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Shots de erva trigo vão fazê-lo mais saudável?

Os concentrados de plantas, particularmente os shots de erva trigo, estão na moda por estarem carregados de vitaminas e outros compostos antioxidantes.

 
Shots de erva trigo vão fazê-lo mais saudável?
O que são? De onde vieram? Porque são tão populares?

Os shots de erva trigo são dos mais recentes “musts” nutricionais, para aqueles que procuram um produto carregado de vitaminas antioxidantes e aminoácidos, e que ajude a desintoxicar o organismo da correria do dia-a-dia.

A erva trigo refere-se às folhas jovens da planta de trigo e não ao cereal, o comum Triticum aestivum. É também conhecida como “sangue verde” devido ao elevado teor de clorofila, que constitui cerca de 70% de todos os componentes químicos presentes nesta planta.

A que se deve a fama dos shots de erva trigo?


A suposta riqueza em vitaminas, minerais, aminoácidos, flavonoides e enzimas (como a superóxido dismutase e a citocromo oxidase) fizeram com que a popularidade dos shots de erva trigo crescesse ao ponto de ser testada no tratamento de alergias, asma e mesmo cancro.

O seu conteúdo em bioflavonoides pode ter um impacto no controlo das doenças inflamatórias intestinais. O elevado conteúdo de clorofila – cuja estrutura é semelhante à da hemoglobina humana – fez com que esta planta fosse pensada como adjuvante em doenças do sangue como a talassemia e a anemia hemolítica (1).

No entanto, e embora existam vários estudos laboratoriais a nível molecular, in vitro e em modelos animais no sentido de testar o potencial benéfico para a saúde, poucos são os ensaios clínicos em humanos disponíveis.

No meio de tantos “ses”, estão as dúvidas quanto à funcionalidade em humanos e podem estar escondidos potenciais riscos. Serão os shots de erva trigo realmente tão benéficos?

Shots de erva trigo: supostos benefícios associados


shots de erva de trigo

O nome “sangue verde” é atribuído devido ao elevado teor de clorofila desta planta. A sua riqueza em vitaminas A, C, E e do complexo B, em minerais como cálcio, fósforo, magnésio, potássio, zinco, boro e molibdénio e em aminoácidos, bioflavonoides e várias enzimas intervenientes nos processos oxidativos despertaram o interesse para a utilização da erva-trigo em contexto clínico (1).

1. Erva trigo no tratamento de doenças do sangue

A beta-talassemia é uma doença genética na qual há produção de cadeias anormais de globulinas β, necessárias para a síntese da hemoglobina adulta ou HbA. Doentes com talassemia continuam a produzir as cadeias γ (gamma) no sentido de sintetizar mais hemogbina fetal (HbF) e compensar o défice em HbA (1).

Neste sentido, a indução da síntese de HbF pode melhorar significativamente a concentração de oxigénio arterial, melhorando o estado do doente. Foi verificado, in vitro, que a produção de HbF aumenta 3 a 5 vezes após o consumo de erva-trigo (2). No entanto, ressalva-se que o que se verifica em células isoladas pode não se verificar num sistema orgânico integrado como o corpo humano.

Foi ainda proposto que o extrato da erva trigo, quando ingerido diariamente, pode diminuir o volume de sangue transfundido bem como aumentar os intervalos entre transfusões. Um estudo piloto em doentes com talassemia concluiu que metade dos doentes reduziu a necessidade de transfusão sanguínea, que os intervalos entre transfusão aumentaram 30 % (3).

O efeito da erva trigo nestas doenças pode estar associado ao teor de vitaminas C e E e bioflavenoides com ação antioxidante nos glóbulos vermelhos (3). No entanto, e até à data, não se conhecem mais ensaios clínicos que comprovem a ação desta planta nas doenças do sangue (muito menos meta-analises), pelo que é impossível extrapolar imediatamente os resultados verificados para todos os doentes.

2. Erva trigo como terapêutica coadjuvante no cancro

Devido ao potencial antioxidante e à riqueza em clorofila da erva trigo, foi proposto um efeito anticarcinogénico, uma vez que todas as células do corpo – incluindo as cancerígenas – são sensíveis às espécies reativas de oxigénio (ROS).

Outro constituinte com propriedades semelhantes é o ácido abscínsico, uma hormona vegetal que neutraliza o efeito da gonadotrofina coriónica humana, produzida por alguns tipos de células cancerígenas (1).

Tentativas de melhorar o estado imunitário de doentes cancerosos usando uma dieta alcalina (o pH da erva trigo é de 7.4) falharam em demonstrar melhorias no número na contagem de glóbulos brancos (4).

A quercitina, um dos bioflavonoides presentes na erva trigo, apresenta um possível papel protetor nos cancros do cólon, pulmão, próstata e mama. Mais uma vez, os resultados foram apenas demonstrados em estudos in vitro e ensaios pré-clínicos (5).

Sem ensaios clínicos que permitam transpor estes benefícios para humanos, não podemos extrapolar os efeitos de um composto isolado para os “possíveis” benefícios de um alimento ou suplemento que contem esse mesmo composto. Em termos de falácias, os shots de erva trigo parecem constituir um caso clássico de generalização precipitada.

3. Erva trigo no tratamento das doenças inflamatórias intestinais

As doenças inflamatórias intestinais (DII) incluem a doença de Crohn e a colite ulcerosa, ambas caracterizadas por hemorragia retal, diarreia e dor abdominal. A apigenina é um dos bioflavenóides da erva trigo cuja atividade anti-inflamatória e antioxidante está a ser estudada no tratamento da colite ulcerosa.

Em modelos animais, foi demonstrado que a administração de apigenina diminui o status oxidativo nas células do fígado de ratos cancerosos (6).

Em termos de ensaios clínicos, foi realizado uma intervenção em 24 adultos com colite ulcerosa, de forma a avaliar o impacto dos shots de erva trigo na atividade e severidade dos sintomas da doença. Ao final de 4 semanas de intervenção, foram reportadas melhorias no sangramento retal e na dor abdominal.

Embora não se tenham registado efeitos secundários, o sabor intenso do extrato utilizado resultou em náuseas em alguns dos doentes. No entanto, limitações como o tempo de follow-up muito curto e o facto de o ensaio não ter sido completamente duplamente cego – uma vez que o sabor do extrato de erva trigo é muito característico – não permitem avaliar a segurança da intervenção a longo prazo (7).

4. Erva trigo e saúde hepática

A ação da colina na saúde hepática está descrita e confirmada há mais de 80 anos. A sua ação lipotrófica aumenta a oxidação dos lípidos contidos nas células do fígado, contribuindo para a sua regeneração (89).

Para além da colina, outros compostos, como o índol-3-carbinol, são capazes de promover a atividade das enzimas de primeira e segunda fase hepáticas, contribuindo para a capacidade desintoxicante do órgão (10).

Relativamente aos shots de erva trigo, entramos novamente no campo da suposição e da generalização precipitada uma vez que, mesmo rica nestes compostos, nenhum estudo foi conduzido com o produto em si que avalie o seu impacto enquanto agente desintoxicante e hepatoprotetor.

5. Erva trigo e tratamento de alergias/asma

O elevado conteúdo vitamínico da erva trigo tem sido apontado como a resposta para o seu possível efeito antialérgico. Efetivamente, o ascorbato tem um importante papel antioxidante, diminuindo a quantidade de compostos oxidativos que lesam as células.

Há estudos em que a ingestão de vitamina C, E e β-caroteno melhora a função pulmonar e respiratória bem como a sintomatologia em caso de infeção (1112). Por outro lado, a ingestão de vitamina E parece reduzir a resposta alérgica e a frequência de sensibilização nas doenças alérgicas (13).

O princípio da generalização precipitada aplica-se também neste caso, uma vez que não há história de ensaios clínicos envolvendo a erva trigo e o controlo das hipersensibilidades.

6. Erva trigo e fatores de risco cardiometabólico

Uma revisão sistemática de ensaios em humanos do impacto dos super-alimentos nos fatores de risco da síndrome metabólica identificou um estudo com erva trigo.

Nele, foi avaliado o impacto do seu consumo no perfil lipídico e sintomas da menopausa em 59 mulheres, utilizando 3,5 g de extrato seco durante 10 semanas. Foram verificadas diminuições nos níveis de pressão arterial bem como nos valores séricos colesterol total, colesterol LDL e de triglicerídeos, sem alterações nas concentrações de glicose e colesterol HDL.

São necessários mais estudos em outros grupos populacionais para poder confirmar este efeito em humanos de uma forma geral.

7. Erva trigo e interações

Os shots de erva trigo são geralmente bem tolerados mas, devido ao seu sabor característico, podem causar náuseas. Uma vez que esta planta é bastante rica em vitamina K, aconselha-se algum cuidado nos doentes hipocoagulados, devido à possível interação dos anticoagulantes orais como a varfarina. O controlo da alimentação em doentes hipocoagulados é essencial para evitar a complicação mais frequente – a hemorragia severa.

Conclusão


shots de erva de trigo

A riqueza em compostos antioxidantes – a par do mediatismo das redes sociais – tem vindo a ser a principal razão que leva ao consumo deste suplemento na forma de shots, cápsulas ou extratos secos.

A alegação de que desintoxica o corpo e que reconstitui o nosso sangue é baseada em ensaios clínicos de qualidade duvidosa, sem que haja evidência científica suficiente para construir meta-análises que resumam os resultados encontrados.

Para além disso, todas as revisões existentes relativamente ao assunto citam maioritariamente estudos in vitro ou ensaios pré-clínicos, apelando frequentemente à falácia da generalização precipitada. Trocando por miúdos, são citados estudos em que um ou mais compostos apresentam determinado benefício (in vitro, em animais ou em humanos) e, uma vez que os shots de erva trigo são supostamente ricos nesse composto, são automaticamente promotores desse benefício.

Outra das preocupações que surge é a do equilíbrio nutricional das refeições. O consumo de shots de erva trigo constitui uma escolha pobre em hidratos de carbono complexos, cujo impacto na saúde em geral está mais do que estudado e documentado.

Uma colher de chá do extrato seco (5 g) representa apenas 13 Kcal e menos de 1 grama de proteína; nem o conteúdo em fibra é assim tão apreciável (2,7 g por colher de chá).

É certo que há sugestões para incluir a erva trigo em sumos e batidos mas as carências nutricionais apenas são diluídas uma vez que batidos e sumos detox apresentam riscos para a saúde, quando consumidos a longo prazo.

Resumindo, abordagens como as dos shots de erva-trigo não são poções mágicas. Para além do preço exorbitante, não vão compensar a pobreza nutricional de uma dieta e as suas propriedades desintoxicantes são no mínimo duvidosas.

Não parece haver risco associado ao consumo de shots de erva trigo (a menos que seja hipocoagulado e tome varfarina). Um padrão alimentar equilibrado, contendo 5 a 8 porções de hortofrutícolas por dia tem certamente uma riqueza nutricional superior e tem um sabor bem melhor, com certeza.

Veja também:

Fontes

1. Padalia, S., et.al. (2010). Multitude potential of wheatgrass juice (Green Blood): An overview. Disponível em:
http://www.cysonline.org/article.asp?issn=2229-5186;year=2010;volume=1;issue=2;spage=23;epage=28;aulast=Padalia 

2. Reynolds, C., (2005). A DNA-technology-based cellular assay used to measure specific biological activity in a wheatgrass extract. Disponível em:
https://www.safesalt.com.au/Wheatgrass/dnatechnology.pdf 

3. Marwaha RK, et.al. (2004). Wheat grass juice reduces transfusion requirement in patients with thalassemia major: A pilot study. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15297687 

4. Pokhrel, N. (1999). Use of natural food on preventing bone marrow depression in cancer patients who are under chemotherapy. Disponível em:
https://healthnet.org.np/reports/nita/nita.pdf 

5. Wheat, J., Currie, G. (2007). Herbal medicine for cancer patients: An evidence based review. Disponível em:
http://ispub.com/IJAM/5/2/4309 

6. Singha V, et.al. (2004). Protective role of Apigenin on the status of lipid peroxidation and anti-oxidant defence against hepatocarcinogenesis in Wis-tar albino rats. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15185843 
7. Ben-Arye E, et.al. (2002). Wheat grass juice in the treatment of active distal ulcerative colitis: arandomized double-blind placebo-controlled trial. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11989836 
8. Best CH, Ridout JH. (1933). The effects of cholesterol and choline on deposition of liver fat. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1394815/ 

9. Best CH, et.al. (1931). The action of choline and other substances in the prevention and cure of fatty livers. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1266810/ 

10. Christine B, et.al. (2001). Dietary Indoles and Isothiocyanates That Are Generated from Cruciferous Vegetables Can Both Stimulate Apoptosis and Confer Protection against DNA Damage in Human Colon Cell Lines. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11507062 

11. Hemila H. (1992). Vitamin C and the common cold. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23440782 

12. Grievink L, et.al. (1998). Dietary intake of antioxidant (pro)-vitamins, respiratory symptoms and pulmonary function: the MOR-GEN study. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1745167/ 
13. Andrew F, et.al. (2000). Dietary vitamin E, IgE concentrations, and atopy. Disponível em:
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11075775 

Nutricionista Hugo Canelas Nutricionista Hugo Canelas

Hugo Canelas é nutricionista (CP 1389N), licenciado em Ciências da Nutrição pela Escola Superior de Biotecnologia e mestre em Nutrição Clínica pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. É professor assistente convidado da Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico de Brangança desde 2018 e Nutritional Consultant do projeto de perda de peso “360em63”.

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