Danielle Paiva
Danielle Paiva
24 Jan, 2020 - 10:00

Tratamento da candidíase: como controlar este fungo

Danielle Paiva

Incómoda mas curável. O tratamento da candidíase é feito com antifúngicos, orais ou tópicos. Mudanças de hábitos de vida também podem ser úteis. Saiba mais sobre o assunto.

Mulher a tomar antibiótico

tratamento da candidíase é feito através da utilização de medicamentos antifúngicos orais e de uso tópico. A candidíase não é uma doença sexualmente transmissível. Segundo a Sociedade Portuguesa de Ginecologia, cerca de 75% das mulheres terão pelo menos um episódio na sua vida e 40-45% terão dois ou mais, 20% são portadoras assintomáticas, sendo que na gravidez pode atingir os 40% (1).

O que é a candidíase?

Tratamento da candidiase o que e

A cândida é um fungo que faz parte do organismo humano. São considerados oportunistas porque, em condições de saúde, não causam doença. O fungo reside na pele e nas mucosas.

A candidíase manifesta-se por corrimento vaginal branco, grumoso e espesso, tipo requeijão, inodoro, que forma placas aderentes às paredes vaginais, vermelhidão, edema e fissuras vulvares.

A mulher refere habitualmente ardor e comichão vulvar e dispareunia, dor na relação sexual. Com base na apresentação clínica, microbiológica, factores do hospedeiro e resposta ao tratamento, a candidíase vulvovaginal pode ser classificada em não complicada e complicada.

Candidíase não complicada

Este tipo de candidíase pode ser:

  • Esporádica ou pouco frequente
  • Ligeira a moderada
  • C. albicans provável
  • Mulher não imunodeprimida

Candidíase complicada

Já este tipo de candidíase é:

  • Recorrente
  • Severa
  • Candidíase não-albicans
  • Mulher imunodeprimida, com diabetes, descompensada ou debilitada

Considera-se candidíase recorrente se há 4 ou mais episódios sintomáticos por ano. É particularmente importante documentar a frequência dos episódios, estabelecer o diagnóstico e confirmar por meio de cultura (10-20% das culturas identificam espécies de C. glabrata e outras não-albicans). Estão frequentemente associadas a factores de risco (diabetes, imunodeficiência, uso de corticoterapia ou uso frequente de antibióticos) (1).

Como aparece a candidíase?

Pequenos traumas durante o ato sexual, hábito de usar roupas muito apertadas ou de fibras sintéticas, ou ainda de permanecer muito tempo com roupas de banho molhadas ou húmidas podem favorecer o ambiente para proliferação do fungo.

Alguns estudos referem que o aumento da proliferação do fungo pode estar relacionado com uma dieta alimentar rica em açúcares e carboidratos e também com o stress.

Algumas situações tornam o tratamento da candidíase mais complicado, mas são atitudes que podem ser mudadas, nomeadamente:

  • No verão, a candidíase é comum devido à alta frequência a praias e piscinas, além do uso contínuo de biquínis molhados, contatos com areia e cloro – situações que potencialmente mudam o pH ou alteram a flora vaginal, permitindo a instalação da infeção
  • No inverno, roupas apertadas e abafadas em excesso prejudicam a oxigenação vulvovaginal e também podem propiciar as infeções. Além disso, o abuso de álcool  e carboidratos, mesmo os chocolates,  auxiliam na acidificação vaginal e favorecem as infeções fúngicas. A maior frequência de infeções nesta época, como gripes e constipações, principalmente se foi necessário o uso de antibióticos, também pode contribuir para a ocorrência da candidíase (2)

Como evitar a proliferação do fungo?

tratamento da candidiase cuidados a ter

Tudo o que permitir uma boa ventilação dos órgãos genitais é benéfico como forma de prevenir a infeção e facilitar o tratamento da candidíase:

  • Dormir sem cuecas e utilizar cuecas de algodão
  • Evitar roupas de tecidos sintéticos e muito apertadas
  • Não utilizar antibióticos se não for prescrito pelo médico
  • Evitar o uso contínuo de absorventes internos
  • Cuidar da higiene íntima
  • Preferir o uso de papel higiénico branco e sem perfume
  • Usar preservativo em todas as relações sexuais

Ter uma rotina saudável e sem stress também é fundamental para manter o sistema imunológico fortalecido (2).

Diagnóstico da candidíase

O diagnóstico é essencialmente clínico e pode ser confirmado laboratorialmente com zaragatoa vaginal, por exame microscópico a fresco e/ou cultural (em meio de cultura específico para fungos leveduriformes). Se possível, devem ser distinguidas se albicans ou não- -albicans. Culturas repetidas com a mesma espécie de Candida não-albicans (usualmente C. glabrata), indica redução da sensibilidade aos agentes antifúngicos (1).

Tratamento da candidíase

tratamento da candidiase alivio dos sintomas

A candidíase, se não associada a outra infeção vaginal, ocorre em pH ácido, e quando a acidez vaginal é excessiva, soluções de bicarbonato na proporção de uma colher de sopa para 500 ml a 1l de água podem aliviar a paciente imediatamente. Há décadas que se usam soluções caseiras para alívio dos sintomas em casos menos agressivos não complicados (2).

Indicações de tratamento da candidíase com medicamentos:

  • Mulheres sintomáticas
  • Parceiro sexual sintomático

O esquema de tratamento deve ser diferente consoante se trate de candidíase não complicada ou complicada. Consideram-se ainda as candidíases complicadas severas, as recorrentes e as candidíases nalgumas situações especiais.

Os esquemas orais e intravaginais são igualmente eficazes, com alívio dos sintomas e culturas negativas em 80-90% das doentes que completam o tratamento.

Tratamento oral

Os medicamentos mais utilizados para o tratamento da candidíase contêm:

  • Fluconazol 150 mg, toma única
  • Itraconazol 200 mg, 2 id, toma única ou 1 g, 2 tomas (12/12h)

Tratamento intravaginal

Neste caso, os princípios ativos são os seguintes:

  • Clotrimazol creme vaginal, 1%, 6 dias
  • Clotrimazol comprimido vaginal 500 mg, dose única
  • Clotrimazol comprimidos vaginais 200 mg, 3 dias consecutivos
  • Miconazol creme vaginal 2%, 6 dias
  • Econazol creme vaginal 1%, 6 dias ou Econazol óvulo vaginal 150 mg, 3 dias
  • Sertaconazol óvulo vaginal 300 mg, dose única ou Sertaconazol comprimido vaginal 500 mg, dose única ou Sertaconazol creme vaginal 2%, 6 dias
  • Isoconazol creme vaginal 1%, 6 dias
  • Tioconazol comprimido vaginal 100 mg, 6 dias
  • Fenticonazol creme vaginal 2%, 6 dias ou Fenticonazol óvulo vaginal 200 mg, 6 dias
  • Nistatina comprimido vaginal, id, 14 dias

Quando o prurido vulvar é intenso, a aplicação tópica de hidrocortisona em creme dá um alívio sintomático mais rápido. Nas candidíases recorrentes 30-40% regridem após tratamento prolongado. Nestas, o tratamento do parceiro sexual é discutível e é recomendada a dupla abordagem terapêutica (oral e tópica).

Tratamento da candidíase: situações especiais

Candidíase por Candida não albicans, o tratamento óptimo não está definido. A Candida glabrata e Krusei são resistentes ao fluconazol. Recomenda-se o tratamento oral ou tópico, 7 a 14 dias, com outro imidazol, ou a utilização intravaginal de um manipulado de ácido bórico, 14 dias (comprimido vaginal, 600 mg)

Infeção por VIH

As vulvovaginites sintomáticas são mais frequentes, contudo, o tratamento adoptado não difere das mulheres VIH negativas (1).

Terapia fotodinâmica

A Terapia Fotodinâmica (TFD) é uma modalidade que vem sendo utilizada no tratamento de diversas patologias. Inúmeros estudos demonstram que alguns fotossensibilizantes podem ser ativados por luz e produzir efeito fungicida e bactericida, sem prejuízo para as células humanas (2).

Probióticos

Os estudos científicos comprovam que há espaço para o uso de probióticos no tratamento da candidíase vulvovaginal de repetição, principalmente se associados a terapia convencional, considerando a importância do equilíbrio da microbiota e da ação dos Lactobacillus sp. contra a Candida. Entretanto, essa opção terapêutica ainda é pouco utilizada.

Na gravidez

Não se recomenda o uso de antifúngicos orais, preferindo-se o tratamento com cremes vaginais de nistatina por 14 dias ou clotrimazol 1% por 7 dias.

Os antifúngicos orais são drogas classe C, em altas doses há relatos de teratogenia. Não há evidências sobre a necessidade de tratar grávidas assintomáticas (30 a 40%).

Não é recomendado o tratamento da candidíase em mulheres assintomáticas. A identificação de candida num exame cultural numa mulher assintomática não deve ser tratada, porque cerca de 10-20% das mulheres apresentam estes fungos na vagina. Não é recomendado o tratamento de parceiros sexuais assintomáticos (2).

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