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Onde pára o tempo: a noção de tempo na gravidez

O tempo na gravidez cada vez mais não é respeitado, pela correria do dia-a-dia, pelo stress, pela ansiedade em ver o bebé. Mas será isto o mais correto?

Onde pára o tempo: a noção de tempo na gravidez
Será este tempo respeitado?

O tempo é um tema recorrente na sociedade de hoje. Tudo roda à volta do tempo. Começamos o nosso dia com um alarme que nos diz que horas são, começamos a nossa manhã atrasados para o trabalho, corremos e stressamos e o nosso dia já está marcado, continuamos a correr e a stressar o dia todo. Há tanto para fazer, enchemos as nossas agendas com todo o tipo de reuniões e tarefas e fazemo-nos tão ocupados para podermos fazer parte de uma comunidade stressada sempre em movimento.

Há muito tempo atrás, a natureza determinava a passagem do tempo. A Lua, o sol, as estações determinavam o que plantar, colher e quando, quando trabalhar e descansar. Os seres humanos estavam mais conectados consigo próprios e ouviam os seus corpos, permitiam-se ter tempo para receber o dia a noite, o tempo meteorológico, as estações e afins. Respeitavam a sua própria natureza. Em muitas sociedades, ainda governadas por mulheres, eram elas que conduziam o ritmo da comunidade.

Hoje, o tempo regula as nossas vidas. Os relógios, a velocidade pouco natural dos processos, a produção cada vez mais rápida, a urgência que se encontra por trás de tudo está muito presente. Mal temos tempo para respirar com tanta coisa para fazer, para mostrar o que temos feito e não parar para pensar se é isso que queremos para nós mesmos.

Tempo na gravidez: será mesmo este tempo “definido” pelo bebé?

epidural e tempo na gravidez

E toda esta velocidade é muito manifestada nas gravidezes e nos nascimentos de hoje. Os bebés não têm mais tempo para mostrar ás suas mães que já eles estão prontos para nascer. As mães já não ouvem os seus corpos e a sua sabedoria e poucos são aquelas que realmente se conectam aos seus bebés, a não ser através de máquinas que lhes asseguram que tudo está bem com ambos. E os médicos querem apressar-se a ir para casa ter com as suas famílias, para os seus dias de folga e para as suas vidas. O tempo é apenas um detalhe que todos podem ignorar. Hoje, muitas mulheres confiam mais nos seus médicos do que em si mesmas.

Não significa que agora tudo deve voltar atrás e que devemos por de lado as máquinas. Não significa que as cesarianas não devem ser feitas ou um nascimento natural é o único caminho digno e possível. O importante é que as mulheres estejam mais em contacto com o que elas querem, com o que elas sabem e com a forma como gostariam de ter os seus bebés, e isso deve ser respeitado sempre que possível. Desde a gravidez até o parto, tudo tem de levar o tempo necessário e nenhum bebé deve nascer dias, semanas ou até meses antes de estarem prontos para isso.

Tempo na gravidez: uma vivência atual

parto natural e tempo na gravidez

Há pouco tempo atrás, escreveram num blog a história de uma mulher que partilhava a sua experiência na Dinamarca, acerca do nascimento da sua sobrinha que ocorreu num ambiente hospitalar. Foi um nascimento de 44 horas com muita paciência e confiança. Ninguém estava com pressa, todos trabalharam para a mãe e o bebé tomarem o seu tempo no evento que estava a acontecer e no final, esta pessoa estava feliz por ter visto isso a acontecer.

A sua pergunta era muito curiosa, por que devemos surpreender-nos por causa de um nascimento de 44 horas? Foi o que tinha de acontecer e tudo estava perfeito. E acima de tudo, todos apenas estavam com o que estava a acontecer, ninguém quis mudar nada. Todos respeitaram a mãe, o bebé e o tempo como foi.

Normalmente, queremos evitar a dor e obter prazer, então se calhar é por isso que há tanta pressa durante um trabalho de parto. As mães querem fugir da dor, fogem de uma realidade que não conhecem, os maridos não podem ajudar as suas esposas e assim eles também querem que seja rápido, os médicos tentam ajudar dando as suas epidurais e fazendo as cesarianas, mas por que não, todos os envolvidos ficarem apenas com o que está a acontecer no momento, mesmo que seja doloroso ou assustador?

Hoje, já começamos a ver algumas mulheres à procura de soluções diferentes nos seus trabalhos de parto, questionando as suas opções, querendo respeitar os seus corpos, os seus bebés, os seus processos e o seu próprio tempo. E tudo o que precisamos é saber que existem opções que podemos escolher e não precisamos correr contra o tempo. Escolher de forma informada e consciente é fundamental. E assim podemos aceitar as coisas como elas acontecem, e está tudo bem.

Afinal, o tempo não é um problema, nunca foi.

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Teresa Leite Gonçalves Teresa Leite Gonçalves

Teresa Leite Gonçalves é fundadora do Projecto Vida em Transição, co-creadora do Projecto Vida Desperta, fundadora do Jardim de Infância Caracol ao Sol e fundadora do blog Uma mãe Nasceu. Viveu maior parte da sua vida no Porto, onde nasceu, mas após ter saído de Portugal para trabalhar percebeu que não queria viver uma vida na cidade, deixou o trabalho de Marketing e juntamente com o marido, instalaram-se no interior de Portugal na Serra do Açor, onde tenta viver uma vida mais saudável e sem tanto impacto ambiental. Depois de ter tido os seus dois filhos de parto natural em casa, percebeu que, quando grávidas, as mulheres não dispõem de muita informação para tomarem decisões conscientes e juntamente com outras mulheres, decidiu iniciar um movimento familiar para um parto humanizado – Uma mãe Nasceu.