Danielle Paiva
Danielle Paiva
08 Jan, 2020 - 14:26

Displasia da anca no bebé: como identificar e tratar

Danielle Paiva

A displasia da anca no bebé é uma doença frequente que pode evoluir para artrose da anca com necessidade de cirurgia, quando não tratada atempadamente.

Displasia da anca no bebé: como identificar e tratar
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A displasia da anca no bebé consiste num espectro de alterações anatómicas que ocorrem a nível do acetábulo ou da cabeça do fémur, na região que une a perna a anca, e que condicionam instabilidade da anca. A sua apresentação depende do grau de instabilidade articular e varia desde a displasia à luxação da articulação coxo-femural. Em 80% dos casos é unilateral e mais frequente na anca esquerda.

De facto, trata-se de uma doença comum, cujo diagnóstico por vezes tardio está associado a elevados graus de complicações, pelo que o seguimento de protocolos de rastreio aliado a uma correta avaliação clínica são fundamentais (1).

Que recém nascidos sofrem da displasia da anca no bebé?

displasia da anca no bebé

Estima-se que a displasia da anca atinja entre um a dois em cada 1000 recém-nascidos. Estudos baseados em rastreios ecográficos sugerem que 40% dos recém-nascidos apresentam instabilidade da anca, mas 90% destes casos resolvem até às seis semanas sem necessidade de tratamento. (1)

Quais as causas da displasia da anca no bebé?

Os fatores de risco para a doença incluem fatores endógenos, como o sexo e a história familiar, e fatores exógenos, relacionados com limitação da mobilidade intrauterina e associados ao posicionamento intrauterino e pós-natal (2).

  • Pode ser causada pelas hormonas que a mãe liberta para relaxar os ligamentos no momento do nascimento, levando a que as ancas do bebés fiquem com maior flexibilidade;
  • Ser do sexo feminino, a relaxina materna ( o hormônio liberado para relaxamento das ancas no parto) parece ter uma ação mais intensa nas raparigas;
  • Estar apertado no útero, algo que é mais comum acontecer nas primeiras gravidezes quando o útero está mais apertado ou quando existe menos líquido amniótico;
  • Estar em posição pélvica antes de nascer, isto é, com a cabeça virada para cima e não para baixo, especialmente se associada a hiperextensão do joelho;
  • Existência de casos na família;
  • Embrulhar o bebé muito apertado e/ou com as pernas esticadas e apertadas uma contra a outra;
  • Ter outras condições de nascimento causadas pela sua posição no útero, como um torcicolo ou um pé torto congénito.

Rastreio da displasia da anca no bebé

Displasia da anca no bebé

Os protocolos de rastreio da displasia da anca no bebé têm como objetivo o diagnóstico precoce associado a tratamentos menos invasivos e mais eficazes e a um melhor prognóstico.

No protocolo da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e Traumatologia o rastreio baseia-se na avaliação de fatores de risco e na presença de instabilidade da anca à observação e deve ser realizado em todas as consultas de vigilância de saúde infantil, cuja periodicidade se encontra definida no Programa Nacional de Saúde Infantil e Juvenil (publicado na Norma da Direção Geral de Saúde número 10/2013), bem como durante exames de saúde oportunistas realizados em situação de doença aguda, desde o nascimento até à idade da marcha (2).

Como avaliar a displasia da anca no bebé?

Os sinais clínicos que podem estar presentes doença dependem da idade da criança, como não há dor, deve ser observado (1):

Após o nascimento

A pesquisa de sinais de instabilidade da anca deve ser realizada a todos os recém-nascidos, pelo pediatra, ainda na sala de parto.

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As manobras devem ser realizadas delicadamente em cada um dos membros em separado, sem fralda, com o recém-nascido ou lactente tranquilo e num ambiente aquecido. Quando positivas em simultâneo, estas manobras têm uma especificidade para o diagnóstico de 98-99% e uma sensibilidade de 87-99%.

Abaixo dos três meses

A estabilidade da anca deve ser avaliada com as manobras específicas utilizadas após o nascimento, em todas as consultas com o pediatra e no centro de saúde.

A partir dos três meses

Os melhores indicadores da doença são a limitação da abdução das ancas e a dismetria dos membros ( membros com tamanhos diferentes).

Após o início do caminhar

Ao contrário daquilo que é vulgarmente assumido, a displasia da anca do bebé não está associada a um atraso do início da marcha.

Pode observar-se claudicação (dor ao caminhar), por marcha de Trendelenburg (o corpo não é capaz de manter o centro de gravidade no lado da perna que está no chão), associada a fraqueza dos músculos abdutores com queda da bacia para o lado oposto do membro afetado.

A hiperlordose é também um sinal clássico, podendo existir outros sinais de suspeita como dismetria dos membros ou associação com genu valgum.

Exames complementares de diagnóstico

displasia da anca no bebé

Na presença de fatores de risco ou de instabilidade da anca à observação, devem ser requisitados exames complementares que permitam confirmar ou excluir a displasia da anca no bebé.

A ecografia é o exame de eleição até aos quatro a seis meses. Após os quatro a seis meses deve ser pedida a radiografia da bacia, em incidência antero-posterior, com as ancas em posição neutra (2).

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O meu bebé tem fatores de risco para displasia da anca: como proceder?

De acordo com as recomendações da Sociedade Portuguesa de Ortopedia, na presença de história familiar, apresentação pélvica, história de oligohidrâmnios (pouco líquido amniótico), deformidades congénitas do pé, torcicolo congénito e assimetria das pregas está indicada a realização de ecografia das ancas às seis semanas de vida.

No entanto, uma ecografia normal não exclui a doença, pelo que deve manter-se a vigilância periódica nas consultas de saúde infantil.

Na presença de sinais de instabilidade da anca à observação deve ser realizada ecografia das ancas até aos quatro meses de idade e radiografia da bacia se a criança tiver idade superior a quatro meses (1).

Os critérios de referenciação numa consulta de ortopedia infantil são:

  • Instabilidade ou luxação da anca ao exame físico, com manobras de Ortolani ou Barlow positivas, observadas em qualquer idade;
  • Limitação ou assimetria na abdução da anca ou encurtamento do fémur, com sinal de Galeazzi positivo;
  • Marcha de Tredelenburg, dismetria dos membros inferiores ou hiperlordose lombar;
  • Sinais sugestivos de displasia da anca no bebé na ecografia das ancas ou na radiografia da bacia (1).

Tratamento da displasia da anca no bebé

O tratamento consiste em manter a redução da cabeça do fémur, dentro do acetábulo, com o objetivo de promover o desenvolvimento da cabeça do fémur e do acetábulo. Abaixo dos seis meses, está recomendado o tratamento com aparelhos de abdução das ancas.

O aparelho de Pavlik é o usado mais frequentemente, permitindo a redução em 95% das crianças tratadas antes dos seis meses de idade. O aparelho deve ser colocado por um ortopedista infantil, a fim de evitar complicações. A duração do tratamento depende da idade da criança e da gravidade da doença.

Na impossibilidade de reduzir a anca com ortótese, porque este tratamento falhou ou porque a criança é mais velha, esta pode ser tratada por tração e aparelho gessado, ou tenotomias e aparelho gessado. Após os dezoito meses de idade ou na falência dos tratamentos anteriores, está indicada a redução por cirurgia da anca (2).

Acompanhamento e complicações

As crianças tratadas para displasia da anca no bebé devem realizar radiografias da bacia seriadas para avaliar o desenvolvimento da anca e a presença de complicações ou sequelas.

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O tempo de seguimento depende da idade à data do diagnóstico, da gravidade da doença e do sucesso do tratamento. As complicações incluem necrose avascular da cabeça do fémur (onde perde-se parte do osso por falta de circulação sanguínea) e displasia residual (1).

Veja também:

Fontes

1. Displasia de desenvolvimento da anca. 2016. Revista de Pediatria do Centro Hospitalar do Porto. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/pdf/nas/v25n4/v25n4a07.pdf
2. SANT ‘ANNA. Francisco. 2009. Doença displásica da anca – conceitos básicos e orientações em Medicina Geral e Familiar. Hospital Dona Estefânia. Disponível em: http://repositorio.chlc.minsaude.pt/bitstream/10400.17/460/1/Rev%20Port%20Clin%20Geral%202009_25_2.pdf