Crónica #35: o meu plano de parto

Nenhuma gravidez, seguida no público ou privado, devia terminar sem a elaboração de um plano de parto. Este é o meu.

Crónica #35: o meu plano de parto
A minha gravidez sem pós de perlimpim

Nas poucas vezes que falei sobre ”plano de parto”, insistiram comigo que não servia para nada e que não me devia preocupar tanto. Mais: que preocupar-me tanto me fazia mal. Nada mais errado! É porque as mulheres não se preocupam com o parto, porque deixam a decisão nas mãos de terceiros e porque não se informam sobre as suas opções, consequências e direitos, que existem tantas histórias de partos traumatizantes.

Quando as primeiras doulas surgiram no nosso país - ainda eu vivia uma vida muito diferente - pesquisei muito sobre estas mulheres, sobre o parto natural e sobre o parto na água. Eu, que já nos meus vinte anos, ainda fazia análises de sangue com a agulha dos bebés, desejei um parto na água, um parto o mais natural possível. Afinal, se a minha mãe e a minha avó conseguiram, eu também consigo. Creio que nunca partilhei isto com ninguém.

Posto isto, está fácil de ver que, no meu caso, o plano de parto, é absolutamente essencial uma vez que há uma série procedimentos que não quero para mim. Ainda que, na obstetrícia, na verdade, não se pode planear nada, o plano de parto devia ser obrigatório em todos os hospitais nacionais. Porquê? Se tudo correr como previsto, há uma série de questões que já estão definidas, poupando a mulher a perguntas num momento em que tudo o que não precisamos é de tomar decisões. 

O meu plano de parto não é estanque ou fundamentalista e isso fica claro logo nas primeiras linhas: “Os pontos abaixo foram definidos considerando que o parto decorra dentro da normalidade. Numa situação de emergência, em que a minha vida e/ou a do Pedrinho estejam em risco, confio na equipa médica e admito alterações a este plano, desde que, tanto quanto possível, nos sejam explicados os termos, a necessidade e as implicações dessas alterações.”

De resto, o meu plano de parto é muito simples:

  • Desejo que o parto seja no Centro Hospitalar da Póvoa do Varzim/Vila do Conde, se possível, numa sala com luz natural
  • Desejo ter o Marco sempre presente, de forma ativa, com liberdade de movimentos
  • Desejo um parto natural, no meu tempo e do Pedrinho, sem pressões
  • Desejo ser acompanhada por uma equipa vocacionada para partos naturais 
  • Deposito confiança na equipa para me auxiliarem no controlo da dor física e psicológica
  • Desejo ter liberdade total de movimentos
  • Desejo o mínimo de intervenção e exames possível como, p.e., toques vaginais ou episiotomia
  • Desejo que não sejam administrados fármacos ou feitos procedimentos sem consentimento prévio
  • Desejo manter ao mínimo o número de profissionais que nos assistam
  • Desejo poder usar métodos de alívio da dor: bola de pilates, banheira, duche e saco de água quente
  • Desejo que a monitorização do bebé seja feita, de preferência, com equipamento móvel ou sem fios
  • Desejo poder ouvir música, reduzir a luz ou ajustar a temperatura da sala
  • Desejo que a expulsão seja suave e sem pressas
  • Desejo que após a expulsão seja imediatamente feito o contacto pele com pele - mesmo se cesariana
  • Desejo amamentar na primeira hora e que o Pedrinho fique no meu colo nesse período
  • Desejo que o corte do cordão umbilical seja feito apenas quando o cordão parar de pulsar
  • Desejo que a saída da placenta seja natural - sem recurso a químicos
  • Desejo que todos os exames realizados ao Pedrinho sejam feitos na nossa presença
  • Desejo que o primeiro banho seja dado por nós
  • Desejo anestesia se for necessário ser suturada
  • Não desejo ser separada do Pedrinho
  • Não desejo depilação, clister ou canalização da veia 
  • Não desejo descolamento de membranas, amniotomia ou oxitocina sintética para acelerar o parto
  • Não desejo biberão, chupetas, bicos de silicone ou leite artificial
  • Nada a opor sobre injeção de vitamina K, colírio/pomada para os olhos do bebé ou teste auditivo

 

Veja também: