Raiva em cães: saiba tudo sobre esta doença fatal

A raiva em cães é, entre as doenças que passam para humanos, a mais conhecida por ser fatal. Saiba porquê, como preveni-la e como agir em caso de contacto.

Raiva em cães: saiba tudo sobre esta doença fatal
A única doença cuja vacinação dos cães é obrigatória em Portugal.

A raiva em cães é uma infeção vírica do sistema nervoso, que tem um desenvolvimento agudo e progressivo e que resulta numa encefalomielite (inflamação do cérebro e da medula espinhal). O vírus da raiva infeta maioritariamente carnívoros e morcegos, no entanto qualquer mamífero pode ser afetado.

A raiva está presente por todo o mundo, contudo há alguns países que são declarados como indemnes (livres de) devido à implementação bem-sucedida de programas de eliminação. Portugal é um desses países desde 1961.

A raiva em cães já foi maioritariamente eliminada na América do Norte e na Europa, todavia ainda afeta espécies selvagens como as raposas, guaxinins, doninhas e morcegos.

Etiologia e transmissão da raiva em cães


raiva em caes e mordida de cao

A raiva é causada por um vírus do género lyssavirus. Geralmente, cada variante do vírus é responsável pela transmissão entre animais da mesma espécie numa determinada área geográfica.

A transmissão dá-se quase sempre pela mordedura de um animal infetado, através da introdução da saliva contaminada no corpo da “vítima”. O vírus pode permanecer no organismo por semanas até haver desenvolvimento dos primeiros sinais clínicos, mas geralmente nos cães, este período de incubação dura 21 a 80 dias após a exposição.

Apesar de ser menos comum, esta transmissão também pode ocorrer através do contacto da saliva infetada com uma ferida na pele ou mucosas (boca, olhos…).

O facto da excreção viral (vírus presente na saliva) poder anteceder a manifestação dos sinais clínicos, explica que haja a transmissão sem se desconfiar de raiva (por exemplo, um cão ao brincar com outro que esteja infetado pode ser mordido sem querer e ficar contagiado, sem que ninguém suspeite de que estará infetado com raiva).

Sinais clínicos da raiva em cães


O vírus migra desde o local de entrada no organismo até à medula espinhal e cérebro através dos nervos periféricos. Após atingir o cérebro, volta a migrar via nervosa até às glândulas salivares.

Os sinais clínicos de raiva em cães estão relacionados com alterações no sistema nervoso central.

Os indicadores mais fidedignos são uma mudança abrupta e severa do comportamento e uma inexplicável parálise que se agrava no tempo. Tal inclui perda repentina de apetite, irritabilidade e hiperexcitação, aquisição de comportamentos solitários e agressivos. Os animais selvagens e noturnos podem perder o medo às pessoas e vaguear durante o dia.

Usualmente divide-se o quadro clínico em duas formas: a furiosa e a paralítica.

Raiva em cães – forma furiosa

cao furioso

É a apresentação clássica do cão furioso. Este torna-se irritável e adota atitudes agressivas nas quais mostra e usa os dentes e as unhas à menor provocação. Estão constantemente alertas e ansiosos, com as pupilas dilatadas e muito reativos ao barulho. Salivam excessivamente, atacam outros animais ou pessoas e engolem objetos estranhos e aleatórios como pedras, palha, paus, e até fezes.

Os cachorros afetados procuram a companhia humana e mostram-se demasiado brincalhões, tornando-se viciados em mordiscar.

A doença progride com incoordenação muscular e convulsões, sendo que a parálise progressiva resulta na morte do animal.

Raiva em cães – forma paralítica

raiva em forma paralitica
Nesta forma os animais não se mostram agressivos e raramente tentam morder. Há o desenvolvimento de uma parálise na região do pescoço e dos músculos da mastigação, fazendo com que se apresentem com a mandíbula descaída (queixo caído), com salivação excessiva e dificuldade em deglutir.

A parálise desenvolve-se progressivamente pelo corpo todo, sendo que a morte ocorre em poucas horas.

Nestes casos, é comum os donos infetarem-se por averiguarem com as mãos desprotegidas a boca dos cães, contaminando-se assim através da saliva.

Diagnóstico de raiva em cães


analises laboratoriais raiva

Nas fases iniciais da doença, os sinais clínicos da raiva em cães podem ser facilmente confundidos com os de outras doenças. Como tal, o diagnóstico clínico é difícil e pouco específico.

O diagnóstico definitivo apenas é possível após o animal estar morto pois, é necessário o acesso ao cérebro para se poder proceder aos testes laboratoriais. Este é o motivo pelo qual, quando há fortes suspeitas de que se trate de um caso de raiva, o animal é submetido à eutanásia.

Prevenção e controlo da raiva em cães


Uma vez que não há tratamento para a raiva em cães, é necessário pôr em prática um forte controlo. Tal passa pela profilaxia sanitária, ou seja, a vacinação.

Todos os cães têm de obrigatoriamente ser vacinados contra a raiva a partir dos 3 meses de idade e identificados com o microchip. A revacinação é consoante o fabricante da vacina (anual ou de 3 em 3 anos).

Sempre que há casos de agressões por suspeita de raiva, os animais afetados (agressor e agredido) têm de ser sujeitos a testes e a um período de quarentena, variável consoante as particularidades de cada caso.

Está escrito na lei também, que se uma pessoa for presente a tratamento médico por ter sido agredida por um cão com suspeita de raiva, este facto deverá ser comunicado à entidade policial mais próxima para se proceder à recolha do mesmo.

Campanha de vacinação antirrábica

campanha de vacinacao
Todos os anos, a DGAV (Direção Geral de Alimentação e Veterinária) determina a execução de campanhas de vacinação antirrábica e identificação eletrónica com o objetivo de assegurar a cobertura vacinal dos cães existentes na totalidade do território nacional.

Estas campanhas costumam ser asseguradas pelos médicos veterinários municipais e são divulgadas através de editais, usualmente presentes nas juntas de freguesia.

Risco zoonótico da raiva em cães


mordidela de cao
Sempre que uma pessoa foi exposta a um animal com suspeita de raiva, o risco de transmissão deve ser avaliado e levado a sério, pois é uma das doenças infeciosas com maior taxa de mortalidade.

A entrada do vírus no organismo ocorre através do contacto da saliva do animal infetado com a pele danificada da pessoa, quer seja através de uma mordedura ou de uma ferida já pré-existente.

Uma vez no organismo, o vírus vai causar uma inflamação aguda e progressiva do cérebro e da medula espinal, sendo que após os sintomas se manifestarem, a doença é fatal. Os sinais comuns ao Homem e ao cão passam por alterações de comportamento, paralisia progressiva, excitação e irritabilidade. Nas pessoas desenvolve-se a hidrofobia (medo da água).

Qualquer pessoa que tenha sido mordida por um carnívoro ou morcego deve lavar de imediato a ferida e dirigir-se aos cuidados médicos, sendo que o animal deve ficar em observação no mínimo 10 dias para descartar hipóteses de raiva.

A raiva em humanos tem cura?

No caso de pessoas saudáveis não vacinadas, mordidas por um animal raivoso, a terapêutica consiste no tratamento da ferida, injeção local de anticorpos contra a raiva e várias doses de vacina durante as 2 semanas seguintes. Caso este procedimento tenha sido o mais rápida e oportunamente fornecido, e antes da instalação dos sintomas, é possível que haja uma esperança de sobrevivência.

A raiva também afeta gatos?


raiva nos gatos

O vírus da raiva também afeta gatos, e dados indicam que, nos Estados Unidos da América os casos reportados de raiva em gatos domésticos superaram os de cães desde 1990. Como tal, apesar do vírus ter um comportamento diferente nos gatos, estes são igualmente capazes de transmitir o vírus através da saliva.

Portanto, a vacinação antirrábica dos gatos, apesar de não ser obrigatória em Portugal, é altamente recomendada.

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Drª Rita Campilho Drª Rita Campilho

Rita Campilho é médica veterinária. Apesar de viver na cidade, sempre teve contacto com animais e desde cedo que percebeu a importância destes como parte integrante do ecossistema. Tornou-se médica veterinária no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto e atualmente trabalha com cavalos, cães e gatos. Também com cães na família, acredita que é através da educação e do conhecimento sobre comportamento e saúde animal que se consegue o melhor para os animais e para quem vive com eles.