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Será que bater em crianças para educar é a melhor prática a adotar?

Uma preocupação constante, mas bastante legítima por parte de muitos pais, é a forma como educam os seus filhos. Mas, será que bater em crianças para educar é a melhor prática a adotar?

 
Será que bater em crianças para educar é a melhor prática a adotar?
Bater em crianças para educar é a melhor estratégia?

Visto que a família é o primeiro ambiente social em que a criança participa e aprende regras e modos de se relacionar com os outros, as interações familiares têm um grande impacto nas relações da criança na sociedade (1). Neste sentido, é importante esclarecer se bater em crianças para educar é uma boa estratégia ou não.

Diferentes formas de educar


bater em crianças para educar

Existem diferentes formas de educar, sendo que se torna importante referir que as práticas educativas são constituídas por dois fatores:

1. Fatores de risco para o desenvolvimento da criança: “condições ou variáveis que estão associadas a uma alta probabilidade de ocorrência de resultados negativos ou indesejáveis no desenvolvimento da criança”.

2. Fatores de proteção para o desenvolvimento da criança: “condições ou variáveis que diminuem os fatores de risco, isto é, modificam, melhoram ou alteram a resposta do indivíduo a ambientes hostis que predispõem as consequências mal adaptativas” (2).

Seguindo esta linha de raciocínio, seguem-se duas formas diferentes de modificar o comportamento dos filhos, do ponto de vista de Hoffman (1960). Este autor considera então, que os pais podem intervir no comportamento dos seus filhos das seguintes maneiras:

1. Através de uma disciplina indutiva

Neste tipo de disciplina, os pais utilizam a explicação para modificar o comportamento da criança, exprimindo o seu desejo para que tal aconteça. Desta forma, os pais induzem o seu filho a obedecer, mostrando-lhe que existem consequências para o comportamento em questão.

2. Através de uma disciplina coerciva

Neste tipo de disciplina, os pais recorrem à ameaça, ao uso direto da força, à punição física ou à privação de privilégios como estratégias para modificarem o comportamento dos seus filhos.

A disciplina coerciva reforça o poder parental, na medida em que é utilizada a aplicação direta da força e do poder dos pais. Os pais também assumem o controlo do comportamento dos seus filhos através de ameaças e sanções externas (1).

Qual destas disciplinas se deve adotar?


Um grande número de países defende que as punições físicas são uma infração aos direitos da criança e um risco ao seu crescimento e desenvolvimento (2). Isto porque, segundo vários autores, a aplicação de estratégias coercivas pode resultar em situações de violência mais intensas e pode fazer com que a criança apresente diversos problemas psicológicos e/ou comportamentais (1). Ou seja, a melhor prática a adotar seria a disciplina indutiva.

Neste sentido, acaba por surgir a questão de que as interações familiares fundamentam as relações da criança na sociedade, visto que é na família que a criança aprende algumas regras que posteriormente irá utilizar noutros ambientes, como por exemplo a escola (1). A prática de estratégias coercivas por parte dos pais, muitas vezes faz com que a criança acabe por reproduzir comportamentos violentos na sua adolescência e vida adulta, tanto no âmbito familiar como no social (2).

Bater em crianças para educar: efeitos negativos do uso de estratégias disciplinares coercivas


Bater em crianças para educar

Torna-se evidente, desta forma, que as práticas coercivas, ou seja, a utilização de estratégias como por exemplo a ameaça, o uso direto da força, a punição física e a privação de privilégios (1), estão cada vez mais a ser consideradas como inadequadas e arriscadas, tornando-se numa infração aos direitos da criança (2).

Constata-se assim, que estas práticas geram medo, insegurança e baixa autoestima. Segundo Martins (2009), a responsabilidade dos pais é a base necessária para a socialização da criança, assim, estes devem dar ao seu filho um ambiente seguro e incentivador onde ele se possa desenvolver da melhor forma. É função da família ser uma fonte de segurança, afeto, proteção e bem-estar (1).

Exemplos de vários efeitos negativos das práticas coercivas

Estes são alguns exemplos de vários efeitos negativos no uso da força, punição física, etc. (práticas coercivas):

  • Aumentam o risco de que as crianças sejam vítimas de abusos físicos, porque existe uma tendência para a intensidade das punições aumentar a cada reincidência;
  • São pouco eficazes;
  • Aumentam a agressividade das crianças, no sentido em que estas acabam por relacionar a agressão à vontade dos pais em terem aquilo que pretendem, fazendo com que os seus filhos se comportem da mesma forma sempre que virem os seus desejos contrariados;
  • Dão a ideia de que a melhor forma de se obter aquilo que se quer passa pela violência e pela força;
  • Fazem com que o relacionamento entre pais e filhos seja baseado no medo e não no respeito;
  • Aumentam a ansiedade e diminuem a confiança da criança;
  • Podem fazer com que a criança evite comportar-se mal à frente dos pais, no sentido de evitar a punição. Contudo, não a ensinam a ser responsável e independente de forma a se comportar de modo socialmente e moralmente aceitável;
  • A longo prazo, aumenta a probabilidade de a criança se tornar um adulto: com comportamentos antissociais, agressivos e criminais; vítima de abusos físicos por parte do parceiro ou agressor de filhos e parceiros (na medida em que se estabelece a ideia de que a violência física nos relacionamentos afetivos é aceitável) e com baixo autocontrole, aumentando assim a probabilidade de delinquência (2).

Após a verificação destes efeitos negativos, torna-se necessário evidenciar alternativas a estas punições (2).

Bater em crianças para educar: alternativas às práticas coercivas


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Alternativamente às práticas coercivas pode:

1.  Contar até 10: dizer à criança que o que ela fez, faz com que os pais fiquem zangados, permitindo a possibilidade de falar sobre o assunto mais tarde, dando tempo não só aos pais para pensarem no quê e como dizer, como também à criança, para que esta pense no que fez de errado.

2. Ser positivo: em vez de utilizar uma frase do género: “Será que tenho sempre que te mandar ir tomar banho?”, é mais plausível utilizar uma deste tipo: “Porque não vais tomar banho para depois vermos os desenhos animados os dois?”. Isto faz com que seja evidente para a criança que só vai ver os desenhos animados quando tiver tomado banho.

3. Estabelecer regras e consequências: utilizar regras apropriadas para a idade da criança e explicar que existem consequências caso ela não as cumpra. Ex: “Enquanto não fizeres os trabalhos de casa, não podes ver televisão.

4. Ensinar a assumir as consequências: errar é humano. Explicar que os erros devem ser corrigidos, incentivar a criança a desculpar-se e a fazer alguma coisa para compensar. Bater ensinaria a não repetir o erro mas, por outro lado, incentivaria a esconder erros futuros, mentir, culpar os outros e evitar ser “apanhada” novamente.

5. Criticar a ação, não a criança: incentivar a criança a agir corretamente, em vez de utilizar rótulos.

6. Encorajar e recompensar o bom comportamento: dizer à criança que o facto de ela ter feito o que foi pedido, faz com que os pais fiquem felizes. É importante ter em conta que se devem evitar presentes ou dinheiro como forma de compensação: “o bom comportamento não é matéria de negociação.” (2) Ensiná-la a agir para o seu bem, orgulho dos pais ou porque simplesmente é adequado, é a melhor forma de o fazer.

7. Dar explicações, não fazer ameaças: para que a criança faça algo que é pretendido, é necessário explicar-lhe o porquê de o dever fazer.

8. Dar bons exemplos: se os pais adotarem uma atitude correta, com bons exemplos, o mais provável será a criança repetir esse mesmo padrão. “Dar o exemplo”.

9. Negociar: avisar quando faltarem 10 minutos para poder acabar determinada tarefa, dando o poder à criança de negociar, no sentido de mostrar que o facto de tal tarefa ser importante para ela é considerado e entendido, mas que há limites.

10. Dar opções: no caso de a criança recusar ou implicar com algum tipo de tarefa obrigatória, deverá ser dada opção de escolha dentro daquilo que a própria tarefa obriga. Assim, estará a ser demonstrado que a opinião da criança é levada em consideração, mas que a questão de executar ou não essa tarefa, não é negociável.

11. Ser amável, mas firme: em vez de gritar para obrigar a criança a ter determinado comportamento, é mais eficaz tomar outro tipo de atitudes, como por exemplo: ajoelhar para ficar à altura da criança, mantendo contacto visual, falando calmamente e de forma direta.

12. Destinar um tempo apenas para a criança: a falta de tempo para estar com filhos apenas e só, faz com que a única forma que eles terão de chamar a atenção dos seus pais será comportando-se mal. Destinar um tempo só à criança irá contrariar essa tendência.

13. Usar quadros para incentivar o bom comportamento: anotar as atividades diárias cumpridas corretamente e sem birras. Cada uma delas merecerá um ponto (2).
Deste modo, é possível afirmar que as práticas coercivas acima explicadas são consideradas fatores de risco ao desenvolvimento das crianças. Ou seja, a prática frequente do bater na criança para que ela faça aquilo que se pretende é um fator que põe em risco de variadas formas o desenvolvimento da criança (1).

Veja também:

Fontes

1. Dapieve Patias, Naiana., Cardoso Siqueira, Aline., Garcia Dias, Ana Cristina. Bater não educa ninguém! Práticas educativas parentais coercitivas e suas repercussões no contexto escolar. Educação e Pesquisa. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=29824610010
2. Flores, R. Bater nos filhos não é educar: orientações para a utilização de práticas alternativas de disciplinar. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/187022/Resumo_10245.pdf?sequence=1&isAllowed=y

Inês Rocha Inês Rocha

Inês Rocha é licenciada em Psicologia pela Universidade Portucalense Infante D.Henrique, com formação profissional de Técnica de Ação Educativa. Exerce atividades como animadora de atividades, voluntariado e babysitting.

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