levar a situações de anemia de difícil tratamento. A renina está associada ao controlo do volume de líquidos no organismo e consequente regulação da pressão arterial e a vitamina D, entre muitas outras funções, regula a absorção de cálcio no intestino;

Os rins filtram cerca de 180 litros de sangue por dia, produzindo em média entre 1 a 2 litros de urina nesse mesmo período (2).

Infusões que podem auxiliar o bom funcionamento dos rins


1. Infusão de Cavalinha (Equisetum)

Chás para os rins: cavalinha

A infusão de Cavalinha parece possuir substâncias com ação antioxidante e propriedades anti-inflamatórias, bem como uma potencial ação diurética (de aumentar o volume e o fluxo de urina).

Segundo a sabedoria popular é utilizada na prevenção e tratamento de retenção de líquidos, incontinência, cálculos renais (vulgo pedras nos rins) e infeções urinárias (3). Todavia, a evidência científica que suporta estes efeitos no organismo humano é insuficiente (4).

Alerta-se que a toma crónica da infusão de Cavalinha pode levar a défices de tiamina (vitamina B1), pois contém um composto chamado tiaminase que degrada a tiamina (5). A toma de infusão de Cavalinha é desaconselhada:

  • Durante a gravidez e lactação, pois não há evidência sobre a sua segurança nesses períodos do ciclo de vida;
  • Em situações de alcoolismo, pois quem sobre de alcoolismo já tem um risco acrescido de possuir défices de tiamina;
  • Na Diabetes, pois pode causar hipoglicemias.

2. Infusão de Dente-de-leão (Taraxacum)

Chás para os rins: dente-de-leão

Considerando a evidência científica disponível sobre a infusão de Dente-de-leão, sabe-se muito pouco sobre os seus efeitos na saúde em geral e na saúde renal em particular. Apesar disso, é uma infusão amplamente utilizada com o objetivo de melhorar a saúde renal (6, 7).

Há alguma evidência sugestiva proveniente de estudos em animais de que a infusão de Dente-de-leão pode ser benéfica para os rins (8), mas, simultaneamente, existem relatos de caso disponíveis na literatura científica, identificando efeitos adversos com um nível de gravidade moderado em indivíduos que consumiram infusões de Dente-de-leão – o que alerta desde logo para que, pelo menos, em fases da vida de maior suscetibilidade, a sua toma devera ser evitada (e. g. gravidez e lactação) (7, 9).

3. Infusão de Hibisco (Hibiscus)

Chás para os rins: de hibisco

A infusão de Hibisco é comummente utilizada com vista ao controlo da pressão arterial, retenção de líquidos e infeções urinárias.

Para o controlo da pressão arterial consumir infusões de hibisco durante 2 a 6 semanas consecutivas pode ter um pequeno efeito de redução da pressão arterial10 mas para as restantes “alegações” a evidência científica disponível é insuficiente para o afirmar.

O consumo da infusão de Hibisco parece ser seguro quando em quantidades moderadas, todavia existem algumas contraindicações (11):

  • Durante a gravidez e lactação, pois não há evidência sobre a sua segurança nesses períodos do ciclo de vida;
  • Da Diabetes, pois pode causar hipoglicemias;
  • Em pessoas com tendência a ter valores baixos de pressão arterial (vulgo tensão baixa), pois podem ter sintomas de hipotensão arterial.

4. Infusão de Óregão (Origanum)

chás para os rins: de orégão

A infusão de Óregão é usualmente utilizada para uma miríade de maleitas, incluindo problemas do renais e urinários, principalmente para evitar infeções urinárias.

Apesar do “largo espectro” de ação advogado, a verdade é que a evidência científica que suporta estes efeitos no organismo humano é insuficiente (12).

O consumo da infusão de Óregão parece ser seguro quando em quantidades moderadas, todavia existem algumas contraindicações (12):

  • Durante a gravidez e lactação, pois não há evidência sobre a sua segurança nesses períodos do ciclo de vida;
  • Na Diabetes, pois pode causar hipoglicemias.

Conclusão


Apesar da “sabedoria popular” nos transmitir que existem infusões que são benéficas para a saúde renal, provavelmente é a hidratação que estas infusões proporcionam que são a grande mais-valia para os nossos rins.

Fica patente que ainda não existe uma robustez na evidência científica, de qualidade, disponível sobre esta matéria e que podem existir alguns riscos quando a toma destas infusões for excessiva ou mal planeada, principalmente em mulheres grávidas ou a amamentar, ou pessoas com outras doenças crónicas onde os compostos presentes nestas infusões possam interferir (e. g. Diabetes).

A informação presente neste artigo, não invalida a necessidade de um acompanhamento personalizado com o seu médico e nutricionista, sobre a sua situação específica.

Veja também:

Fontes:
1. Rocha AMC. (2013). “Teor mineral e capacidade antioxidante em chás e infusões”. Tese de Mestrado. Instituto Superior de Engenharia do Porto. 
2. Seeley RR, Vanputte CL, Tate P, Stephens D. (2013). “Seeley’s Anatomy and Physiology”. McGraw-Hill QDR. 
3. Ra dojevic ID, Stankovic MS, Stefanovic OD, Topuzovic MD, Comic LR, Ostojic AM. “Great horsetail (Equisetum telmateia Ehrh.): Active substances content and biological effects. EXCLI J. 2012 Feb 24;11:59-67.
4. Carneiro DM, Freire RC, Honório TC, Zoghaib I, Cardoso FF, Tresvenzol LM, de Paula JR, Sousa AL, Jardim PC, da Cunha LC. Randomized, Double-Blind Clinical Trial to Assess the Acute Diuretic Effect of Equisetum arvense (Field Horsetail) in Healthy Volunteers. Evid Based Complement Alternat Med. 2014;2014:760683
5. Henderson JA, Evans EV, and McIntosh RA. The antithiamine action of Equisetum. J Amer Vet Med Assoc 1952;120:375-378.
6. Blumenthal M, Goldberg A, Brinckmann J, eds. Herbal Medicine: Expanded Commission E Monographs. Newton, MA: Integrative Medicine Communications; 2000:78-83.
7. Sweeney B, Vora M, Ulbricht C, Basch E. Evidence-based systematic review of dandelion (Taraxacum officinale) by natural standard research collaboration. J Herb Pharmacother 2005;5:79–93.
8. Karakuş A, Değer Y, Yıldırım S. Protective effect of Silybum marianum and Taraxacum officinale extracts against oxidative kidney injuries induced by carbon tetrachloride in rats. Ren Fail. 2017 Nov;39(1):1-6.
9. Posadzki P, Watson LK, Ernst E. Adverse effects of herbal medicines: an overview of systematic reviews. Clin Med (Lond). 2013 Feb;13(1):7-12.
10. Serban C, Sahebkar A, Ursoniu S, Andrica F, Banach M. Effect of sour tea (Hibiscus sabdariffa L.) on arterial hypertension: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. J Hypertens. 2015 Jun;33:1119-27.
11. Micucci M, Angeletti A, Cont M, Corazza I, Aldini R, Donadio E, Chiarini A, Budriesi R. Hibiscus Sabdariffa L. Flowers and Olea Europea L. Leaves Extract-Based Formulation for Hypertension Care: In Vitro Efficacy and Toxicological Profile. J Med Food. 2016 May;19:504-12.
12. Singletary K. Oregano: overview of the literature on health benefits. Nutrition Today 2010;45:129-38.

Nutricionista Rui Jorge Nutricionista Rui Jorge

Professor no Instituto Universitário Egas Moniz e na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Santarém. Nutricionista (C.P.: 0077N) em clínicas médicas e desportivas nas regiões de Lisboa, Margem Sul do Tejo e Santarém. Licenciado em Ciências da Nutrição pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz, Mestre e Doutor em Nutrição Clínica pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto.

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