Crónica #2: não são perguntas normais

Crónica #2: não são perguntas normais

A minha gravidez sem pós de perlimpim

Há perguntas que não se fazem a ninguém, nomeadamente, sobre bebés. Algumas das que me mataram por dentro antes de engravidar.

Muito se escreve sobre aquilo que não se deve dizer a uma grávida ou a alguém que começou uma vida a dois e são muitos os temas proibidos. Mas o que mais me irrita é quando oiço desvalorizar as alarvidades que fui ouvindo nos últimos quatro anos. Não podes ficar assim, são perguntas normais, dizem. Só que não. 

As pessoas acham que podem dizer-me que já sou velha para ter filhos. Tenho 33 anos. Também parece ser aceitável perguntar “mas quando é que tens filhos?” ou “não achas que já está na hora de ter filhos?” Como se eu vos devesse alguma coisa, pessoas, ou estivesse a cometer um crime lesa-pátria por não procriar.

As pessoas dizem-me, mesmo, com a sua capa de sabedoria vestida, ar sério, uma pitada de choque e uma colher de sopa de cobrança que já estou velha para ter filhos. E eu não posso ficar assim porque são perguntas normais. Não posso ficar aborrecida, não posso não gostar e não posso dizer que não são coisas que se perguntem. As pessoas podem espetar-me a faca e torcer mas eu não posso gritar de dor.

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Só que não. E se estou a tentar engravidar desde o dia em que saí da igreja e não consigo? Ou já engravidei sete vezes e nenhuma vingou? Talvez sofra de endometriose, se calhar tenho miomas, ovários poliquísticos ou, pior, síndrome do ovário poliquístico. Se calhar, as minhas trompas estão entupidas e tenho que fazer o mais doloroso exame de que há memória. E se os espermatozoides do meu marido são insuficientes, lentos, na sua maioria anormais ou não existem mesmo espermatozoides nenhuns? 

Lanço estas perguntas mas os sinos não soam. Oh por favor, não sejas pessimista, dizem. Por favor, não sejas ignorante, apetece-me gritar! Há pessoas que, feliz ou infelizmente, só conhecem outras que engravidaram com o ar. Escrevo “infelizmente” porque a ignorância alheia e a impermeabilidade dos demais ao mundo fora da sua janela está, por estes dias, a um danoninho de me enlouquecer. Diz-se que a ignorância é uma benção. Só que não. 

Nas minhas relações (mais ou menos diretas) são cinquenta e cinco, cin-quen-ta-e-cin-co, os casais com dificuldades para engravidar. Cinquenta e cinco. A sério, ​parem e pensem lá um bocadinho porque.... talvez, essa pessoa a quem fazem perguntas agressivas sobre filhos, esteja a viver os piores anos da sua vida, talvez esteja a amealhar, cêntimo a cêntimo, as centenas de euros que vão custar os tratamentos de fertilidade, talvez esteja em profundo sofrimento porque acabou de perder mais um filho ou talvez tenha recebido mais um teste negativo depois da quarta fertilização in vitro.

E essas pessoas não têm que vos dar conta do seu rosário. Talvez seja importante ter mais cuidado com aquilo que achamos normal perguntar aos outros.

Porque “vocês querem ter filhos?” é muito diferente de “estás à espera de quê para ter filhos?”

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